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3096 dias (Natascha Kampusch)

Confesso que comecei a leitura de 3096 dias mais pelo interesse - mórbido - que este tipo de tema gera do que procurando qualidades de escrita notáveis. No entanto, se há algo em que este livro se destaca é pela astuta análise psicológica que sua autora faz de si própria e de seu sequestrador.

Talvez por ter feito um intenso trabalho de terapia, para recuperar-se dos oito anos mantida em cativeiro, Natascha Kampusch tem uma visão arrebatadora das circunstâncias a que foi submetida.

O livro não se detém apenas nos anos do sequestro; a jovem autora traça todo o panorama da sua infância, buscando quais características lhe deram forças para sobreviver aos longos anos presa em um cubículo. É uma análise bastante fria do meio em que viveu - seja em casa, seja no cativeiro - mas, justamente por isso, bastante intrigante e reveladora.

Eu já estava tão profundamente confinada que o cativeiro também se encontrava dentro de mim.

Criar histórias com meus personagens, que eu equipava com as últimas novidades tecnológicas, foi minha salvação nas noites escuras no cativeiro. Durante horas, minhas palavras tornavam-se uma espécie de casulo protetor, que me envolvia e não permitia que nada nem ninguém me machucasse.

A Natascha adulta abraçou a Natascha menor (...) e a confortou, dizendo: 
- Vou tirar você daqui, prometo. Você ainda não pode fugir, porque é muito pequena. Mas, quando tiver 18 anos, vou dominar o sequestrador e libertar você desta prisão. Não vou abandoná-la. 
Naquela noite, fiz um pacto com meu próprio eu mais velho. E mantive a palavra.

Nós, seres humanos, temos a capacidade de criar a aparência de normalidade mesmo nas circunstâncias mais anormais, para não enlouquecer - para sobreviver. Às vezes, as crianças fazem isso melhor que os adultos.

As coisas não são totalmente pretas ou brancas. E ninguém é totalmente bom ou mau. Isso também vale para o sequestrador. Essas são palavras que as pessoas não gostam de ouvir de uma vítima de sequestro. Porque os conceitos de bom e mau já estão claramente definidos, conceitos que as pessoas querem aceitar para não perder o rumo em um mundo de tons de cinza. Nossa sociedade precisa de criminosos como Wolfgang Priklopil para dar um rosto ao mal e afastá-lo dela mesma. É preciso ver imagens desses porões para que não se vejam os muitos lares em que a violência ergue sua face burguesa e conformista. A sociedade usa as vítimas desses casos sensacionalistas, como o meu, para se despir da responsabilidade pelas muitas vítimas sem nome dos crimes praticados diariamente - vítimas que não recebem ajuda - mesmo quando pedem. Crimes assim, como o que foi cometido contra mim, formam a estrutura austera, em branco e preto, das categorias de bom e mau, nas quais a sociedade se baseia. O criminoso deve ser um monstro, para que possamos nos ver ao lado dos bons. O crime deve ser acrescido de fantasias sadomasoquistas e orgias selvagens, até que seja tão extremo que não tenha mais nada a ver com nossa própria vida. E a vítima deve ficar destruída e permanecer assim, para que a externalização do mal seja possível. A vítima que se recusa a assumir esse papel contradiz a visão simplista da sociedade. Ninguém quer ver isso, porque, caso contrário, as pessoas teriam de olhar para dentro de si mesmas.

Nota: 9,0









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