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Mostrando postagens com o rótulo crítica literária

El texto encuentra un cuerpo (Margo Glantz)

Tenho me apaixonado por tudo o que a Relicário Edições publica sob o selo Nosotras – foi esse o caminho que fiz para encontrar este livro singular de Margo Glantz, assim que ouvi seu nome anunciado como próximo lançamento da editora. Conjunto de ensaios literários que seguem, em geral, um fio condutor que passa pelo corpo e pela escrita das mulheres, o livro não me conquistou. Além de não estar a par de muitos dos nomes citados (que são bastante eurocêntricos, aliás), há algo na própria estrutura dos textos que me incomodou. Cada ensaio termina como um ponto sem nó, passando a ideia de inconcluso, esboço ao qual falta uma conclusão. O livro tem boas passagens e reflexões, mas elas não conseguem sustentar, sozinhas, o edifício da obra.

Os possessos (Elif Batuman)

Elif Batuman é um nome que reapareceu com força no mercado brasileiro, com o lançamento de A idiota . Assim como em sua obra mais recente, Os possessos  deixa bem claro, já pelo título, o paralelo com a literatura russa. E, curiosamente, Batuman é uma escritora estadunidense com ascendência turca – o que dá à sua escrita uma visão muito particular de mundo.  Filha do Oriente e do Ocidente, a autora traz uma perspectiva singular para entender a história da Rússia, país com raízes espalhadas por dois continentes tão diversos quanto a Europa e a Ásia. O livro traz muitas reflexões instigantes; entre as que ainda reverberam em mim, estão estas:  - o porquê de os escritos de Dostoiévski e Tolstói, bem como de outros seus contemporâneos, gerarem uma identificação tão forte com seus leitores; - a repetição de motivos, alegorias e estratégias similares e o consequente empobrecimento da literatura contemporânea; - como os nomes dos personagens podem ser: um reflexo do quanto o esc...

Que é a literatura? (Jean-Paul Sartre)

Nunca tinha lido Sartre, e meu receio era me deparar com um texto filosófico difícil, muito intrincado — mas com o que realmente me topei foi com um senhorzinho rabugento e lacrador. Assim como a filosofia das frases cala-boca, que adoram uma boa generalização, é muito fácil ver a tese principal defendida neste livro deslizar pelo terreno das falácias... ao que Sartre prontamente responde: segundo ele, escolheu o que era mais urgente de ser debatido. E esse viés de decidir pelo imediatismo da sua própria proposição não passa muito longe da manha de um garoto mimado. Algumas alfinetadas ao longo da obra são realmente divertidas, e não de todo inválidas: quando diz que a burguesia quer decidir com que molho será devorada, que os surrealistas corrompem o mundo só para ir contra o papai rico... É hilário, mas um tanto raso (ainda que carregado de verdades). A grande solução proposta para o problema da literatura – democratizá-la sub-repticiamente pelos meios de comunicação, como roteiros d...

Literatura para quê? (Antoine Compagnon)

Apesar de publicado em 2009, Literatura para quê ? me cheirou a teoria literária empoeirada, guardada em estante. A proposição inicial de Compagnon é o que mais me interessou em seu curto livro: para ele, cabe fazer uma distinção entre a vertente teórica, que tenta aplicar  ideias clássicas consagradas (retórica e poética) e a v ertente histórica, que observa circunstâncias da época e contexto social (história literária e filologia). Contudo, apesar da diferenciação, avisa que o mais prudente é andar pelo caminho do meio, evitando as tensões extremas no campo da literatura. Já o panorama histórico abordado por Compagnon, para justificar a suposta falta de interesse atual pela literatura, é bastante elitista. Além do mais, não considera a raiz da arte literária (que é oral) e nem as diferentes formas de mantê-la viva, fora do restrito campo de autores homens brancos e europeus aclamados. Além disso, na sua defesa entusiasmada da literatura, o autor ousa propor que ela talvez seja re...

Aulas de literatura: Berkeley, 1980 (Julio Cortázar)

Transcrição das aulas de Cortázar na Universidade de Berkeley nos anos 1980, o livro traz bastante do autor comentando a própria obra, explicando seu processo criativo e os fundamentos que norteiam sua literatura. No entanto, longe de ser um curso autocentrado, as palestras de Cortázar usam seus próprios escritos como exemplos de características mais amplas da produção literária (especialmente a latino-americana). Assim, o livro transita por diferentes temas, como a definição (sempre inconclusa) de realismo e fantástico, o tempo e a fatalidade na trama, a musicalidade, o lúdico, o erótico e o humor na escrita. Por ser um escritor bastante engajado contra a ditadura e entusiasta do governo de Fidel, hoje já não é possível ler as aulas de Cortázar sem passá-las pelo filtro temporal que nos distancia da década de 1980. Ainda assim, no que se refere às técnicas e problematização da composição literária, continua uma obra muito atual.

ABC of reading (Ezra Pound)

Conhecido no mundo das letras por seus posicionamentos políticos questionáveis (quando não deploráveis), Ezra Pound é uma figura que incomoda. O mesmo sentimento se aplica em relação aos seus escritos sobre literatura, bastante enviesados (quando não autocentrados). No entanto, o tom petulante de Pound não deixa de dar a graça a um livro que é essencialmente feito de crítica literária. Longe do tom sisudo da academia, a obra acaba sendo uma delícia de ler - mesmo que tantas vezes discordemos das generalizações e dogmas de seu autor. Calcada na ideia de uma boa literatura que engloba um círculo muito restrito de autores, é uma obra que perde muito com o olhar mais crítico que nossa modernidade exige. Ainda assim, não deixa de ser um bom livro para iniciar a leitura mais atenta de poemas.

Romancista como vocação (Haruki Murakami)

Gosto do estilo fluido de Murakami, que supera as inverossimilhanças e descrições supérfluas que encontramos ao longo de sua obra. Ainda que o considere mais um autor de entretenimento do que produtor de uma literatura complexa, acabo me rendendo à leitura de seus livros quase todo ano. Seu jeito de compor a narrativa faz que ela seja rapidamente absorvida, criando um vínculo prazeroso entre autor e receptor. Do conjunto da produção, o livro de que menos gostei foi justamente este "Romancista como vocação". Esperava encontrar neste pequeno livro algumas das reflexões pertinentes com que havia me deparado no excelente "Do que falo quando falo de corrida"; no entanto, ao retomar pensamentos sobre sua carreira literária, aqui vemos um Murakami mais amargurado, irônico, tentando disfarçar sarcasmo com um pretenso tom de impassibilidade. Questões como a eterna indicação ao prêmio Nobel são trazidas à tona, com um desprezo mal escondido em relação aos críticos. O que ...

O corvo e suas traduções (Ivo Barroso)

Desde o trocadilho tradutor traidor até o campo de análise que se pretenda o mais analítico possível, a tradução parece destinada a gerar debate - e a inflar as paixões dos ratos poliglotas de biblioteca. Um tanto cansativa - afinal, trata-se de uma coletânea considerável de traduções do mesmo poema -, ainda assim a obra de Ivo Barroso se propõe a ganhar o leitor para as releituras que considera mais adequadas de "O Corvo". O autor não dispensa argumentos para elogiar os tradutores que considera mais felizes na tarefa de apresentar Poe ao leitor brasileiro, e nem tem papas na língua para criticar passagens do poema que considere mal vertidas de uma língua a outra. Ainda que bastante tendencioso ao listar suas traduções preferidas, é um livro rico para entender o quão complexa e intimidadora pode ser a tradução de poesia.

Esse ofício do verso (Jorge Luis Borges)

Conheço bem o mito de Jorge Luis Borges - um dos escritores latino-americanos mais galardoados -, mas tenho a sensação de saber bem pouco de sua obra. Talvez essa impressão derive do fato de a produção do argentino ser tão vasta: de poesia a conto, de crônica a novela, de ensaio a recriação de outras narrativas. Ademais de ter escrito em diversos gêneros e contabilizado um número significativo de páginas em sua produção reunida, aparentemente tudo o que Borges escreveu é digno de fazer parte do cânone. Dessa forma, mesmo que já tenha lido algo do argentino, sempre fica a sensação do quão pouco o conheço (e do quanto ainda tenho a desvendar). "Esse ofício do verso" é um livro belíssimo, que pode servir inclusive de porta de entrada à produção do escritor. Nele, são reunidas algumas palestras em que discorre sobre temas tão complexos e apaixonantes como a função social da poesia, a preservação do espírito poético, a necessidade de uma épica moderna e a sonoridade dos versos. ...

Escola de tradutores (Paulo Rónai)

Publicado no anos 1950, quando os estudos de tradução no Brasil e no mundo ainda lutavam pelo status de campo teórico, "Escola de tradutores" é um livro que revela a sensibilidade aguçada de Paulo Rónai, profissional de extrema competência e homem que viveu dividido entre terras e linguagens. Com acréscimos de artigos e revisões por quase 4 décadas, a obra é um bom espelho do apuro técnico e edição sistemática de seu autor. Ainda que algumas reflexões sejam bastante datadas, é muito interessante ver o quanto Rónai já antecipa fatos que só ocorreriam meio século depois - como o avanço da tradução automática, a profissionalização do tradutor, a necessidade cada vez maior de usar tradução em um mundo de fronteiras fluidas. Para além dessas questões, o que mais encanta no livro é a sensibilidade impressionante de seu autor. No texto mais tocante do conjunto, ele nos conta, por exemplo, como teve de traduzir (a mando da censura do governo) a carta em que seus parentes relatava...

A tradução literária (Paulo Henriques Britto)

O campo teórico da tradução é bastante recente; no entanto, mesmo que tenha se consolidado apenas nos anos 1970, já conta com inúmeras linhas de raciocínio e vertentes ideológicas (muitas vezes desenvolvidas por quem não exerce o ofício). Este pequeno livro de Paulo Henriques Britto, poeta e tradutor de longa data, é uma excelente apresentação às diversas possibilidades de pensar a atuação do profissional da área. Britto parte de sua experiência para elaborar um texto afiado, que expõe os problemas e as contradições de muitas das teorias tradutórias. Assim, sua obra é não só uma introdução aos principais temas discutidos na área, mas também uma análise fortemente fundamentada deles. O humor do autor é delicioso, o que torna temas "cascudos" (como a contagem de sílabas métricas de versos jâmbicos) se tornarem deliciosos para o leitor. É uma obra feita com absoluta seriedade, mas com o tom de um bom professor - que sabe não só listar informações, mas também discuti-las,...

Introducción a la literatura norteamericana (Jorge Luis Borges & Esther Zemborain)

A obra, bastante curta, é um gostoso passeio pela biblioteca labiríntica de Jorge Luis Borges. O autor nos apresenta a história da literatura estadunidense por meio da biografia de seus escritores preferidos; assim, o livro é um interessante compilado de curiosidades literárias. Por serem textos bastante breves sobre cada autor, o livro deve agradar mais o público que já conhece minimamente algo sobre a literatura do país (caso contrário, pode soar uma listagem enfadonha). Também é preciso ter em conta que, escrito nos anos 1960, a obra não contempla nenhuma representatividade (além de ter um ou dois implícitos de cunho um tanto racista). 

A vida secreta dos grandes autores (Robert Schnakenberg)

Todo ilustrado pelo cartunista Allan Sieber e com uma capa que brinca com a ideia dos tabloides de fofocas, em princípio é difícil levar esta obra a sério. No entanto, usei como termômetro da confiabilidade da leitura as informações que já possuía. Sobre Tolstói, por exemplo (sobre quem já li uma biografia de quase 600 páginas), nenhum dado oferecido por essa biografia divertida me pareceu demasiado exagerado ou irreal. Tomando este russo como parâmetro, a obra, ainda que tenha sim o propósito apelativo, não deixa de ser informativa. Para quem gosta de literatura é quase um fan service . Para quem não gosta, é um bom meio de descer os escritores do pedestal e torná-los mais próximos, reais e falhos (se não na escrita, ao menos como humanos).

Érico Veríssimo: o romance da história

O livro contém artigos dos acadêmicos Sandra Jatahy Pesavento, Jacques Leenhart, Ligia Chiappini e Flávio Aguiar sobre cada uma das partes da saga O tempo e o vento , além de um texto para a obra como um todo. Além disso, há uma entrevista e um ensaio inéditos de Antonio Candido sobre a trilogia do escritor gaúcho. Os textos de Candido iniciam o volume e são bastante interessantes (talvez de uma época em que o professor não fosse tão reverenciado, endeusado), provocadores. Ele fala abertamente contra a ditadura e prova por que Érico é um escritor a favor da democracia (na época, a publicação deste texto foi proibida pela censura). Apesar de já conhecer mais a obra de Ligia Chiappini e de ter apreciado mais seus artigos (inclusive uma crítica à leitura de FHC da obra), no geral o livro ampliou o meu leque de reflexões sobre O tempo e o vento . Alguns questionamentos que, para mim, só surgiram após a leitura deste livro de apoio foram: - o fato de o Sobrado ser um personagem da obr...

Para entender o doutor Jivago (Queiroz Junior)

Livrinho bem chinfrim, que ajuda mais a entender como o romance o Doutor Jivago causou polêmica do que a compreender o romance em si. O estudo foi feito por militantes de esquerda brasileiros na época da Guerra Fria - assim, é todo um libelo para provar que a obra-prima de Pasternak foi uma alegoria política sem valor literário. Ou seja, um projeto de livro que se baseia em uma premissa falsa.

A tentação do impossível (Mario Vargas Llosa)

Compilação de um curso ministrado pelo autor peruano, "A tentação do impossível" traz uma interpretação bastante sensata da obra magistral de Victor Hugo. Apesar de ser, claramente, um grande fã das aventuras de Valjean e Javert, Llosa não deixa de registrar o que considera inverossimilhanças ou exageros no romance - bem como explica por que até eles podem ter sido empregados intencionalmente. Llosa analisa bastante a potência da voz do narrador na história - onipotente, onisciente, argumentativa, irrevogável. O poder de um deus sobre seus personagens cai como uma luva em um livro bastante católico, cujo prefácio, por exemplo (nunca terminado) tinha a intenção de provar a existência do divino. Marius é identificado como um personagem medíocre na história, assim como Cosette representa a futilidade - posições com as quais me identifiquei - em um contexto em que os personagens são quase todos sobre humanos, seja na miséria, seja na bondade. Os traços teatrais da obra t...