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Mostrando postagens com o rótulo Literatura nigeriana

Notas sobre o luto (Chimamanda Ngozie Adichie)

O canto de dor de Chimamanda ao narrar a morte de seu pai repercute em qualquer um de nós que já tenha vivenciado o luto. Mais do que o sentimento profundo da perda, o livro também compartilha a angústia de quem teve de acompanhar o velório de um ente amado pelo Zoom, em plena crise da covid-19. Há um tom de diário nesses textos sobre a experiência da morte – um desabafo, um desespero. A obra não está preocupada em oferecer consolo aos que ficam, tampouco se constitui somente de homenagens ao pai. Trata-se mais de insistir no direito a ficar triste, o deixar-se lamuriar sobre o papel. Não é uma obra para quem busca conforto. Entretanto, não é por isso que deixa de causar identificação – mesmo que seja entre lágrimas.

Hibisco roxo (Chimamanda Ngozie Adichie)

Livro de estreia da aclamada escritora Chimamanda Ngozie Adichie, Hibisco roxo é uma leitura violenta. Desde as primeiras páginas, somos apresentados a uma família disfuncional, mas que é vista como exemplar na sociedade em que está inserida. Ainda que haja fortes laços de ternura entre os dois irmãos e a mãe, eles são a todo momento esgarçados pela figura austera e opressora do pai. Se, por um lado, a escolha de apresentar personagens jovens como vítimas pode parecer um meio fácil de ganhar a simpatia do leitor, por outro lado há decisões mais complexas na narrativa tecida pela autora. Uma delas é construir o grande vilão de sua história como um tirano no ambiente doméstico e um mártir progressista no ambiente social. Assim, a escrita de Chimamanda é incômoda o tempo todo: porque sabemos que haverá mais cenas de violência e, mesmo assim, temos consciência de partilhar dos mesmos ideais políticos de quem a exerce. Além disso, nem sequer as vítimas são dóceis; além de nos irritarem com...

Tudo de bom vai acontecer (Sefi Atta)

Vi alguns leitores comparando esta obra de Sefi Atta à tetralogia napolitana, de Elena Ferrante. A comparação até me parece justa, desde que tenhamos em mente que a obra de Sefi Atta foi escrita uma década antes da de Ferrante – apenas não teve a mesma visibilidade por motivos óbvios de como formamos e mantemos um cânone literário eurocêntrico. O livro foi me ganhando aos poucos. No entanto, o desinteresse que a protagonista causa ao início também é calculado pela autora; como uma boa narrativa de formação, tem como objetivo mostrar as mudanças pelas quais a personagem passa e como, a partir delas, consegue reler os fatos de seu passado. Conforme a protagonista se enxerga como feminista e consegue se libertar de algumas amarras sociais (bem como incentiva sua melhor amiga a fazê-lo), o discurso que perpassa a ficção é encantador – e remete bastante às famosas palestras de Chimamanda, que abriu o caminho ocidental para a descoberta de uma literatura nigeriana incrível.

O mundo se despedaça (Chinua Achebe)

O romance de estreia de Chinua Achebe traz um tom quase antropológico, ao revelar aspectos da vida no território africano ocupado pelos igbos antes da chegada do colonizador. O que dá força à obra é que, por mais que seja uma literatura reivindicatória, não idealiza a vida que existia antes do choque violento com a cultura do homem branco. Para mim, foi uma leitura muito envolvente, ainda que altamente descritiva. Boa parte da obra não arma grandes suspenses ou cria conflitos insolúveis; o que predomina é o acompanhamento da vida tal qual ela se desenrola. Ao final, conforme o contato com o colonizador vai se tornando mais agressivo (mesmo que mascarado pelas supostas boas intenções dos missionários), o livro ganha enormemente em força. O desfecho da trama, nas últimas páginas, é um dos melhores com os que já me encontrei.

Para educar crianças feministas - um manifesto (Chimamanda Ngozi Adichie)

Com um discurso potente, uma argumentação estruturada, Chimamanda consegue defender o feminismo de um modo delicado - porém esmagador. E essas duas facetas, tão opostas, são absolutamente necessárias: a delicadeza da sororidade e o peso de quem não se cala para não ser considerada dura ou pouco feminina. Chimamanda é a mulher que sabe dosar essas vozes, e atingir parcelas diferentes e por vezes incomunicáveis da sociedade. Publicado como manifesto, o livro é, em verdade, uma carta que a autora escreveu para responder à pergunta de uma amiga: como educar minha filha para ser feminista? Depois de algum tempo (e, inclusive, após Chimamanda se tornar mãe de uma menina), o texto foi revisto e retomado, incorporando novas verdades. Livro curto, didático, necessário. Afinal, se queremos falar de justiça, paz, amor, temos de antes discutir a igualdade. Não há bondade onde as oportunidades são diferentes. Ser feminista, assim, não é uma opção - é o único caminho para transformar o mundo em ...

Sejamos todos feministas (Chimamanda Ngozie Adichie)

"Feminista" é uma palavra feia, que assusta. Quem a utiliza são mulheres amarguradas, raivosas, que brigam o tempo inteiro sem ter motivo. - Essas são as palavras que Chimamanda Adichie ouve ao começar a se denominar como feminista. E que mulher minimamente consciente da necessidade de lutar por seus direitos já não se deparou igualmente com esses preconceitos absurdos? A autora explica belamente porque ser feminista não é uma ofensa a ninguém - ao contrário do machismo. Ilustra com exemplos de sua vida pessoal o quanto o fato de ser mulher nos obriga a fazer escolhas que protejam a nossa imagem o tempo todo. Não podemos ter a liberdade de escolher determinadas roupas, atitudes ou caminhos, pois sabemos que as consequências podem ser negativas, violentas. Aí seguem alguns trechos selecionados pelo blog www.shereland.com: 10 citações de Chimamanda em Sejamos Todos Feministas "Se repetimos uma coisa várias vezes, ela se torna normal. Se vemos uma coisa com...

Americanah (Chimamanda Ngozi Adichie)

Estudar literaturas africanas foi uma das minhas melhores descobertas na faculdade - no entanto, africanidade não significou negritude no meu curso de Letras. Além da maioria dos professores brancos, os autores mais estudados também o são. Sem tirar a qualidade de um Mia Couto ou um Agualusa, é preciso considerar que a grade curricular é também uma escolha ideológica. E se a proposta do governo é inserir o estudo de literaturas africanas de língua portuguesa na escola, isso não pode ocorrer apenas por meio de livros escritos por autores que nunca sofreram racismo. Chimamanda N. Adichie sabe abordar as questões relativas à cor da pele e ao preconceito de modo instigante, polêmico, verdadeiro. A autora cria nuances nos personagens, que não se revelam totalmente bons ou maus - mais filhos do sistema do que donos das próprias escolhas. A narrativa é longa, bastante detalhada. Se, por um lado, isso faz que as primeiras páginas do livro não encantem de cara, por outro traz um env...