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Mostrando postagens com o rótulo Literatura chilena

Lágrimas de oro (Alejandro Jodorowsky)

Da produção multissemiótica do chileno Alejandro Jodorowsky, só conhecia o filme "Poesia sem fim" - uma obra que adorei, mas que me perturba. A faceta de cineasta surrealista também aparece nos cinco contos que compõem esta coletânea. Com uma síntese elaborada, as histórias quase se assemelham a parábolas, temperadas pelo absurdo e pelo onírico.

Paula (Isabel Allende)

De Isabel Allende só li textos autobiográficos até agora: comecei por Mi país inventado e, agora, enveredei por Paula . Talvez um certo receio de encontrar uma ficção com muitos elementos sobrenaturais me afaste de conhecer sua obra mais a fundo. No entanto, a escrita envolvente que encontrei nesses dois livros é um convite persuasivo a ler mais da produção da autora chilena. Em Paula , narra-se a dor da mãe que acompanha o definhar da filha. Como Allende declara nas primeiras páginas, o romance é uma tentativa de manter Paula viva; uma espécie de opção desesperada de segurar o fio da existência pela narrativa, tal como a mulher do sultão nas 1001 noites .  Entremeada à tentativa de entender o que significou a vida da filha, a escritora tece também a própria história: acompanhamos ao longo das páginas uma autobiografia que abrange desde a meninice até à mãe desesperada pela perda de quem ama. Além dos trechos tocantes que lidam com o luto, há várias reflexões profundas na obra: d...

Tornar-se Palestina (Lina Meruane)

Minha visão do conflito israelense-palestino-árabe foi construída literariamente por meio da obra de Amós Oz, escritor de origem judia. O que nunca tinha me ocorrido até então é o quanto essa abordagem só dava conta de uma das narrativas possíveis para a região — e o pior, do ponto de vista de quem está ganhando. Lina Meruane coloca muito claramente o seu lugar de fala nesta curta e potente obra: ela não é palestina. Nasceu no Chile, já com pouquíssimas ligações com a terra e a cultura que ficaram do outro lado do oceano. Entretanto, na sua tentativa de resgate da história familiar, a autora percebe que nada disso a impede de conhecer as cruezas do conflito que assola a região há décadas. O primeiro relato da obra ("Tornar-se Palestina") contextualiza as reflexões que serão aprofundadas na segunda parte ("Tornar-nos outros"). É nesse aprofundamento que Meruane consegue fazer o leitor rever seus conceitos de paz e empatia, revelando a camada de atrocidades políticas ...

O dia em que a poesia derrotou um ditador (Antonio Skármeta)

Já assisti a quatro filmes excelentes que se inspiraram na obra de Skármeta: "O carteiro e o poeta", "No", "El baile de la victoria" e "O filme da minha vida". Assim, sempre tenho a impressão de estar lendo um roteiro quando se trata da obra desse autor chileno (ainda mais porque, nos três casos, minha experiência com o cinema precedeu o livro). "O dia em que a poesia derrotou um ditador" é um livro que indicaria para adolescentes, com certeza (até porque um de seus protagonistas é um jovem aprendendo a lidar com as desventuras políticas de seu tempo). No entanto, para além de literatura juvenil e de roteiro de cinema, há pouco que me interesse no livro enquanto literatura. A falar a verdade, há inclusive alguns tons machistas na leitura que me fazem preferir o filme; afinal, ainda que se proponha progressista, é uma obra de um autor muito apegado ao século XX.

No leer (Alejandro Zambra)

Há um certo tom de cotidianidade, de relato despretensioso, que me faz devorar as obras de Alejandro Zambra sem nem me dar conta de que o faço. Assim, depois de já ter lido tudo o que havia sido publicado dele no Brasil, me deparei com este conjunto de ensaios ainda inédito em português. Conforme fui adentrando "No leer" (apesar do aviso do título), consegui perceber também o porquê de a obra ainda não ter dado as caras em uma tradução por aqui: muito do que Zambra aborda são chilenismos para nós – referências não só a autores, mas ao modo de vida e à geografia de seu país. Assim, ainda que passe longe do nacionalismo, é um livro para quem já conhece um pouco do ambiente de seu autor, bem como dos ambientes culturais de que deriva. Gostei de conhecer um pouco mais da faceta de crítico do autor (mesmo que me soasse um pouco marrento em alguns trechos). Os ensaios que falam sobre leitura e escrita, inclusive a dos próprios contos e novelas, são instigantes. É um tom mais verdad...

Meus documentos (Alejandro Zambra)

Enquanto inicio este texto, percebo que já li todas as obras de Alejandro Zambra já publicadas no Brasil - ainda que não o escritor não seja daqueles que me vêm imediatamente à memória ao pensar em autores contemporâneos favoritos. E, assim como passo pela escrita de Zambra quase sem notar, o chileno se esmera em construir narrativas sobre passagens, trânsitos, deslocamentos de memória e de afetos. Em sua pauta, registra o cotidiano, sem grandes ênfases - mas na dose suficiente para conquistar um leitor cativo. Creio que gosto ainda mais do autor enquanto contista, ainda que a diferença seja tão sutil (todos seus romances - ou novelas - são bastante curtos). Na seleção disponível em "Meus documentos", acho que todos os contos, de uma forma ou outra, me agradaram - tarefa tão difícil em reuniões do gênero. A presença do narrador em primeira pessoa, esfumaçando os contornos entre o autoral e a ficção, é um dos muitos recursos de que Zambra lança mão para construir uma na...

Um pai de cinema (Antonio Skármeta)

Livro que inspirou a bela produção "O filme da minha vida", esta narrativa de Skármeta foi pensada desde o início como uma história digna de ser adaptada para as telas do cinema. Não à toa que o próprio autor direcionou a obra para Selton Mello, decidindo inclusive que sua ambientação, ao contrário do livro, deveria se passar no Brasil. Para quem assistiu ao filme, o livro tem pouco a acrescentar. Idealizado como um roteiro, é um esboço bastante curto que apenas dá uma ideia do que seu diretor brasileiro conseguiu realizar.  As cores, luzes e metáforas da produção audiovisual superam sim as poucas e breves linhas de Skármeta. É um dos raríssimos casos de livros que não superam a adaptação visual.

Múltipla Escolha (Alejandro Zambra)

Zambra é um autor chileno contemporâneo de que gosto muito - em partes. No geral, toda sua obra me soa um tanto irregular: há começos que são inesquecíveis (como o incrível início de "Bonsai"), passagens marcantes (como a discussão com um pai pinochetista em "Formas de voltar para casa") e finais enigmáticos (vide "A vida privada das árvores"). No entanto, entre tantos excertos profundos, nem sempre o autor parece manter o mesmo fôlego ou qualidade - ainda que seja o criador de poucos e curtos livros. Assim, "Múltipla escolha" é uma obra que, pela forma, já trouxe todos os elementos para virar o meu Zambra favorito. Como dito no título, este é um projeto literário desenvolvido na forma de testes de vestibular - diante de várias alternativas, posso escolher o meu rumo da história, o meu narrador preferido dentre as ideias múltiplas do escritor. Novamente, não são todos os textos que são igualmente potentes - mas, em um gênero fragmentário como...

A origem do mundo (Jorge Edwards)

O mote da obra de Edwards é bastante conhecido dos leitores brasileiros: durante o velório de seu melhor amigo, um homem percebe uma suposta infidelidade no olhar desolado da própria esposa para o corpo inerte. Grande admirador de Machado (com, inclusive, um estudo publicado sobre a obra do escritor), Edwards tenta recriar a atmosfera de Dom Casmurro em tempos mais atuais. Além da óbvia referência do enredo, há a ainda mais ululante intertextualidade do título, que se refere ao polêmico quadro de Courbet. No entanto, as referências não param por aí: cada capítulo é iniciado por uma frase de Sêneca. Em uma obra de pouco mais de 100 páginas, o resultado de tantas intertextualidades não chega a ser coeso. Ademais, quando considerada a obra na qual se inspira, é difícil evitar uma comparação maliciosa entre o estilo magnífico de Machado e o livrinho do chileno. Os personagens são bastante rasos, assim como a linguagem, que mistura estilos e registros diversos. Em meio a refe...

Formas de voltar para casa (Alejandro Zambra)

Meu caso com Zambra foi amor à primeira vista - ou talvez amizade, já que suas obras são clássicas por retratarem paixões mal resolvidas, mal começadas, mal vividas. Não há muito espaço para o amor nas relações truncadas que são o foco do autor chileno. Apesar de ter sido fisgada pelo começo abrupto de Bonsai ("Ao final ela morre e ele fica sozinho, ainda que tivesse ficado só vários anos antes da morte dela, de Emilia") e pelo retrato delicado de "A vida privada das árvores", foi em "Formas de voltar para casa" que o autor definitivamente me ganhou. Não há grandes emoções ou reviravoltas no enredo (talvez apenas uma enorme melancolia). Ainda assim, na descrição de um cotidiano frustrado, o escritor consegue pinceladas de poesia em um cenário de crítica às nossas relações familiares. O contexto, muito similar ao do Brasil atual, talvez tenha sido o meu elemento de forte identificação com a obra. Nela, o narrador conta sua infância em meio à dita...

A vida privada das árvores (Alejandro Zambra)

Quem já leu Bonsai, do mesmo autor, identificará algumas temáticas bastante semelhantes em "A vida privada das árvores": novamente, Zambra volta ao mundo vegetal para criar suas metáforas, que comparam a difícil poda das árvores com o trabalho de secar a escrita, limando seus excessos. Outra vez assistimos a cenas de um casal melancólico, narradas pelo ponto de vista do protagonista masculino. Contudo, há um tom ligeiramente mais esperançoso nessa história, ainda que a vida dos personagens seja também insistentemente questionada em relação à sua falta de sentido. Uma obra de poucas páginas, mas de escrita intensa, como é a marca registrada do autor.

Dorme, menino, dorme (Laura Herrera)

Trata-se de uma narrativa bastante simples, centrada nas perguntas de uma criança que tem medo de dormir. O final é bem interessante, com uma boa junção de todos os elementos que formaram a história. As ilustrações, ambientadas no sul do Chile, dão um ar especial para a trama.

Bonsai (Alejandro Zambra)

O pequeno, quase minúsculo, livro do chileno Alejandro Zambra nos apresenta uma miniatura de duas vidas, um recorte da existência de dois personagens - que, tal como um bonsai, carrega em si todos os elementos da vivência, ainda que apresentados de forma tão reduzida. Não se deixe enganar pela pequena quantidade de texto, ainda mais considerando sua diagramação: encaixotado em pequenos blocos distribuídos pela obra. É um livro que traz, desde a sua pungente frase inicial, uma carga imensa de melancolia e desesperança. A relação dos protagonistas com a literatura e o diálogo proposto com outras obras torna o projeto de Zambra ainda mais interessante. O livro não tem de ser extenso, pois só das várias intertextualidades sugeridas é possível fazer diversas interpretações de seu significado. A obra diz muito por meio de pouco. O poder de síntese de Zambra foi somado à excelente diagramação da Cosac & Naify, que trouxe elementos pictóricos e de layout para potencializa...

Mi país inventado (Isabel Allende)

O livro é um misto de autobiografia, crônicas e guia de turismo. Apesar de acabar recorrendo a certos estereótipos (a própria autora nos afirma estar consciente desse processo), a obra é um excelente ingresso à cultura, história e caráter chileno. Apesar de ser impossível definir a essência de um povo, a escritora consegue traçar um bom panorama das paisagens, costumes, idiossincrasias dessa nação. A obra oferece ainda um panorama de toda a produção literária da autora: não só conhecemos um pouco mais sobre o enredo de cada livro, como descobrimos seu contexto e inspiração. Não é um livro tão marcante do ponto de vista da autobiografia, mas quase indispensável para quem quer conhecer melhor a nação chilena. Trechos: Nadie sabe para quién escribe. Cada libro es un mensaje lanzado en una botella al mar con la esperanza de que arribe a otra orilla. Así es la nostalgia: un lento baile circular. Los recuerdos no se organizan cronológicamente, son como el humo, tan cambiantes y efí...