Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens com o rótulo filme grego

A filha perdida (Elena Ferrante) + filme de 2021

Uma boneca perdida, uma criança desaparecida, os duplos entre amigas e entre mães e filhas, Leda e Nina: os elementos da mitologia de Ferrante não escapam ao livro A filha perdida . Ademais, considerando que se trata de um romance mais sucinto (menos de 200 páginas), talvez nele essas figuras características da escrita da autora brilhem com ainda mais força, forçando toda a narrativa a girar ao redor dessa constelação de alegorias. Ainda acredito preferir o livro ao filme, apesar de a adaptação realizada em 2021 ser ótima e caminhar independentemente da obra em que se baseia. Contudo, há alguns elementos que aparecem com mais força com o punho da própria autora, como as reflexões da protagonista sobre seu passado e as relações de poder intrínsecas a uma família. No filme, não há uma voz de narradora que mimetize a do livro – o que é um acerto, já que lhe confere assim mais autonomia. O que vemos retratado com os dizeres afiados de Ferrante no romance é o que capturamos pelo belo amálga...

Antes do nascer do sol (filme de 1995), Antes do pôr do sol (filme de 2004), Antes da meia-noite (filme de 2013)

A trilogia do diretor Richard Linklater desenrola-se com três recortes do mesmo casal, espaçados 9 anos entre si. O feito de acompanhar o envelhecimento dos intérpretes para caracterizar os personagens é notável – mesmo hoje, em que a tecnologia do deep fake torna qualquer transformação no tempo em algo banal. Ao reassistir aos três filmes, fiquei surpresa ao perceber que quase 9 anos também me separam do primeiro contato com a obra, que conheci em 2013. Na época, o meu preferido era o encerramento da história; talvez por tê-lo visto em sua estreia no cinema, algumas cenas ficaram mais marcadas para mim.  O filme do meio, que menos tinha atraído minha atenção, hoje se tornou meu mais querido. Talvez por ter uma idade parecida à dos personagens durante o período retratado, senti uma conexão muito maior com os diálogos e reflexões a que eles chegam nessa fase da vida. Quanto a Antes da meia-noite , pouca coisa hoje me agrada nessa produção – que tem muita gritaria e pouca conver...

Vida e proezas de Aléxis Zorbás (N. Kazantzákis) + filme de 1964

A poética de Nikos Kazantzákis traz um apreço pelo momento bastante semelhante ao que encontramos em poetas neoclássicos ou na dupla de heterônimos portugueses Ricardo Reis/Alberto Caeiro. O prazer de vivenciar, com o olhar de quem vê o mundo pela primeira vez, é o que nos conduz por uma narrativa envolvente. Escrito no início do século passado, é inegável a misoginia presente na obra. Contudo, trata-se de um livro tão bem escrito que nem sequer as cenas de deploração feminina (ou mesmo feminicídio) conseguem nos fazer desprezar a escrita do grego. É como se, abstendo-se de propor julgamentos, o autor fizesse um convite a nos juntarmos à ciranda da vida em sua roda inexorável. Não há meios de sair em meio à dança; assim, observamos e acompanhamos o ritmo. O filme dos anos 1960, ainda que apresente algumas mudanças contextuais (introduz o narrador como um estrangeiro, ao contrário do romance), é bastante fiel  ao original. E, mesmo sem trazer a reprodução de todos os belos diá...

The Lobster (filme de 2015)

O preceito básico das distopias talvez seja o de causar um estranhamento profundo, mas sem distanciar o público totalmente da realidade criada. Com caráter com um quê de premonitório, elas apontam para sociedades possíveis - não se trata de ficção científica, mas da narrativa de mundos que espelham nossos defeitos em medidas exacerbadas. Em "The Lobster", filme de difícil classificação, o efeito de distanciamento relativo pouco se mantém. O enredo se apoia fortemente em recursos do gênero real maravilhoso, criando situações bastante complexas, por vezes esbarrando no inverossímil. Com um efeito muito grande de estranhamento, o espectador passa mais tempo tentando desvendar o rumo dos acontecimentos do que criando relações entre a sua realidade e a da obra. É um longa que entretém e convida a desvendar mistérios, mas que não cria vínculos o suficiente para ser lido como distopia.