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Mostrando postagens com o rótulo poesia brasileira

Rilke shake (Angélica Freitas)

Apesar de não contar com nenhuma subdivisão que agrupe os poemas apresentados, a primeira metade do livro me encantou bem mais que o restante dele. Nos textos que inauguram a obra, a verve irônica da poeta está afiadíssima, criando versos que são quase lacrações. Os temas que apareceriam depois, em “Um útero é do tamanho de um punho”, já começam a dar as caras por aqui. Do meio para o final, o livro conta com muitas referências textuais específicas – seja a algumas figuras históricas, como Gertrude Stein e Ezra Pound, seja às vivências próprias da poeta. Como a obra se propõe a ser uma grande batida de referências literárias, faz sentido – só não agrada a todos os paladares.

Um útero é do tamanho de um punho (Angélica Freitas)

O título já bastaria para listar esse livro de poemas entre os mais importantes da poesia contemporânea brasileira. Como um punho cerrado, os versos de Angélica Freitas atingem o leitor no peito, coração adentro. As três primeiras partes da publicação (“uma mulher limpa”; “mulher de”, “a mulher é uma construção”) brincam com os discursos violentos do que se espera do gênero. Os poemas também ironizam as expectativas em relação à própria poesia (na parte intitulada “3 poemas com o auxílio do google”, por exemplo). Banhados de ironia, os textos revelam um jeito de fazer poesia como quem acha graça das vociferações de ódio contra a mulher, expondo o ridículo da violência de gênero.

Olhe por onde pássaro (André Gravatá e Serena Labate)

Acompanho o trabalho de Gravatá há mais de uma década; quando tive a oportunidade de comprar este livro das mãos de seus autores, até ele se assustou com minha origem remota de fã. Mas não há como não apreciar o trabalho que André e Serena fazem: do resgate da poesia do cotidiano (de um Manoel de Barros) à poesia publicada como notícia (de um Bandeira) no Jornal das Miudezas. No meio disso tudo, os pássaros revoando um livro-calendário e ensinando a assoviar em coro.

​Cordéis: Patativa do Assaré

​ Com uma introdução que dá conta dos principais elementos da biografia e da poética de Patativa, o livro traz apenas 5 poemas selecionados. É quase um tira-gosto, já que a apresentação mais aprofundada cria a vontade de conhecermos mais da produção do autor por conta própria. Os poemas tratam da lenda de Aladim, do assassinato de um padre, da imigração, de velas acesas ao diabo e da seca, nessa ordem. O diálogo com outras obras e contextos, como Camões e Castro Alves, se faz evidente em alguns trechos. É uma boa mistura, mas que permite conhecer 5 faces de um poeta com um coração também vasto como o mundo.

Risque esta palavra (Ana Martins Marques)

​Estou no bondinho das impactadas pela poesia de Ana Martins Marques. Aqui e ali escuto quem a chame de minha poeta favorita. Não tenho o que fazer, a não ser dividir o epíteto com muita gente. Talvez o relativo sucesso da autora (pensando que poesia quase nunca é best seller) seja fazer versos contemporâneos sem cair no clubismo. É poesia que também se lê pelos não iniciados, para quem desconhece tanto as sutilezas do gênero quanto os meandros da arte contemporânea. Os poemas que tratam do amor são os únicos que não me tocam muito na obra. Já os versos sobre linguagem e pequenas coisas, como uma porta ou um cigarro, são de arrebatar. A atenção dedicada ao que nos cerca (ou encarcera) é uma pauta poética linda.

A vida submarina (Ana Martins Marques)

Penélope nos espera em 6 poemas desta coletânea, dividida em 7 partes. Para quem já é fã da poesia de Ana Martins Marques, os elementos que iluminam essa alegoria não passam despercebidos: a mitologia, a espera, os papéis do homem e da mulher, a história, a aventura e a frustração, a metalinguagem. Ainda neste último tópico, algumas sequências de poemas são trabalhos lindos e reflexivos com a linguagem, como os Esforços de dicionário, as 6 Posições para ler e a coleção de Papéis que se nos apresentam. Também aqui encontramos os poemas certeiros, como "Vaso", em que algumas poucas palavras atingem um poder de concisão indescritível. Os elementos de casa e os mapas de viagem, o amor e a natureza, a decepção e a homenagem a outros artistas – é incrível como tanto cabe no fundo do mar.

Da arte das armadilhas (Ana Martins Marques)

Dividido em duas partes (Interiores e Da arte das armadilhas), este livro de Ana Martins Marques vai da atenção aos pequenos objetos da casa (açucareiro, torneira, capacho) aos temas grandiloquentes da poesia de todos os tempos: a mitologia, o amor, a descoberta do mundo.  A arquitetura proposta em Interiores, que analisa as ninharias que povoam nosso cotidiano, me lembrou muito o efeito de exame analítico do objeto livro que a poeta constrói em O livro das semelhanças . No entanto, a maioria dos meus poemas preferidos se concentra na parte que nomeia a obra. O único porém que me fez não apreciar tanto o livro como um todo é o fato de o amor ser uma temática bastante recorrente – ainda que passe longe do clichê.

Pé do ouvido (Alice Sant'Anna)

O livro de poemas de Alice Sant'Anna traz algo do fluxo de consciência de uma Mrs. Dalloway – a similitude não está em apenas acompanhar como o pensamento se forma, mas também na identificação com uma classe mais privilegiada. Para mim, que compartilho das mesmas angústias e recorte de mundo desse eu lírico, o vínculo é estabelecido de imediato. Algumas das questões que percorrem o longo corpo do poema também são frequentes no meu dia a dia – ou, pelo menos, o são da forma como foram elaboradas. Gosto também da ambiguidade pouco óbvia de algumas junções de termos: o pé do ouvido, ao pé do ouvido, pé e olvido, pede olvido. Assim como o título, é um livro que nos propõe a reverberação dos sons e das junções das palavras.

O livro das semelhanças (Ana Martins Marques)

Nem sempre consigo criar laços com a poesia contemporânea; talvez a poesia que já não converse mais tão diretamente com o meu próprio tempo se oferte de maneira menos enigmática, com muitos de seus enigmas históricos já resolvidos. No entanto, entre minhas tentativas de conhecer mais vozes de agora, o reconhecimento com a poética de Ana Martins Marques foi quase instantâneo. É, sem dúvida, minha poeta contemporânea preferida. Seu Livro das semelhanças  é dividido em quatro seções ("Livro", "Cartografias", "Visitas ao lugar-comum" e "O livro das semelhanças"). Na primeira, a autora faz uma releitura das partes do livro do ponto de vista poético (a orelha, a capa, o colofão etc.). Para aficionados do objeto livro, é uma metalinguagem deliciosa. Em Cartografias , o ressignificado da vez é o mapa – bem como a distância, a proximidade, o espaço físico em que estamos e em que situamos nossas vozes. Visitas ao lugar-comum  é um exercício poético diverti...

Como se fosse a casa: uma correspondência (Ana Martins Marques / Eduardo Jorge)

Experimento doses reduzidas de poesia contemporânea – que, muitas vezes, ainda considero hermética ou insondável em sua cotidianidade. O Como se fosse a casa  se abriu como convite, propiciando o encontro com uma escrita que me tocou muito mais. Talvez seja o momento certo para o livro (já que ninguém deveria sair de sua concha em tempos de Covid), que rendeu uma das experiências mais gostosas que tive com a poesia produzida hoje. A ideia central é do diálogo entre os poetas, ocupando postos diferentes, mas que retornam à mesma base – ou ao mesmo não lugar, às impermanências. Toda a construção narrativa-poética-epistolar é muito bem conduzida, mas foram os poemas de Ana Martins que me fisgaram. A linguagem clara para compor metáforas difíceis, pontes imprevistas... talvez tenha se tornado uma favorita, dentre tantos contemporâneos que ainda me assustam. 

Lua na jaula (Ledusha Spinardi)

Até aqui, este tem sido um ano de descobertas muito interessantes em poesia. Ledusha Spinardi é um exemplo desses encontros literários que me surpreenderam. A autora conta com uma longa (ainda que enxuta) produção na área; no seu currículo poético, constam parcerias com Cazuza e Lobão, além de assinar uma coluna sobre o gênero na Folha. Livro da maturidade, "Lua na jaula" sabe discorrer com excelência sobre temas como a velhice, a composição, o escrever, o isolamento. A capacidade de concisão da autora é impressionante, bem como sua habilidade em mesclar o hermetismo à informalidade. Com poemas curtos, é um livro que pode passar a impressão de ser uma obra a ser lida em uma sentada; no entanto, mesmo que seja devorado em um só trago, o conjunto de poemas reverbera por muito tempo.

Primeiros poemas (João Cabral de Melo Neto)

Reunião de poemas escritos ao longo de mais de uma década, este livro de estreia de João Cabral de Melo Neto causa bastante estranhamento. Conhecido por sua poética precisa, enxuta, é de causar espanto a primeira fase do escritor - para lá de verborrágico. Além do estilo (que peca pelo excesso), não há uma delimitação dos temas abordados na obra. Há poemas sobre teatro; em homenagem a outros poetas; metalinguísticos; sobre cinema; surrealistas; hiperbólicos. O conjunto é mal amarrado e não convence. É apenas no último poema da série que encontramos uma verve poética mais legítima. Sorte a dos leitores que, após tantos exercícios malfeitos, Melo Neto encontrou a sua voz.

Dentro da noite veloz (Ferreira Gullar)

Comecei a ler a obra completa de Ferreira Gullar em 2016, na tentativa de encontrar em sua produção poética elementos que aliviassem o ranço da pessoa pública; no entanto, os primeiros livros publicados pelo maranhense só acentuaram minha antipatia. Assim, não foi sem surpresa que me vi completamente envolvida por "Dentro da noite veloz" - que já se tornou um dos meus livros de poesia nacional preferidos. "Romances de cordel", que antecede essa publicação, parece ter sido o ponto de virada na carreira de Gullar; ao entrar em contato com suas raízes nordestinas e elaborar as rimas típicas do improviso, permeadas de críticas sociais, o poeta encontra seu tom e ritmo. É assustador observar a mudança política do autor ao longo do tempo - afinal, o velho conservador foi, em algum momento, o jovem que acreditava nas mudanças sociais. É essa faceta do poeta que encontramos nesta obra, cujo título é uma alusão ao assassinato de Che Guevara. Quase todos os poemas do co...

Garopaba monstro tubarão (Paulo Scott)

Os poemas de Paulo Scott não me conquistaram de imediato; apesar de curto, "Garopaba monstro tubarão" foi, para mim, um livro de leitura pausada. Ainda que o gênero exija o olhar mais atento, aqui tratou-se de uma experiência diferente: mesmo brecando o ritmo de leitura, o sentimento de incompreensão de alguns poemas continuou a me perturbar. Dividido em quatro partes - "Livro do outro", "Redemoinho", "Livro do mundo" e "Flutuação", o livro dá voz poética a temas diversos. Ainda que a abordagem política seja forte, alguns poemas mais líricos e sentimentais aparecem no conjunto. Do todo, os poemas caracterizados por uma militância mais marcada foram os que mais me cativaram. Questionamentos sobre o momento político atual são feitos de forma bastante coerente e dolorosa, propondo um diálogo profundo com o leitor.

A vida passada a limpo (Carlos Drummond de Andrade)

Alguns poemas excelentes fazem valer a leitura dessa obra de Drummond: "Poema-orelha", "Especulações em torno da palavra homem", "A um bruxo, com amor". Entretanto, ao contrário de outros livros do poeta, neste não há uma unidade tão bem constituída ou a definição de temas poéticos que criem uma linha de abordagem mais clara. Os poemas são agrupados por algumas similaridades temáticas, mas que não bastam para definir mais fortemente o conjunto. Após o poema dedicado a Machado de Assis, por exemplo, há outro sobre o fim de um hotel - e, por mais que ambos se tratem de monumentos findos, o tom de cada um é bastante diferente. Alguns textos parecem remeter diretamente à amante do poeta, inclusive com algumas DRs expostas ao leitor. Enfim, ainda é Drummond, mas não é dos melhores livros do itabirano.

Sobrevivendo no inferno (Racionais Mc's)

Transformada em livro após a divulgação das obras exigidas no vestibular da Unicamp, "Sobrevivendo no inferno" tem caráter multimídia. Ainda que conte com outros elementos que ajudam a contextualizar a importância do álbum (como o excelente prefácio), é uma leitura que não se sustenta sozinha. Ao entrarmos em contato com as letras, a curiosidade natural é ir atrás das músicas - assim, o livro atua como um complemento e não como o objeto principal. Com o panorama propiciado pela publicação, pude ver o quanto se trata de um produto cultural de relevância (o que justifica sua inclusão na lista do vestibular), contextualizador do racismo e dos discursos que o circundam. Por outro lado, o fato de o CD ser do fim dos anos 1990 também traz algumas possibilidades de interpretação que, mesmo sendo anacrônicas, têm a sua importância. O tratamento dado às figuras femininas é um dos pontos de debate, já que está bem longe do sentimento de irmandade e paz defendido nas letras. Dessa f...

A cinza das horas (Manuel Bandeira)

Foi pela leitura de Manuel Bandeira que aprendi o tom mais pausado, desconfiado e cuidadoso que o contato com o gênero poético exige. No entanto, o fato de ter sido o poeta estudado em três disciplinas diferentes no início de minha graduação fez que eu me afastasse de sua obra, buscando descobrir por conta própria outras vozes na poesia brasileira. Quase quinze anos depois, um trabalho paralelo me levou a redescobrir o que Manuel Bandeira tinha a dizer. Superado o "ranço" de análises exaustivas sobre os mesmos poemas, deparei-me com textos que ainda desconhecia - e que se abriram em múltiplas possibilidades de leitura. Primeiro livro publicado pelo autor, "Cinza das horas" está longe de ser uma obra redonda ou revolucionária no contexto de seu lançamento. Ainda com traços das escolas anteriores - seja o Romantismo, seja o Simbolismo ou mesmo o Parnaso -, antecipa algumas das discussões sobre a forma do poema que seriam escandalizadas na Semana de 1922. Não é um ...

Rua da Padaria (Bruna Beber)

O livro de poemas da jovem autora Bruna Beber propõe uma volta às raízes, passeando por ruas, eventos e personagens que participam de uma espécie de memória coletiva, já que povoa(ra)m tantas infâncias: a rua da padaria, o açougueiro, o machucado no joelho, o primeiro amor, as provocações na escola... Com um tom bastante informal, Beber replica em sua poética um jeito de contador de causo - como o de Manuel Bandeira ou Mario Quintana, por exemplo. No entanto, nem todos os poemas convencem pelo tom descontraído; para mim, ao menos, funcionaram melhor os textos da metade do livro para o fim, nos quais a intencionalidade poética parece mais trabalhada.

Bruta aventura em versos (filme de 2011)

O filme-biografia sobre a escritora Ana Cristina César é bastante elucidativo, ainda que feito de maneira simples e sem muitas inovações na linguagem cinematográfica. Basicamente uma reunião de entrevistas, é uma obra que consegue dar uma visão panorâmica sobre a curta vida da artista. Merece destaque a escolha por não reduzir Ana a uma escola literária ou movimento específico. Ao longo dos depoimentos que são colhidos, o espectador pode ter uma noção da complexidade da autora, que não se deixava rotular com facilidade. Dentre os entrevistados, o poeta Armando Freitas Filho é o que fornece as informações mais íntimas sobre a escritora, aproximando o receptor da obra dessa personalidade tão intensa e, ainda assim, tão oblíqua.

Polititica (Glauco Mattoso)

Glauco Mattoso é um poeta que me foi apresentado durante a faculdade - no entanto, uma apresentação parcial, em que o professor elogiava sua capacidade de metrificação sem ler nenhum de seus poemas. A censura não é sem explicação; com uma língua ferina e exaltação a práticas de bondage , é um poeta que não casa bem com as sensibilidades mais frágeis. "Polititica" é um livro especialmente interessante no contexto atual. Este é um (des)governo marcado por recriminação a práticas sexuais, reais ou inventadas: afinal, não era de se esperar de uma administração séria pautas como a discussão de um suposto kit gay ou indagação sobre os significados ocultos do golden shower . Assim, uma poética que exalte a linguagem sem pudores é também uma forma de escancarar outros melindres políticos. Nem todos os poemas versam necessariamente sobre a política; no entanto, os que o fazem são geniais. Neste livro, além da métrica rica, Mattoso revela sua aguda percepção de um panorama so...