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Mostrando postagens com o rótulo Literatura japonesa

Sul da fronteira, oeste do sol (Haruki Murakami)

  Murakami é um escritor que acompanho com certa regularidade desde 2013. No entanto, para além de minha mudança como leitora nesta meia década, talvez os últimos livros do autor com que entrei em contato não tenham sido uma boa escolha. O que me atraiu primeiramente no escritor foi seu estilo límpido, ainda quando carregado de elementos oníricos; mas não foi com a sensação de prazer diante de uma bela escrita que saí de minhas últimas leituras. Em "Sul da fronteira, oeste do sol", a figura patética e um tanto machista do personagem principal não tornou possível uma conexão maior com a trama. Há passagens que prendem a atenção do leitor, assim como frases de efeito que dão um charme à escrita. Contudo, o que realmente  me divertiu durante a leitura  (por motivos bastante pessoais)  foram as falas do protagonista criticando seu emprego de editor de livros didáticos. Fora isso, é uma narrativa fluida, mas da qual pouco retive.

Romancista como vocação (Haruki Murakami)

Gosto do estilo fluido de Murakami, que supera as inverossimilhanças e descrições supérfluas que encontramos ao longo de sua obra. Ainda que o considere mais um autor de entretenimento do que produtor de uma literatura complexa, acabo me rendendo à leitura de seus livros quase todo ano. Seu jeito de compor a narrativa faz que ela seja rapidamente absorvida, criando um vínculo prazeroso entre autor e receptor. Do conjunto da produção, o livro de que menos gostei foi justamente este "Romancista como vocação". Esperava encontrar neste pequeno livro algumas das reflexões pertinentes com que havia me deparado no excelente "Do que falo quando falo de corrida"; no entanto, ao retomar pensamentos sobre sua carreira literária, aqui vemos um Murakami mais amargurado, irônico, tentando disfarçar sarcasmo com um pretenso tom de impassibilidade. Questões como a eterna indicação ao prêmio Nobel são trazidas à tona, com um desprezo mal escondido em relação aos críticos. O que ...

Voragem (Junichiro Tanizaki)

Romance indicado por Eliane Brum para o clube de livros da Tag, "Voragem" impressiona por certo vanguardismo ao trabalhar temas tabu: a protagonista, Sonoko, é uma mulher insatisfeita no casamento que acaba se envolvendo em uma relação lésbica. Escrito na década de 1920, o livro vai além de trazer a homossexualidade à tona - aprofunda diversos e inexplorados vieses relativos ao erotismo. O tom exagerado do romance precisa, é claro, ser considerado dentro de seu contexto. Todas as hipérboles relacionadas ao sexo têm raízes mais profundas na cultura japonesa, e revelam muito do modo de ser do povo (inclusive da transição para um governo cada vez mais ocidentalista). Com uma narradora extremamente parcial, que conta sua vida em primeira pessoa, a trama dá espaço a diversas interpretações e exige um olhar mais desconfiado em relação ao modo como são expostos os fatos. No entanto, para quem não se permitir enganchar pelo discurso da protagonista (como é o meu caso), a obra dif...

O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação (Haruki Murakami)

Murakami é meu escritor-conforto, e talvez um pouco da minha guilty pleasure enquanto leitora. Sempre no limiar entre autor que vende muito e autor que escreve bem, parece não haver consenso em torno de sua literatura - o que talvez explique o eterno boato de sua indicação ao Nobel. Com uma produção vasta, não é de estranhar a ambiguidade em torno da sua obra. Afinal, dentre o muito que Murakami escreve, nem tudo se salva. Ainda assim, há um tom narrativo muito cativante em sua produção. Mesmo quando erra a mão, o literato japonês ainda consegue prender a atenção do leitor. Talvez com um dos meus títulos favoritos, este livro não entrou, contudo, para a minha lista de mais amados do autor. Alguns pontos e personagens na trama me pareceram um tanto deslocados, mal amarrados no conjunto.  Os aspectos mais interessantes desta obra são a construção do personagem principal, bastante coerente, e a ideia de como podemos nos amarrar ao passado. Não é, no todo, um livro impressionant...

Kokoro (Natsume Soseki)

Uma das vantagens de se arriscar em filmes, livros, obras de arte de culturas alheias é conhecer outros modos de ser, pensar e estar no mundo. Em um romance japonês do início do século XX, o choque ideológico e social não pode ser nada menos do que profundamente impactante. Ambientada no fim da era Meiji, a trama de Natsume Soseki revela aspectos de um país em processo de modernização e ocidentalização, o que gera um conflito potente com a tradição. Nesse contexto, as figuras de um jovem e um professor mais idoso norteiam a história, por vezes renovando este embate entre o velho e o novo. Até o ritmo da narrativa é marcadamente diferente do qual estamos acostumados, com a adoção de um tom mais pausado, meditativo. Assim como no romance Eu sou um gato , a trama parece ser mais centrada na filosofia do que no ato de contar cada episódio. É uma obra eficiente, na medida em que aborda literariamente um contexto histórico de profundas mudanças no Japão. Contudo, para mim, ao meno...

O livro do travesseiro (Sei Shônagon)

Na tentativa de ampliar minhas leituras para além do cânone - ou seja, literatura feita por homens brancos ocidentais - me propus a tentar descobrir autoras de outros países. Para representar o Japão, escolhi um livro de Sei Shônagon, que é uma das escritoras fundantes da literatura de sua nação. O livro do travesseiro  foi escrito no século XI e sua autora, uma dama da corte imperial, retrata em textos curtos (por vezes, de uma só linha) suas impressões sobre as relações da sociedade, as belezas da natureza, a perenidade da vida. Apesar de não ser meu primeiro contato com a literatura japonesa, confesso que foi uma obra diferente de tudo o que conhecia até então: absolutamente contemplativa, descritiva, a escrita de Shônagon vai em caminho radicalmente oposto à atual imediatez ocidental. Por suas muitas referências a clássicos da literatura da época ou a personalidades de seu tempo, é um livro com características muito específicas de linguagem, que demandaram cerca de 11 ...

The strange library (Haruki Murakami)

A obra, aparentemente infantojuvenil, trabalha de maneira um tanto irônica a ideia do amor aos livros. O mote principal é a história de um garoto, que, ao ser sequestrado na própria biblioteca de sua cidade, descobre em que consiste o pagamento de seus funcionários: o direito de raptar um usuário, de vez em quando, para comer seu saboroso cérebro. Aliás, quanto mais o leitor for curioso e empenhado, mais delicioso será o banquete para os bibliotecários. Outros dois personagens, ainda mais próximos da fronteira do inverossímil (ou do real maravilhoso) participam diretamente da trama: um homem que se veste como carneiro e é assistente do bibliotecário e uma menina "diferentona", diga-se de passagem (que é meio fantasma, meio ilusão, meio difícil de definir). Um adendo: para quem leu "Caçando carneiros", fica bem claro que a ideia do homem-animal faz parte da mitologia pessoal do escritor. Na última página da obra, para ser exata, vemos que este não é apenas m...

Homens sem mulheres (Haruki Murakami)

Livro de contos excelentes, do autor japonês que é mais cotado para o Nobel que o Di Caprio para o Oscar. Nem todas as tramas têm a mesma qualidade, mas, no geral, são todas muito envolventes. Ainda que mais de uma história tenha final aberto (o que pode deixar o leitor meio "perdido", a princípio), todas as tramas são tão bem amarradas que é difícil se decepcionar com a leitura. Drive my car - conto sobre um ator de teatro que precisa de um motorista particular. Ao contratar uma mulher para o cargo, se vê diante de uma confidente e potencial amiga. Ainda que pouca coisa aconteça de fato na trama (a la Tchekhov), nós, como leitores, também nos tornamos aqueles dispostos a ouvir os segredos do protagonista. Yesterday - o amigo do narrador lhe faz um pedido especial: que saia com a sua namorada para que, assim, possa saber com quem ela o trai. O desfecho da história só vai ocorrer muitos anos depois, com os personagens ainda tentando entender o que aconteceu com eles no pas...

Caçando carneiros (Haruki Murakami)

Com um pouco do toque melancólico de Norwegian Wood e cenas oníricas, tais como em 1Q84, este livro de Murakami tem elementos que prendem a atenção do leitor. Mistura de vários gêneros e modos de contar uma história, o autor se vale um pouco do suspense das narrativas de detetive para fisgar o seu público. Não é por um simples acaso que o seu protagonista (sem nome) está sempre lendo um livro de Sherlock Holmes ao longo da trama. No entanto, ao contrário dos enredos clássicos de suspense, nesta obra a resolução dos fatos chega a ser um pouco frustrante. Por tudo ocorrer no plano do fantástico/onírico/espiritual, qualquer desfecho seria, em princípio, aceitável. O escritor, por seu domínio da arte da escrita, consegue manter a verossimilhança no livro - mas, ainda assim, não fiquei totalmente satisfeita com o encerramento da trama. Personagens importantes da história são descartados por Murakami quando não funcionam mais na vida do protagonista. Ainda que este seja um ser r...

Tom Sawyer (Shin Takahashi)

"Haru é obrigada a retornar à sua cidade natal por conta do falecimento de sua mãe. Mas, nesta cidadezinha de interior, a mãe dela era alvo de fofocas maldosas e a própria Haru acaba sendo mal vista pela vizinhança. Em meio a tantas pressões da vida adulta, ela encontra um grupo de crianças, e um menino em especial, Taro, se torna seu companheiro em aventuras que a fazem descobrir o prazer de ser criança. São os “tempos de moleque” da Haru, expressão que simboliza um dos próximos lançamentos da JBC, “Tom Sawyer”! Volume 1 pela JBC.Volume 1 pela JBC. A obra de Shin Takahashi, baseada livremente no clássico de Mark Twain, foi publicada na revista shoujo Melody em 2007 e compilada em um volume enorme com quase 400 páginas com a história completa. Agora a JBC traz este mangá ao Brasil, cada vez mais diversificando os tipos de histórias que publica. É um shoujo sensível, com drama, humor e leveza, repleto de personagens cativantes, além de contar com a belíssima arte de Shin Ta...

Eu sou um gato (Natsume Soseki)

O livro, narrado por um gato, ironiza seus personagens humanos a cada página. Ao descrever os problemas nos quais se envolve seu amo, o felino apenas realça a hipocrisia e o tom patético desses seres ditos racionais. É um romance bem escrito, com inúmeras referências intertextuais à cultura japonesa e ocidental e detalhes que dizem respeito à própria vida do autor. No entanto, por parecer mais interessado em desenvolver uma tese do que em cativar o seu leitor, a trama acaba se tornando um pouco maçante ao longo das cerca de 500 páginas.  Trechos: Inexiste lei que conceda a alguém a propriedade sobre algo que não criou. Mesmo que essa propriedade seja determinada, isso não é motivo para impedir que outros entrem nela livremente. Levantar cercas ou piquetes em terras vastas, delimitando o espaço, é como dividir o firmamento: esta parte é minha, aquela é sua. Se a terra é dividida e se comercializam direitos de propriedade, nada mais natural do que dividirmos também o ar qu...

Norwegian Wood (Haruki Murakami)

Este livro de Haruki Murakami, escritor japonês sempre alvo das especulações em torno ao Prêmio Nobel, é comparado, por alguns críticos, ao "O apanhador no campo de centeio", de J.D. Salinger. Começo minha resenha discordando veementemente de tal afirmação - e o que me leva a separar o joio do trigo é o fato de o livro de Murakami ser bom (ao contrário do romance estadunidense). Enquanto a obra de Salinger apresenta o estereótipo do adolescente mimado e rebelde sem causa, em "Norwegian Wood" há personagens complexos, enigmáticos, sempre cercados pelo halo do desespero, da solidão e da morte. O contexto em que se desenvolve a trama é muito familiar à população japonesa: há, de fato, muitos suicídios de jovens orientais com desempenho escolar exemplar. Talvez a estrutura fortemente hierárquica da sociedade nipônica explique esse fato; talvez não. E o autor sabe abordar o tema, sem, em momento algum, tentar justificar o desejo de morte de alguns de seus personagens. ...

Depois do terremoto (Haruki Murakami)

Para quem leu 1Q84, este livro é uma espécie de gênese da obra: publicado quase 10 anos antes, já traz alguns dos motes que serão muito melhor reaproveitados por Murakami na narrativa de Aomame e Tengo. São 6 histórias que, aparentemente, têm como pano de fundo o terremoto. No entanto, o tremor de terra pouco chega a interferir na estrutura das narrativas. Se ele era o elemento de coesão entre as histórias, sua função deveria ser quase a de um personagem, ao invés de um simples elemento do cenário. O final da maior parte dos contos deixa a desejar. Murakami propõe finais abertos sem consistência, que não instigam o leitor a pensar em novas possibilidades, em significados ocultos; parecem simplesmente histórias mal escritas. As duas narrativas finais, sobre a rã e sobre o urso, apesar do tom mais surrealista/infantil, são as que melhor conseguem atingir o leitor, capturá-lo pela empatia. Mas, como o desfecho não salva toda a obra, vale apenas como curiosidade: um meio para co...

O livro do chá (Kakuzo Okakura)

Quanta filosofia cabe em uma xícara de chá? Nesta obra, de 1906, temos, em poucas páginas, muito mais do que a descrição do ritual do chá no Japão - o livro é um verdadeiro compêndio de boa parte da filosofia oriental. Conceitos difíceis, como a diferença entre o taoísmo, o budismo, o xintoísmo, ficam claros como a água - fervente - pelas palavras de Okakura. A redação da obra é direta e simples - como uma boa cerimônia do chá deve ser. Assim, a aproximação com a cultura oriental fica muito mais viável. O que era extravagante passa a ser compreensível e o que era exótico passa a ser visto como indispensável. Os lados ocidental e oriental se complementam; mais do que explicar seus valores, o autor faz um apelo à compreensão entre os povos. Ainda que suas críticas aos ocidentais - mesmo hoje bastante pertinentes - apareçam em boa parte do livro, o que prevalece é o discurso pelo entendimento, tolerância e aprendizagem com as demais culturas. Nota: 9,5 Trechos: "O 'ch...

1Q84 (Haruki Murakami)

A trilogia de quase 1000 páginas do escritor japonês Haruki Murakami começa despretensiosa, focando a vida de uma aparente executiva atrasada para efetuar uma tarefa importante. No entanto, logo no segundo capítulo percebemos que há algum objetivo maior na obra, que conta, na maior parte do tempo, com dois personagens principais, vivendo em um mesmo mundo e levando vidas em paralelo. 1Q84 é um livro que deve ser lido sem apresentações prévias. Qualquer tentativa de sinopse arruina o suspense de uma trama muito bem amarrada, construída de forma  a surpreender o leitor a cada página. Contudo, não é apenas de tensões que se alimenta a pena do autor japonês - ele sabe envolver o leitor aos poucos, com descrições tão minuciosas que nos fazem mergulhar no cotidiano dos personagens. Além de todos esses recursos, a presença de uma ou outra frase de efeito - porém absolutamente profunda - me fisgou completamente. Por ser um romance tão longo, há uma ou outra incoerência, talvez...