Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens com o rótulo Literatura portuguesa

Fica comigo esta noite (Inês Pedrosa)

Reunião de contos publicados em diferentes meios, "Fica comigo esta noite" parece seguir o padrão das antologias do gênero: ou seja, é um livro bastante desigual, com textos ótimos em meio a outros sem brilho nenhum. No geral, os contos sobre casais são os melhores do conjunto – seja o da mulher submissa que mata o marido com fúria inesperada, seja o da mulher com câncer em busca do amor da juventude. Quando a voz das personagens femininas se faz verdadeiramente ouvir (mesmo que seja naquilo que o narrador masculino esconde), Inês entrega o seu melhor. Já as histórias que se baseiam em releituras de lendas e mitos são bem fraquinhas. 

Não quero usar óculos (Carla Maia de Almeida e Daniel Letria)

Para as crianças que receiam passar a ver o mundo com outras lentes, o livro parece ser uma boa pedida. O que a autora e o ilustrador fazem é tecer possibilidades de modos de enxergar, criando uma situação inusitada a cada hipótese que lançam. Não é o meu tipo preferido de livro para a infância, contudo. Talvez um certo didatismo, talvez a falta de trabalho com os reais motivos que fazem a criança rejeitar o óculos... não tenho certeza, mas algo na obra não me fisgou.

Ensaio sobre a cegueira (José Saramago) + filme de 2008

Quando muitos anos me separam de uma leitura, geralmente retenho mais a sensação do encontro com a obra do que detalhes de enredo, aspectos da narração, personagens. Contudo, Ensaio sobre a cegueira  é um livro do qual ainda muito me recordava. Se algo estava mais oblíquo nas minhas memórias, provavelmente era o poder de escrita de Saramago. E o final de livro e filme, ao qual tinha atribuído uma solução ingênua, sem perceber a potente ambiguidade que carregam. Fui engolfada pelas palavras do escritor, ainda que recordasse de antemão boa parte dos acontecimentos da trama. Deparei-me com uma perspectiva mais crítica em relação ao romance (muitos questionam, por exemplo, um suposto discurso capacitista), mas a verdade é que pouco me incomoda profundamente no romance. Até alguns aspectos que esbarram no machismo (como o fato de a personagem principal ser apenas "a mulher do médico") podem ser lidos em um leque mais abrangente, em que essas disparidades do discurso são o reflexo ...

Afirma Pereira (Antonio Tabucchi)

A premissa de Afirma Pereira  é uma das que mais me encanta na literatura: o personagem que se apresenta ao seu próprio autor, reivindicando direitos e querendo rever o seu ponto de vista na história. Ainda que se inspire em Pirandello, a proposta de Tabucchi é bastante diferente: afinal, muito se fala do apoio do dramaturgo italiano ao fascismo. Assim, ainda que dialogue com uma cultura com bases políticas diversas, o que Tabucchi oferta ao leitor é a ideia do quanto não é possível desvincular a arte do contexto ideológico em que se insere. O livro, ainda que seja curto, tem uma estrutura bastante repetitiva. Mesmo que não se trate de um recurso estilístico sem propósito, acaba deixando a narrativa um tanto previsível. No entanto, é justamente essa previsibilidade que culmina em um final intenso e surpreendente – além de catártico.

Os livros que devoraram meu pai (Afonso Cruz)

Com uma premissa quase tão interessante quanto o  título, o livro de Afonso Cruz é feito na medida para ratos de biblioteca de todo tipo. No entanto, considerada enquanto obra de incentivo à leitura, tenho meus questionamentos em relação ao papel que possa cumprir. Voltada para um público infantojuvenil, a narrativa traz um tom que é mais convidativo aos "iniciados"; para uma criança ou jovem não leitor, creio que tem pouca capacidade persuasiva. Ademais, a obra traz o inconveniente de dar vários spoilers de clássicos universais, o que sempre pode ser um empecilho na formação de novos leitores.

Autobiografia (José Luís Peixoto)

Antes de "Autobiografia", só havia lido de José Luís Peixoto o breve "Morreste-me" - excelente desde o título. Assim, por já haver tido um contato inicial com a escrita poética do autor, tinha altas expectativas em relação à obra em questão (que, apesar de intitulada como um gênero literário diverso, trata da vida e das publicações de José Saramago). Em certa medida, o livro de Peixoto tem uma instigante proposta estrutural, que é a de mesclar a vida do biografado com a própria vida de quem escreve. Para atingir esse efeito, brinca com a homonímia dos Josés com frequência - a ponto de o leitor não saber situar a que personagem alguns trechos fazem referência. Além disso, a obra conta com uma estrutura circular bem pensada, daquelas que gerariam o desejo, no leitor, de retomar a narrativa assim que finalizasse a leitura. No entanto, além da vontade que me faltou para reler a obra, também quase me faltou a paciência de terminá-la. Se o projeto macro do livro é bem o...

A gorda (Isabela Figueiredo)

Para quem, nos últimos anos, vem acompanhando a produção da literatura africana de língua portuguesa, é difícil não enxergar no colonizador branco a figura do vilão. Sem isentar-se da culpa histórica, a escritora Isabela Figueiredo nos mostra o quanto o panorama é ainda mais complexo. Filha de brancos, a autora cresceu assistindo às relações de exploração e preconceito. Emigrada para Portugal, pôde, com o distanciamento, analisar com ainda mais argúcia os laços entre ambos os países. Em seu romance "A gorda", elenca vários elementos além da gordofobia que cerca a protagonista: machismo, estereótipos, ligação com os pais, morte... Enfim, tudo o que é humano entra no romance, que conta com uma escrita bastante simples, mas repleta de trechos poéticos. 

Sermões de quarta-feira de cinza (Antonio Vieira)

Antonio Vieira foi uma das figuras mais interessantes da nossa história colonial - com discursos polêmicos, chegou a ser encarcerado pela Inquisição; foi queridinho de uma parte da monarquia europeia e odiado pela outra; fez várias viagens por longas distâncias em uma época em que essas travessias eram bastante arriscadas; foi padre, conselheiro, envolveu-se com política e até fez profecias. Talvez a vida tão agitada venha de uma certeza vieiriana que é dita magistralmente nos três discursos da quarta-feira de cinza: nossa existência é breve; do pó viemos e ao pó retornaremos. Com uma capacidade de oratória exemplar, Vieira foi um pregador ousado; em um dos sermões listados nesta pequena obra, inicia lembrando aos seus espectadores que o tempo que passa nos aproxima cada vez mais da morte. Assim, aquele que assiste pela segunda vez ao sermão da quarta-feira de cinza não é alguém necessariamente mais sábio; é apenas alguém 1 ano mais próximo do fim. Quase quatrocentos anos depois,...

A cidade e as serras (Eça de Queirós)

Durante muito tempo "A cidade e as serras" foi o meu livro menos querido na lista clássica do vestibular - e, por isso, sempre evitava dar aula sobre a obra. No entanto, ao não ter outra saída senão encarar o romance novamente este ano, qual não foi a minha grata surpresa ao me deparar com uma narrativa divertida, irônica e reflexiva. Para dizer em outras palavras: eu me jacintei. A crítica de Eça aos excessos burgueses não fazia sentido na minha vida no primeiro contato com a obra; agora, mudados os contextos pessoal e histórico, pude assimilar muitas das indiretas do português para o meu próprio estilo de vida. Jacinto não só é um rico envolto pelo luxo; é (assim como muitos de nós, da era da informação) envolvido por muito mais do que consegue acumular. Sua agenda lotada não lhe deixa tempo para aproveitar cada encontro; possui 70 mil exemplares na biblioteca, sem vontade de ler nenhum; compra quinquilharias tecnológicas que rapidamente deixam de funcionar ou se transf...

A eternidade e o desejo (Inês Pedrosa)

Quem embarca na leitura de "A eternidade e o desejo" envolve-se em dois amores: um, pela escrita moderna, reflexiva, fluida de Inês Pedrosa; outro, pelo tom argumentativo e convincente do padre Antônio Vieira. Uma das paixões é validada pela eternidade dos sermões do português, que sobrevivem (com atualidade) cinco séculos após sua feitura; a outra paixão vai ao encontro do prazer que a narrativa da escritora nos provoca, tão afeita ao nosso tempo, aos nossos dilemas; paixão pelo desejo, portanto. E como já adiantou Vieira, lá por meados de 1600: "Para falar ao vento bastam palavras, para falar ao coração são necessárias obras". A obra de Inês Pedrosa, em um resumo sem compromisso, pode até parecer a trama de um livro paradidático; afinal, o que a protagonista da história (Clara) faz é nos apresentar um autor clássico pelo viés da contemporaneidade. Ao embarcar em uma viagem pela Bahia, a personagem busca entender os seus dilemas pelas palavras do padre - apenas e...

Coração, cabeça e estômago (Camilo Castelo Branco)

Minha última leitura de Camilo havia sido ainda na época do vestibular: o sofrível "A brasileira de Prazins". Sem ter estudado nada do autor na faculdade, foi com um pouco de receio que mergulhei neste título metonímico - e, para a minha surpresa, não foi sem prazer que o fiz. Ao tecer críticas muito ácidas ao Romantismo (sendo que este livro foi publicado no mesmo ano do choroso "Amor de perdição"), o autor se mostra versátil, com um olhar sarcástico sobre a própria escrita e, acima de tudo, bem à frente de seu tempo. Ainda que seja quase que unanimemente rotulado como ultrarromântico, um livro como "Coração, cabeça e estômago" bota toda a classificação literária relativa ao autor em xeque. O aspecto que mais me interessou no livro, contudo, é exterior a ele: me encantou ver paralelismos possíveis entre este romance e o "Memórias póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis. Uma leitura atenta deixa muito visível o quanto o nosso brasileiro ...

Sonetos (Luís de Camões)

Toda lista de leituras ditas necessárias (sejam os 1001 livros para ler antes de morrer, sejam os 10 mais indicados pelos críticos) é ideologicamente construída; sendo assim, muito do nosso julgamento relativo à literatura é política e culturalmente enviesado. Contudo, mesmo em um contexto em que tudo pode (e deve) ser questionado e relativizado, alguns casos específicos de genialidade ao longo da nossa história são difíceis de negar. Ninguém contesta a grandeza de um Da Vinci, de um Beethoven... ou de um Camões. Não só a amplitude da obra do renascentista português é um atestado do seu espírito engenhoso; para além dos Lusíadas, há riquezas e postura vanguardista inegáveis nas outras formas de composição cultuadas por Camões - como podemos ver, por exemplo, em seus sonetos. Construídos por meio de jogos de lógica extremamente complexos, boa parte de seus poemas neste formato é quase enigmática - não só desafiam o leitor, como o convidam para uma leitura mais lenta, mais pausa...

O vento assobiando nas gruas (Lídia Jorge)

Como diz Inês Pedrosa na contracapa, o título deste livro é agreste - talvez pouco convidativo a princípio, mas que deixa margem para um mistério a ser descoberto. De onde vem a poesia que ressoa em nós após a leitura do nome da obra de Lídia Jorge, escritora praticamente desconhecida no Brasil? Apesar de parecer um tanto hermética, a obra nos chama a desvendar o segredo de sua "poeticidade" desde o mais elementar princípio. As primeiras páginas tampouco são fáceis ou esclarecedoras. Milene Leandro, protagonista (que, muitas vezes, se confunde com a voz do narrador), é alguém muito fora dos padrões socialmente estabelecidos. Ao início, suas atitudes parecem descabidas ou imaturas; contudo, essa impressão se mantém até sermos apresentados aos demais personagens da obra, hipócritas, manipuladores e, nem por isso, essencialmente ruins - apenas humanos. A delicadeza do olhar sobre Milene (cujas atitudes só terão uma justificativa plausível ao final do enredo) instiga e comove...

Auto da barca do inferno (por Laudo Ferreira)

Esta é uma adaptação muito interessante da principal barca descrita por Gil Vicente em seus autos. Não só o traço dos quadrinhos é bem realizado, como a opção de manter a linguagem original do escritor (ao invés de pasteurizá-la para forçar a compreensão) é uma opção inteligente. O que mais me chamou a atenção neste livro é a sua fuga dos roteiros tradicionais de adaptação de obra de vestibular para hq. O autor está mais preocupado em inserir a sua identidade na releitura de Gil Vicente do que fazer ilustrações simplificadoras, destinadas aos alunos que precisam desesperadamente compreendê-la. Logo ao início é possível perceber essa intencionalidade do quadrinista de imprimir sua marca: o diabo é representado de maneira quase alegórica, muito diverso do estereótipo de chifres e tridente. A obra é introduzida como se fosse uma peça de teatro/circo, com direito a "assistentes de palco" que indicam a passagem dos capítulos. No final, há a cena em que o próprio Gil Vi...

Morreste-me (José Luís Peixoto)

A morte do pai é um tema recorrente na literatura universal - "Coplas a la muerte de su padre", de Jorge Manrique, talvez seja um dos textos mais conhecidos e antigos com essa abordagem. No entanto, apesar de caminhar por um terreno já muito trilhado, José Luís Peixoto consegue surpreender com o seu livro, de menos de 100 páginas. A força poética de sua obra se apoia na descrição dolorosa da perda - no ver o pai doente, infantilizado, ao mesmo tempo em que tem de enfrentar a própria impotência -, que é sucinta e pungente. Apesar de lidar com uma situação muito biográfica, o escritor consegue universalizá-la, causando identificação imediata com todos os leitores que tiveram ou terão de lidar com um contexto semelhante. É um livro para ser lido devagar, para absorver todo seu potencial lírico, mas não lentamente demais, para não afundarmos com o personagem em sua dor.

José e Pilar (Miguel Gonçalves Mendes)

As entrevistas feitas por Miguel Gonçalves, que guiaram o lindíssimo filme sobre a vida de Saramago, têm a vantagem de revelarem um personagem que nada tem de coadjuvante: Pilar, com suas ideias fortes e convicções inabaláveis, é tão ou mais encantadora do que aquele que deveria ser o foco central da conversa. Trechos: "José: [...] uma pessoa pode, enfim, por uma perda da pessoa a quem ama, por exemplo, suicidar-se, a isso chamaria eu morrer de amor. Agora não há nenhuma doença do amor, ou melhor, as doenças do amor são de outra natureza, são o cansaço, são o aborrecimento, são a rotina, essas são as doenças do amor. Agora, morrer de amor? Não sei. Pilar: Pode-se morrer de sofrimento, pode-se morrer de desgosto... Disso que falávamos antes, de perversão, da perversão dos sentimentos que podem ir consumindo, mas o amor é expansivo, enche tudo. Não se pode morrer de amor. Creio que se vive de amor." *** "A cultura, que é o melhor e único bem possível." (...

Charneca em flor (Florbela Espanca)

Ah, Florbela... apesar do tom às vezes demasiado romântico, da melancolia suicida, dos temas um tanto redundantes, ainda é uma das minhas poetas preferidas. Se só o fato de ser mulher e assumidamente escritora já a coloca em uma posição de destaque no início do século XX, a sensualidade que emana de seus versos é ainda mais corajosa. Ou, como diriam os grandes pensadores contemporâneos, são poesias que fazem o recalque passar longe. Ainda que nem todos os poemas tenham a mesma profundidade, este livro não deixa de ser incrível. Trata-se, de fato, de uma obra desigual, mas nem por isso menos legítima. Trechos: Quem sabe se este anseio de eternidade, A tropeçar na sombra, é a verdade, É já a mão de Deus que me acalenta? *** São os teus braços  dentro dos meus braços:  Via Láctea fechando o Infinito! *** Ser a moça mais linda do povoado, Pisar, sempre contente, o mesmo trilho, Ver descer sobre o ninho aconchegado A bênção do Senhor em cada filho. Um vestid...