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Mostrando postagens com o rótulo Quadrinhos estadunidenses

The shape os ideas (Grant Snider)

Qual é a forma de uma ideia? Partindo desse pressuposto, Grant Snider cria outra obra excelente baseada em reflexões metalinguísticas. O autor investiga o próprio processo criativo e o apresenta ao leitor, em um conjunto de quadrinhos muito potentes. Na busca por respostas, uma ou outra página tem um viés mais assertivo, que beira o discurso do autodesenvolvimento. Contudo, o autor consegue ir muito além de oferecer soluções às aflições de quem vive de fazer arte. Mesmo quando parece ter encontrado uma resposta, o que segue brilhando em sua obra é a oferta de um questionamento certeiro.

Thunder & Lightning: Weather Past, Present, Future (Lauren Redniss)

Após ler a excelente biografia de Marie Curie, fui procurar mais trabalhos da ilustradora Lauren Redniss. Gosto muito da forma como ela apresenta seus trabalhos, criando telas que remetem a pinturas de giz de cera, nas quais o texto entra pelas frestas. É um jeito de fazer bonito, que une o verbal e o não verbal para dispor informações científicas e pesquisa histórica de forma acurada. Thunder & Lightning  trabalha a relação entre homem e natureza, focando as alterações e fenômenos climáticos. A primeira parte do livro realça uma natureza majestosa, diante da qual pouco ou nada podemos fazer: seja atingidos por um raio, soterrados por um deslize de terra ou cegados pela neblina, percebemos o quanto somos ínfimos diante de tudo o que nos cerca. No meio do caminho, um capítulo chamado Sky  apresenta apenas ilustrações sobre diferentes imagens de céu, criando duplas e mais duplas de páginas de muita apreciação. Já a segunda parte da obra traça o caminho oposto, criando um diá...

Rosalie Lightning: memórias gráficas (Tom Hart)

Quando se falam em grandes quadrinhos, talvez nos venham à mente, imediatamente, histórias como as de "Persépolis" e "Maus". Isso é um bom sinal, já que mostra que há muito drama histórico escrito no gênero — o que ampliou o espectro das HQs para muito além do humor e da aventura. Entretanto, com a autoficção lotando as prateleiras das livrarias (ainda que virtuais), não é de se estranhar que hoje tenhamos muitos dramas pessoais contados magistralmente em HQ. E Rosalie Lightning é um desses casos. No livro, o autor expõe a curta vida da filha, que faleceu com menos de 2 anos. Na tentativa de viver e entender seu processo de luto, aos poucos o autor entra em contato com outros relatos, diversos, de quem passou por experiências parecidas. Assim, por mais que a sua dor seja enorme — e absolutamente justificável —, a maior beleza do livro talvez seja nos mostrarmos que não estamos sós. Mesmo com as perdas que carregamos. Sem uma linha cronológica definida, o livro resga...

Beasts of Burden v. 3 (Evan Dorkin e Jill Thompson)

Se o primeiro volume de Beasts of Burden me pareceu uma boa mescla de gênero história de terror com o subgênero histórias de cachorrinhos, essa boa primeira impressão foi se diluindo ao longo dos volumes subsequentes.  Os enredos muito fragmentados, que se resumem a uma luta com um ser sobrenatural, acabam enjoando depois do contato inicial. Ainda que os personagens sejam uma graça, não bastam para sustentar a história sozinhos.

I will judge you by your bookshelf (Grant Snider)

Este é um livro perfeito para bookworms, com ilustrações encantadoras que retratam as agruras e delícias de viver entre as páginas de diversas leituras. Monotemática, é uma obra que funciona bem para os iniciados – para quem não entende as particularidades e manias de um bibliófilo, provavelmente muitas das intertextualidades e referências não farão muito sentido. Adorável para se ler aos poucos, entre uma xícara de chá e pilhas de livros ainda não lidos.

Parafusos: mania, depressão, Michelangelo e eu (Ellen Forney)

 Talvez meu primeiro contato com uma abordagem mais séria do termo "bipolar" tenha sido ao assistir a um episódio da série Modern Love, com Anne Hathaway. Longe de ser uma produção televisiva com ares documentais, o episódio não precisava se aprofundar muito para mostrar o quanto esse distúrbio é muito mais complexo do que como é julgado à primeira vista. Experiência semelhante ocorreu durante a leitura de "Parafusos": o quadrinho, com características autobiográficas, não se propõe a ser um estudo científico sobre a bipolaridade. No entanto, é com base em leituras da psicologia e da história da arte que a autora se propõe uma questão instigante: a arte precisa estar ligada ao que é taxado como loucura? Ou, em outros termos: é possível ser criativo e medicado? Em alguns momentos, o quadrinho é realmente genial ao retratar, por meio de ilustrações com traços muito diferentes, a bipolaridade por meio de um recurso gráfico. Por mais que nem sempre a trama tenha me prend...

O conto de areia (Jim Henson)

 Com um tom quase surrealista e uma narrativa frenética, "O conto de areia" não é um livro que se propõe a dar explicações. O fato de o protagonista passar toda a narrativa tão desorientado quanto o leitor gera um elemento de identificação - quando não de empatia. Ainda que não se trate de uma história muito profunda (ou repleta de camadas), a arte gráfica a transforma em um livro bastante instigante de acompanhar. O final é muito bem bolado, e consegue criar uma amarração que torna o todo coerente.

Fun home: uma tragicomédia em família (Alison Bechdel)

Uma de nossas tarefas, enquanto adultos, passa por tentar entender quem foram nossos pais. Nesse processo de espelhamentos, procuramos encontrar quem somos na imagem que se reflete tortamente em nossos genes e decisões. Em "Fun Home", a autora Alison Bechdel cria uma narrativa autobiográfica poderosa, na qual a figura de seu pai – gay e suicida – é analisada poeticamente. Repleta de intertextualidades literárias, a HQ é um prato cheio para quem gosta tanto de mitos gregos quando da cena parisiense dos anos 1920. A linguagem da autora, ainda que incisiva, resgata bastante desse universo literário nas descrições que faz de seu ambiente familiar. "Fun home" é também uma história de autodescoberta. É ao se descobrir homossexual que Alison vislumbra os segredos de seu pai, até então não revelados. Livro doloroso, constitui uma homenagem difícil (e nem por isso menos potente).

Bone 1, 2 e 3 (Jeff Smith)

"Bone" ficará marcado como a minha leitura antipandemia. Com um cenário épico e um traço incrivelmente leve, é difícil não se deixar simplesmente deslizar pela obra de Jeff Smith - mesmo quando o contexto é tão desfavorável a nos deixar relaxar em uma boa leitura. Marcada pela aventura, a saga "Bone" também está repleta de boas piadas, momentos de drama e de questionamentos. Ainda que o desenho fofinho possa enganar à primeira vista, é uma novela gráfica bastante complexa e que sabe como criar personagens marcantes. Gostei bastante dos dois primeiros volumes, mas não tive a mesma sensação de satisfação com o último. Ainda que o desfecho da história seja muito maduro e evite clichês, a aparição de alguns deuses ex machina incomodou um pouco. No entanto, mesmo as falhas pontuais não tiram o valor do quadrinho.

Blood: uma história de sangue (J.M. DeMatteis & Kent Williams)

O prefácio de Blood, escrito por DeMatteis, me cativou. No entanto, percebi ao final da obra o quanto deveria ter levado as palavras de apresentação do autor mais a sério: "Blood" é um livro narrado de forma intuitiva. Para aqueles que são fãs de uma racionalidade fria, a obra causará estranhamento - quando não rejeição. Li quase metade do livro com a intenção de abandoná-lo. É apenas quando há um deslocamento temporal do protagonista que comecei a captar a intenção da narrativa, que tem um tom quase mítico (no qual nada se explica, ainda que a origem de muito do que nos rodeia seja revelada). O final da trama consegue amarrar todas as eventuais pontas soltas que possa apresentar. É um livro que promove uma experiência intuitiva, sensorial. Assim, depende de nossa abertura para experimentar o diferente e de baixarmos nossa guarda para diferentes formas de arte.

Ricardo III (Patrick Warren)

De todas as peças que conheço de Shakespeare até agora, "Ricardo III" foi uma das mais envolventes - e, ao mesmo tempo, das que mais me geraram estranhamento. É difícil não ser arrastado para dentro da leitura pelo discurso persuasivo do rei coxo, que nos arrebata já na cena inicial; por outro lado, trata-se de uma obra com um contexto histórico que hoje nos é muito distante, além de uma quantidade imensa de personagens. Ao transpor todas essas variáveis para a linguagem do mangá, Patrick Warren realiza um trabalho que deixa a desejar. A multidão de figuras históricas torna a obra bastante difícil para um leitor não iniciado; além disso, os recortes de cenas só enfatizam o efeito lacônico da adaptação. Na edição disponível no Brasil, as imagens saíram com qualidade baixa, o que só acentua os defeitos encontrados na leitura. Com mais defeitos que qualidades, não é uma obra que compense os percalços do leitor.

Beasts of Burden: cães sábios e homens nefastos (Evan Dorkin & Benjamin Dewey)

Continuação da saga narrada no primeiro volume, o livro é um compilado de aventuras de uma matilha feiticeira. Repetindo o sucesso da obra anterior, os autores apostam em uma caracterização bastante interessante dos personagens - capaz de cativar qualquer amigo de pet -, além de contar com piadas rápidas bem eficazes. Apesar de bastante sangrento, é um quadrinho que tem sua leveza. Não é o suficiente para tirar o sono de ninguém - mas garante uma boa horinha acordado, em nome de uma prazerosa leitura.

Beasts of Burden: rituais animais (Evan Dorkin e Benjamin Dewey)

Com um clima que lembra o de "Stranger Things" e "Goonies", esta é uma história de jovens aventureiros que precisam resolver situações-limite envolvendo seres mágicos e conspirações de todo tipo, sem contar com o auxílio dos adultos. Ou, aliás, dos humanos - afinal, nossos protagonistas são uma bela equipe de cachorros. O traço da HQ é lindo, e reproduz fielmente alguns dos trejeitos dos bichinhos. Assim, quem tem companheiros de 4 patas tende a se identificar facilmente com a história. Ainda que a sequência de conflito-aventura-resolução do mistério me canse um pouco, as piadas ao longo da narrativa são muito bem pensadas. Dessa forma, até mesmo leitores mais afastados do gênero de suspense e mistério se sentem cativados pela trama.

Deslocamento (Lucy Knisley)

Relações familiares são complexas, permeadas de emoções e convivências distintas. No universo que abrangem, há personalidades, graus de parentesco e gerações diferentes, que por vezes tentam manter um diálogo para além dos laços de sangue. É nessa perspectiva de entender melhor o conceito de família que a quadrinista Lucy Knisley nos revela, simultaneamente, dois diários - tanto o dela, relato de um cruzeiro que fez com os avós, quanto o do próprio avô, elaborado na época em que participou da guerra. Ao reler as entradas redigidas por seu parente, a autora tenta resgatar a história dos avós, de quem eles foram antes de serem tomados pela idade. Nesse exercício de empatia, procura fontes para entender melhor as necessidades dos dois - tanto lavar as suas calças sujas quanto descobrir o porquê de terem arriscado uma viagem mesmo com a saúde tão debilitada. A história é tocante, e ao revelar sua fragilidade e preconceitos, a escritora causa identificação no leitor. Afinal, quem de n...

Aqui (Richard McGuire)

Lançado em uma edição de luxo da Cia. das Letras aqui no Brasil, à primeira vista a novela gráfica de Richard McGuire não surpreende. Desde a capa quase minimalista, o traço não é o grande atrativo deste autor - e nem a sua única especialidade.  Roteirista, diretor, baixista e criador de uma loja de brinquedos, esta é a primeira incursão do artista no mundo dos quadrinhos. Ainda assim, não é uma incursão recente - "Aqui" teve sua ideia original lançada nos anos 80 e foi aperfeiçoado em uma publicação que só ocorreu em 2014. Se o desenho não é o carro-chefe deste livro, o mesmo não se pode dizer da criatividade. A ideia, extremamente simples, é retratar como um único ambiente da terra se transforma- desde a lava primordial, passando pelas pequenas vicissitudes dentro de uma casa secular até chegar a um futuro próximo, de esquecimento e reinvenção. É uma obra que trabalha com a transformação e com a nossa tão temida mortalidade - não por acaso, parece dialogar diretamente...

The complete Peanuts (1957-1958)

Quadrinhos novamente muito interessantes, com Snoopy cada vez mais no papel de protagonista.

Gênesis (Robert Crumb)

A linda edição da Conrad (uma das mais primorosas da editora) traz, em uma pequena luva, um aviso que resume com perfeição a adaptação bíblica feita por Crumb: "Este livro contém descrições de cenas de nudez e violência conforme o texto original no qual é baseado". Robert Crumb é conhecido por seus quadrinhos underground, permeados de pornografia, machismo e excessos de todos os tipos. A sua ideia de adaptar o Gênesis do Velho Testamento para a linguagem em quadrinhos não se trata, contudo, de uma profanação, mas, sim, de uma identificação com todos os elementos moralmente reprováveis presentes neste livro sagrado: incesto, estupro, assassinato, fratricídio etc. O estudo de linguagem e contexto realizado tanto pelo autor quanto pelos tradutores é profundo, e coloca em evidência vários problemas de tradução da Bíblia, assim como as modificações realizadas a posteriori  no texto por políticos, religiosos ou poderosos. É um questionamento irreverente da Bíblia, mas real...

Na vida real (Cory Doctorow e Jen Wang)

De Jen Wang já havia lido Koko be good , uma obra em quadrinhos que havia adorado - tanto pela qualidade do traço quanto pelos personagens complexos (ainda que se tratasse de um livro de enredo mais simples, uma espécie de YA). Nesta nova publicação, criada em parceria com Cory Doctorow, há novamente um desenho de traço limpo combinado a protagonistas mais profundos. A trama aborda a temática dos games  do ponto de vista sociológico, comparando a vida de crianças que jogam por prazer e as que precisam trabalhar incessantemente, inclusive na frente do videogame , pois esta é a sua única fonte de renda. Trata-se, mais uma vez, de um enredo mais juvenil, mas nem por isso a obra deixa de ser uma leitura enriquecedora. O prefácio, que contextualiza a ideia do vínculo entre games  e economia, é um convite ótimo para conhecer o livro. 

Minha vida (Robert Crumb)

Por muito pouco não desisti da leitura nas dez primeiras páginas; enquanto procurava o preço do livro na internet (para já tentar revendê-lo), encontrei também uma resenha esclarecedora, que me fez respirar fundo e ir até o final da obra.  Continua não sendo um livro de que goste, necessariamente - ainda assim, realmente há algumas narrativas dentro da obra que são mais interessantes. E, por mais que o personagem seja um porco chauvinista, o fato de nos identificarmos com seus pensamentos em alguns momentos serve como um alerta de que, no fim, estamos todos no mesmo barco. A história segue o mesmo curso independentemente de nossas idiossincrasias, e ser capaz de alguma identificação com o outro é um exercício que pode sim render bons frutos. As histórias coloridas dentro da edição são as melhores - até porque o traço de Crumb é bastante sujo, o que dificulta a leitura. Das narrativas em preto e branco, a que ocorre durante uma entrevista do autor a uma revista católica é a mais...

Salon (Nick Bertozzi)

Um quadrinho que traz como personagens Gertrude Stein, Picasso, Braque, Alice B. Toklas, Apollinaire, dentre tantas outras figuras icônicas do século XX, prometia ser uma obra em quadrinhos minimamente interessante. Contudo, ao final da leitura tive a sensação de estar diante de uma obra com o mesmo senso estético de Orgulho e preconceito zumbis  ou algo que o valha. É um livro ao qual talvez dê outra chance no futuro - afinal, em muitos casos reconheço que me faltaram referências para compreender o fluxo da narrativa - mas acho muito improvável que minha opinião mude muito radicalmente sobre ela.