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Mostrando postagens com o rótulo Literatura canadense

Meu corpo minha casa (Rupi Kaur)

Rupi Kaur é muito criticada pela academia — e, por vezes, pelos  resenhistas do BookTube (que, por sua vez, também são repelidos pelos especialistas enclausurados no próprio ego). De certa forma, eles têm razão: há algo de coloquialidade na poesia de Kaur que vai pouco além de frases estampadas em camisetas, posts prontos, verdades de porta de banheiro.  Talvez incomode o fato de que, de certo ponto de vista, a poesia de Kaur corresponde ao que se espera dela. Assim, acaba sendo um texto útil, contra toda a ideia de que a literatura não deve ter um fim prático. Mesmo assim, a obra da canadense instagramável não se reduz a isso. Aborto, estupro, menstruação. Se, por um lado, a escrita da jovem canadense/indiana agrada por ser de fácil entendimento, por outro lado traz para a poesia temas que são frequentemente banidos da literatura. Qual foi o último grande poema da alta literatura que você leu sobre menstruação? Caso não venha nenhum à mente, talvez seja o caso de refrear as c...

Alias Grace (Margaret Atwood) + Série de 2017

Autora largamente publicada, Margaret Atwood voltou a ser mais conhecida entre nós graças à brilhante adaptação de "O conto da aia", uma distopia criada há mais de 30 anos e profundamente atual. Pouco depois, uma versão televisiva bastante sofrível foi realizada com base em seu romance "Alias Grace". Assim, fica o questionamento: p or que é tão palpável a diferença de abordagem entre as duas adaptações?  Se em "O conto da aia" temos uma história bastante visual, com descrições de ambientes e vestimentas fundamentais para a narrativa, o mesmo não se dá com "Alias Grace". Construída em torno de diálogos e jogos de linguagem, a trama da prisioneira Grace não apresenta os elementos que poderiam facilitar sua releitura em outras mídias. O mundo interior da protagonista, vasto e misterioso, é um dos grandes charmes do livro. Aos poucos, como leitores, somos seduzidos pela capacidade de argumentação e ironia da personagem, sem nos preocuparmos em de...

O conto da aia (Margaret Atwood)

Enquanto a utopia é a etiqueta atribuída para catalogar os mundos sonhados, os panoramas ideais, a distopia age como seu contrário: igualmente possível em uma realidade distante, é marcada pelo signo do negativo, da falta, da opressão. Classificado como romance distópico, "O conto da aia" gera polêmicas - afinal, como a própria autora já afirmou em várias entrevistas, todo o enredo é inspirado em situações que já existem. Se distópico, seu livro tem ao menos um dos pés ancorado fortemente na realidade - e, justamente por isso, sua trama é tenebrosa. Em um futuro próximo, as fêmeas se tornam inférteis em função do excesso de radioatividade. Nesse contexto de crise (tanto de população quanto da produtividade de alimentos), um estado autoritário assume o poder dos Estados Unidos, sob o pretexto de estar combatendo os terroristas. Depois deste golpe, todas as atrocidades são validadas, e passam a ser a lei, o bastião da moral segundo o texto bíblico. Mais do que um plot , a ide...

Anne of Green Gables (L. M. Montgomery)

Apesar de só ter virado hype no Brasil recentemente, em função da série "Anne with an E" na Netflix, o romance quase homônimo foi um grande sucesso da literatura infantojuvenil na época de seu lançamento, no início do século XX. Quase que uma predecessora do boom  dos livros para crianças, a escritora L. M. Montgomery, animada pelas enormes vendas, publicou várias sequências para a sua história, transformando-a em um verdadeiro ícone da ficcção. Um exemplo do quanto a trama foi (e é marcante) é o fato de que a ilha em que supostamente viveu a personagem Anne tornou-se uma rota de turismo, com direito a selfies  tiradas em frente às casas típicas do lugar e compra de muitos souvenires. Adaptada para desenhos japoneses, criou também uma legião de fãs do outro lado do mundo. Mas em que esse enredo, com um clima marcadamente bucólico, ainda atinge os leitores (e espectadores) de nosso tempo? Talvez despercebidos na época do lançamento, há muitos traços modernos nesta p...

A casa do céu (Amanda Lindhout)

Apesar de já saber, antes da leitura, que se tratava de um livro sobre o cativeiro de uma jornalista canadense na Somália, não fazia ideia de que iria encontrar, na obra, um relato de viagem tão fascinante.  Amanda Lindhout, nos primeiros capítulos, traça uma breve autobiografia, procurando entender (ao mesmo tempo que justifica para o leitor) de onde veio a sua vontade de conhecer o mundo. A autora volta à infância, cheia de traumas, para buscar as origens do seu escapismo: primeiro nas páginas da National Geographic e, após os primeiros empregos, em passagens de avião para destinos exóticos e surpreendentes. Sem ter feito nenhuma faculdade até então, a canadense transformou seu conhecimento de mundo em trampolim para uma iniciante carreira na fotografia e no jornalismo. No entanto, por ser rechaçada nas panelinhas dos jornalistas sérios e diplomados, decide desbravar um território ao qual ninguém vai e do qual poucas notícias chegam: a Somália. Ao longo do seu traum...