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Mostrando postagens com o rótulo poesia

Esse ofício do verso (Jorge Luis Borges)

Conheço bem o mito de Jorge Luis Borges - um dos escritores latino-americanos mais galardoados -, mas tenho a sensação de saber bem pouco de sua obra. Talvez essa impressão derive do fato de a produção do argentino ser tão vasta: de poesia a conto, de crônica a novela, de ensaio a recriação de outras narrativas. Ademais de ter escrito em diversos gêneros e contabilizado um número significativo de páginas em sua produção reunida, aparentemente tudo o que Borges escreveu é digno de fazer parte do cânone. Dessa forma, mesmo que já tenha lido algo do argentino, sempre fica a sensação do quão pouco o conheço (e do quanto ainda tenho a desvendar). "Esse ofício do verso" é um livro belíssimo, que pode servir inclusive de porta de entrada à produção do escritor. Nele, são reunidas algumas palestras em que discorre sobre temas tão complexos e apaixonantes como a função social da poesia, a preservação do espírito poético, a necessidade de uma épica moderna e a sonoridade dos versos. ...

Sonetos (Luís de Camões)

Toda lista de leituras ditas necessárias (sejam os 1001 livros para ler antes de morrer, sejam os 10 mais indicados pelos críticos) é ideologicamente construída; sendo assim, muito do nosso julgamento relativo à literatura é política e culturalmente enviesado. Contudo, mesmo em um contexto em que tudo pode (e deve) ser questionado e relativizado, alguns casos específicos de genialidade ao longo da nossa história são difíceis de negar. Ninguém contesta a grandeza de um Da Vinci, de um Beethoven... ou de um Camões. Não só a amplitude da obra do renascentista português é um atestado do seu espírito engenhoso; para além dos Lusíadas, há riquezas e postura vanguardista inegáveis nas outras formas de composição cultuadas por Camões - como podemos ver, por exemplo, em seus sonetos. Construídos por meio de jogos de lógica extremamente complexos, boa parte de seus poemas neste formato é quase enigmática - não só desafiam o leitor, como o convidam para uma leitura mais lenta, mais pausa...

Poemas - Lírica Portuguesa e Tupi (José de Anchieta)

A imagem que me vem à mente ao pensar no período colonial do Brasil é a da exploração - índios dizimados, populações ameaçadas, imposição da cultura portuguesa etc. Assim, um escritor dessa época - ainda mais um jesuíta posteriormente canonizado - é algo que desperta a minha desconfiança antes mesmo de começar a primeira página de leitura. No entanto, apesar do meu receio, o organizador da coletânea de poemas conseguiu me convencer de que, afinal, Anchieta poderia ter sido muito pior, principalmente levando o contexto em consideração. Eduardo Navarro, responsável pela antologia, é um professor renomado no estudo das línguas indígenas no Brasil. Por fazer da cultura nativa brasileira o seu objeto de estudo, um elogio seu à figura do padre tem um peso muito maior. A breve biografia do "apóstolo brasileiro" contém dados interessantíssimos, que eu sequer imaginava. Dos seus poemas, apesar da temática repetitiva, uma ou outra estrofe se salva pela qualidade literária. Por fim,...

Ismália (Alphonsus de Guimaraens)

Um dos poemas mais bonitos do Simbolismo brasileiro, Ismália ganhou uma versão de livro-objeto pelas mãos da editora Cosac e com as ilustrações de Odilon Moraes. O resultado é um livro primoroso, que reproduz nas páginas longilíneas a ideia da torre de Ismália. Todo o trabalho gráfico é muito bem pensado e se articula com a tragédia da personagem meio narcísica, meio desiludida de Alphonsus de Guimaraens.

Charneca em flor (Florbela Espanca)

Ah, Florbela... apesar do tom às vezes demasiado romântico, da melancolia suicida, dos temas um tanto redundantes, ainda é uma das minhas poetas preferidas. Se só o fato de ser mulher e assumidamente escritora já a coloca em uma posição de destaque no início do século XX, a sensualidade que emana de seus versos é ainda mais corajosa. Ou, como diriam os grandes pensadores contemporâneos, são poesias que fazem o recalque passar longe. Ainda que nem todos os poemas tenham a mesma profundidade, este livro não deixa de ser incrível. Trata-se, de fato, de uma obra desigual, mas nem por isso menos legítima. Trechos: Quem sabe se este anseio de eternidade, A tropeçar na sombra, é a verdade, É já a mão de Deus que me acalenta? *** São os teus braços  dentro dos meus braços:  Via Láctea fechando o Infinito! *** Ser a moça mais linda do povoado, Pisar, sempre contente, o mesmo trilho, Ver descer sobre o ninho aconchegado A bênção do Senhor em cada filho. Um vestid...