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O conde de Monte Cristo (filme de 2002)

Sem ainda conhecer o romance original de Dumas, não sei se a máxima de que o livro é sempre melhor do que o filme se aplica aqui. Com uma trama bastante novelesca e cheia de reviravoltas, a produção é um retrato da concepção de mundo romântica. Contudo, temos um diferencial na narrativa usual da época: em vez de movido por uma grande paixão, aqui temos um personagem inspirado por seu ódio. E, confesso: como espectadora, é muito mais interessante acompanhar uma história de vingança do que um romance açucarado.  Talvez seja este um dos elementos da genialidade da obra de Dumas: saber que, apesar de toda a glória romântica, do que gostamos mesmo é de um bom barraco.

Nas estradas do Nepal (filme de 2015)

Há muito de cultura nepalesa neste filme, mas algo não se encaixa bem na costura de diversas cenas. É como se a narrativa fosse um pretexto para exibir tomadas distintas de rituais, danças, orações, em uma espécie de documentário no qual nada é explicado. Uma certa inverossimilhança também modela as ações das personagens – o que, somado a atuações fraquinhas, pouco contribui para que embarquemos na história. 

Antes do nascer do sol (filme de 1995), Antes do pôr do sol (filme de 2004), Antes da meia-noite (filme de 2013)

A trilogia do diretor Richard Linklater desenrola-se com três recortes do mesmo casal, espaçados 9 anos entre si. O feito de acompanhar o envelhecimento dos intérpretes para caracterizar os personagens é notável – mesmo hoje, em que a tecnologia do deep fake torna qualquer transformação no tempo em algo banal. Ao reassistir aos três filmes, fiquei surpresa ao perceber que quase 9 anos também me separam do primeiro contato com a obra, que conheci em 2013. Na época, o meu preferido era o encerramento da história; talvez por tê-lo visto em sua estreia no cinema, algumas cenas ficaram mais marcadas para mim.  O filme do meio, que menos tinha atraído minha atenção, hoje se tornou meu mais querido. Talvez por ter uma idade parecida à dos personagens durante o período retratado, senti uma conexão muito maior com os diálogos e reflexões a que eles chegam nessa fase da vida. Quanto a Antes da meia-noite , pouca coisa hoje me agrada nessa produção – que tem muita gritaria e pouca conver...

Lazzaro Felice (filme de 2018)

Com uma divisão muito profunda em duas partes, Lazzaro Felice é quase que dois filmes bastante diferentes, que se conectam por meio de um diálogo tênue, porém preciso.  Na primeira metade da obra, somos apresentados a um cenário e personagens que nos recordam os filmes clássicos do neorrealismo italiano. Assim, em um ambiente rural grassa a pobreza, enquanto a multitude de membros de uma família busca meios de sobrevivência e de escapar ao sistema quase servil de uma fazenda. Se há um elemento que já nos adianta a complexidade da obra, podemos situá-lo no cronológico. Em um contexto em que já há celulares e comunicação rápida, estranhamos o atraso do meio rural da Itália, aparentemente parado no tempo. Na segunda metade do filme, de súbito somos transportados a um ambiente urbanizado, no qual os laços de família já não se sustentam e a pobreza de mantém, acrescida da marginalidade. Além disso, a atmosfera que predomina do meio ao final do filme é a de ficção científica, surre...

No portal da eternidade (filme de 2018)

Van Gogh não é um tema novo para o cinema; apenas no intervalo entre 2017 e 2018 tivemos dois longas excelentes sobre o pintor, ambos retratando o mesmo período de sua vida.  Qual é o sentido, portanto, de assistir a "No portal da eternidade" se "Com amor, Van Gogh" já era uma obra de arte tão completa e estonteante?  Porque, como tema e como artista, Van Gogh nunca se esgota. Ainda que o recorte histórico de ambos os filmes seja o mesmo, são imersões únicas (que tão bem se complementam).  "No portal da eternidade" conta com a atuação de Willem Dafoe, que se mostra uma excelente opção para o papel. A interpretação é tão absolutamente verossímil que nos faz esquecer que o ator de 63 anos interpreta Van Gogh com 37.  A fotografia do filme é espetacular, e busca reproduzir o olhar do pintor holandês sobre a realidade. Com cenas lindas de desfoque, preto e branco, estouros de luz, é uma obra que desafia as convenções da imagem (em um diálogo direto com a i...

The Chorus - a voz do coração (2004)

Com um mote bastante clichê - o do professor desempregado que volta para a sala de aula e redescobre sua vocação -, "The Chorus" ainda assim consegue convencer por atuações cativantes e um enredo envolvente. Não há muitos elementos de surpresa no filme. Ainda assim, o clima nostálgico de infância (sem perder o foco de críticas aos comportamentos dos adultos) faz lembrar de obras como "Matilda" ou "Os meninos da rua Paulo". Ou seja, vemos protagonistas sobrevivendo em meio às adversidades e procurando formas de superar a própria miséria - ainda que nem sempre sejam bem-sucedidos. As cenas de coral, que dão um tom de musical à obra, ajudam a tornar o enredo ainda mais leve. Ademais, ainda que clichê, a história de bons professores sempre pode ser inspiradora.

A trégua (livro de Primo Levi e filme de 1997)

Sequência do já canônico É isto um homem , este livro de Primo Levi, ex-prisioneiro de Auschwitz, narra a saga dos sobreviventes dos campos de concentração de volta às suas casas. Ao contrário da difundida ideia hollywoodiana (de que os estadunidenses "salvaram" a todos e garantiram um final feliz à guerra), a situação de abuso, pobreza e abandono das vítimas do conflito demorou muito tempo a se extinguir, deixando inúmeras sequelas e cicatrizes. O percurso de Primo em busca da Itália, sua terra natal, é extremamente burocrático, sinuoso, à mercê da vontade e da disposição dos russos. Ainda que em melhor situação do que a concentracionária, as pessoas continuam sendo submetidas a desmandos, enquanto tentam resgatar a sua humanidade na medida do possível. O longo e arrastado caminho descrito pelo autor se reflete em uma escrita tortuosa, truncada, o que acaba tornando a narrativa mais verossímil, porém bastante aflitiva para o leitor. O filme, por sua vez, ainda que...