Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens com o rótulo filme canadense

Tumbledown (filme de 2016)

Filminho estilo Sessão da Tarde, com algumas reflexões interessantes sobre escrita e luto. O que a trama tem de melhor é o que ela deixa em aberto, como o motivo da morte em torno da qual os protagonistas elaboram seus textos. A trilha sonora - com um papel muito importante no enredo - não deixa a desejar. No conjunto, o que fica aquém do esperado é o romance romântico, pouco verossímil e mal desenvolvido.

Meu ano em Nova York (2020)

Um filme que é um afago para a turma que gosta de: - leitura - escrita - mercado editorial - "O apanhador no campo de centeio" e outras obras de Salinger - literatura contemporânea A história narra como uma recém-graduada, aspirante a escritora, é contratada pela agência literária que detém os direitos de Salinger - autor que ela nunca leu. Somos testemunhas, assim, do processo de imersão na obra desse escritor venerado e recluso. Mesmo que seja quase um convite para lermos juntos, o filme funciona melhor para quem tem uma leitura mais recente dos livros de J. D. São várias as citações e jogos literários criados para cativar o público-alvo: nós, os bookworms.

Nope (filme de 2022)

Talvez a missão de todo filme de terror seja deixar o espectador desconfortável; contudo, no modelo clássico do gênero, à apreensão sucede-se o alívio de descobrir a fonte do mal e eliminá-la. Em “Nope”, o incômodo maior não vem das cenas de sangue e morte (que não são poucas), mas de não entender nada do que acontece ao redor dos personagens. Não se trata, por isso, de uma obra ruim. A prova de sua qualidade são as inúmeras hipóteses dos espectadores sobre as intenções do diretor, que surgem logo após o término da exibição. Tampouco se trata de um enredo extremamente difícil; algumas alegorias se repetem com frequência, até se tornarem mais claras para quem tenta desvendar os enigmas da produção. Contudo, há uma ondulação de diferentes ritmos ao apresentar a história que não ajuda a sustentar o interesse até o final da trama. Além disso, o fato de contar com um protagonista que literalmente baixa a cabeça diante do perigo ainda é uma questão que me incomoda (e talvez devesse mesmo inc...

Coda (filme de 2021)

 ​Com uma tradução de título péssima, o ganhador do Oscar deste ano foi batizado originalmente como "Coda" (tanto sigla para "Children of Deaf Adults" como nome de seção conclusiva de uma música). E é sobre esses elementos que o filme trata: o abismo de comunicação entre uma filha ouvinte e seus pais surdos, ainda que seja uma fissura repleta de cuidado e amor... e a música como rito de passagem. Para quem gosta de tramas bonitas, em que tudo se resolve e todos terminam bem, é uma ótima indicação. Eu prefiro enredos mais dramáticos, mas sei que um filme retratando a surdez sem tons trágicos é necessário. E que bom que o Oscar de melhor ator e o de melhor filme souberam reconhecer a importância desse debate.

Licorice Pizza (filme de 2021)

 ​Dois protagonistas que correm na direção um do outro, mas que raramente se encontram: talvez essa cena (que se repete com alguma insistência, aliás) consiga definir a ideia central de Licorice Pizza. Na trama, um garoto de 15 anos se apaixona por uma mulher de 25/28, que aposta na ambiguidade ao enunciar a idade - provavelmente, para não recair na acusação de pedofilia. Mas há outros problemas, e até mais sérios, já que a passagem do tempo não é muito clara no enredo. A protagonista de quem se espera mais maturidade é quem mais demora a se encontrar, passando de uma relação frustrada a outra e sem fixar raízes em nenhum emprego. O garoto de 15 é empresário e ator, e guia a suposta companheira a encontrar seu rumo enquanto o dele já está consolidado. Somada a uma cena de quase abuso da mulher adormecida, o filme está recheado de momentos incômodos. Como comédia romântica, é um filme passável. Como obra saudosista dos anos 1970, também. Mas não é muito mais do que isso - e passa lo...

Ataque dos cães (filme de 2021)

 Mais um da lista do Oscar: do que mais gostei aqui foram as fronteiras tênues que negam os estereótipos de sexualidade. O caubói escroto, que aprendemos a odiar nos primeiros 15 minutos de filme, toca banjo e coleciona borboletas; o menino delicado é aquele que sabe como matar com frieza. A fotografia é linda e usa recorrentemente o efeito de moldura nas cenas: tanto para mostrar o caráter fragmentário da trama como para revelar o claro-escuro da personalidade ambígua dos protagonistas. Trilha sonora e cenário são muito bem escolhidos na produção. Ainda que incômodos, os elementos todos são muito bem amarrados - não à toa, um dos principais símbolos da trama é uma corda.

Duna (filme de 2021)

Dennis Villeneuve me conquistou com A Chegada ; assim, não foi sem grandes expectativas que fui assistir a Duna – afinal, trata-se também de uma história que narra contato entre diferentes povos e é igualmente uma adaptação de obra literária. Aliada a uma excelente fotografia, ótimas atuações e bela trilha sonora, a narrativa surpreende nas telas grandes do cinema. É preciso um tempo após a catarse da exibição para pensar em alguns problemas estruturais da obra, como os estereótipos a que todos os personagens não brancos são reduzidos. Contrariamente às grandes produções de aventuras, este é um filme que se propõe sério, sem alívios cômicos. Talvez seja essa melancolia de um fim de mundo próximo do que mais tenha gostado no filme, e que reflita melhor o estado de espírito dos tempos que correm.

Ensaio sobre a cegueira (José Saramago) + filme de 2008

Quando muitos anos me separam de uma leitura, geralmente retenho mais a sensação do encontro com a obra do que detalhes de enredo, aspectos da narração, personagens. Contudo, Ensaio sobre a cegueira  é um livro do qual ainda muito me recordava. Se algo estava mais oblíquo nas minhas memórias, provavelmente era o poder de escrita de Saramago. E o final de livro e filme, ao qual tinha atribuído uma solução ingênua, sem perceber a potente ambiguidade que carregam. Fui engolfada pelas palavras do escritor, ainda que recordasse de antemão boa parte dos acontecimentos da trama. Deparei-me com uma perspectiva mais crítica em relação ao romance (muitos questionam, por exemplo, um suposto discurso capacitista), mas a verdade é que pouco me incomoda profundamente no romance. Até alguns aspectos que esbarram no machismo (como o fato de a personagem principal ser apenas "a mulher do médico") podem ser lidos em um leque mais abrangente, em que essas disparidades do discurso são o reflexo ...

A maratona de Brittany (filme de 2019)

Clássica história de superação nos esportes, é um filme que tenta contar como uma mulher sedentária conseguiu se disciplinar para correr uma maratona, ao mesmo tempo que tenta (nem sempre com sucesso) não ser gordofóbico ou propor um padrão único de beleza. Filminho de sessão da tarde, vale o entretenimento para quem curte alguns dos temas envolvidos na produção.  

1917 (filme de 2019)

Filmado com o que aparenta ser um plano sequência ininterrupto, "1917" consegue provocar sensação semelhante à do filme "Dunkirk": seu objetivo, ao retratar a guerra, é nos fazer sentir sua inconstância e imprevisibilidade. Assim, nega discursos que dão a guerra como um fato quase científico, que pode ser previsto nos detalhes; o que vemos corroborado em tela é que tudo é uma grande teia de acasos. Outra proposta patente na obra é a de não romantizar quem participa de um conflito armado. Por mais que seus protagonistas tenham valores morais que os conduzam, a belicosidade é bastante questionada. Além disso, a presença de cadáveres por todos os cantos (quase cenário de filmes de terror) ajuda a desmitificar os supostos atos de heroísmo de soldados. Há uma sequência de cenas, por volta da metade da obra, que é estarrecedora. O diretor consegue combinar a claridade das bombas com a sombra da noite e a paleta de cores do nascer do sol. Esses 15 minutos de filme, com...

Coringa (filme de 2019)

Há tempos não me interesso por filmes de super-heróis; até tentei dar uma chance ao ganhador do Oscar, mas só aguentei meia hora de exibição do premiado Pantera Negra . Mesmo quando aborda pautas que vão além da glorificação dos Estados Unidos - como o empoderamento da Viúva Negra ou as causas raciais do Pantera -, elas servem apenas de leve maquiagem para o enfoque principal: um mundo de vilões e mocinhos bem definidos, com necessidades individualistas que precisam ser preenchidas para garantir o funcionamento da máquina mercantil. Nesse contexto de obras repetitivas em sua abordagem, "Coringa" faz a diferença. Por ser um filme que traz apenas o vilão da história - e que, de certa forma, procura humanizá-lo -, leva o espectador a refletir sobre os novos valores morais com que se defronta durante o longa. Por não ser precisa nos contornos que separam o bom do mau, a produção nos leva a questionar quais são as causas pelas quais é digno (ou necessário) lutar. Ainda que o f...

Interestelar (filme de 2014)

Ao reassistir ao filme meia década após seu lançamento, tive a sensação de enfim compreendê-lo com mais profundidade. Há cinco anos, a proposta da trama tinha me parecido ingênua, já que busca uma explicação sentimental para validar as teorias científicas que coloca em evidência. No entanto, ao ver hoje o quanto a falta de humanidade e o academicismo geraram consequências funestas no campo da ciência, tenho de me render à capacidade de visionário do diretor. Uma das cenas iniciais da obra é a da filha do protagonista sendo recriminada na escola por acreditar que o homem, de fato, pisou na Lua. Em outra parte do filme, vemos cientistas tendo de se esconder em um galpão em busca de soluções para a evidente catástrofe ambiental - afinal, para a população investir em ciência é um desperdício de dinheiro. C omo não relacionar essas prévias ao culto da ignorância que vemos em nossos dias? A forte relação entre a ciência e a literatura é outro dos pontos que ficou evidente para mim apenas...

O tradutor (filme de 2018)

Um filme de produção cubana e canadense, cujo protagonista é um ator brasileiro - conhecido por atuar em produções de língua inglesa - interpretando um hispanohablante professor de russo. A salada da descrição talvez consiga dar uma ideia da deliciosa Babel que é este longa-metragem, de um potencial imenso para todos aqueles que são fascinados por questões linguísticas. Rodrigo Santoro convence muito bem no papel de um cubano; ainda que sua prosódia não seja tão rápida ou natural, o fato de interpretar um professor universitário faz que o tom mais pausado de sua fala nos pareça bastante verossímil. Ainda mais surpreendente são os trechos - relativamente longos, se somados - em que o ator também mostra algum domínio da língua russa. Em tempos de tanto ódio a uma história que se desconhece, "O tradutor" traz uma interessante visão sobre o socialismo - de quem estava do outro lado da cortina de ferro. Ainda que obviamente haja exageros, o contraponto que o filme proporciona ...

O profeta (livro de Khalil Gibran e filme de 2014)

O modo extremamente poético do narrar em árabe pode ser mal interpretado por leitores ocidentais. É o caso de Khalil Gibran, que, vislumbrado superficialmente, pode parecer simples autoajuda - quando se trata, na verdade, de uma escrita multifacetada e carregada de significados. Minha sorte foi ter feito o caminho inverso - primeiro vi o filme, depois li o livro. A animação é tão belamente construída que nos predispõe imediatamente à imersão na obra de Gibran. Ainda que haja uma riqueza de traços e cores inegável, seu grande valor está justamente nas palavras do poeta. A história original da trama abrange um conjunto de ensinamentos de um homem prestes a partir da terra que lhe acolheu por 12 anos. Por mais que nem sempre entremos em concordância com o personagem/autor, sua filosofia de vida é ampla e abrangente. Assim, mesmo o que possa soar como um regramento ou código de conduta mostra-se aberto a possibilidades distintas de interpretação. Os ensinamentos do protagonista constit...

A ganha-pão (filme de 2017)

Produção europeia (Irlanda e Luxemburgo) e canadense sobre uma temática afegã, a obra é um conjunto cultural interessante, que mescla diversos olhares sobre uma única narrativa. Aliás, talvez a própria história central não seja marcada pela unicidade, já que resgata o método narrativo das "Mil e uma noites" e mescla diversas tramas para dar seguimento ao seu fluxo de acontecimentos. Em princípio, não se trata de uma obra para crianças, pois trabalha questões de guerra e violência. No entanto, ainda que fictícias, as personagens protagonistas da história são representações de milhões de meninos e meninas do mundo, que vivenciam diariamente situações de conflitos armados e privações diversas.  No conjunto, trata-se de um longa bem dosado, que sabe tratar temáticas complexas com delicadeza, sem cair na superficialização.

Abril e o mundo extraordinário (filme de 2015)

"Abril e o mundo extraordinário" é uma animação que revê o conceito de distopia como uma alegoria de um futuro possível - e desastroso. Ambientado no começo do século XX, o longa traz elementos do gênero distópico para reconstruir o passado, no qual a maioria dos cientistas desaparece misteriosamente e o progresso tecnológico pouco ou nada avança. Construída com o fino humor francês, uma das graças da obra são as cenas sarcásticas, assim como as imagens que mesclam traços suaves com contextos de violência. Os contrastes ajudam a enriquecer a qualidade do longa, que, apesar de tudo, conta com um enredo relativamente simples. Principalmente ao final, o excesso de cenas de ação tira a sutileza da trama. Ainda assim, com um bom traço e ambientações históricas inovadoras, é um longa que vale o tempo que lhe dedicamos.

Big Eyes (filme de 2014)

Com um mote biográfico, o filme se propõe a contar a história de Margaret Keane, uma pintora estadunidense que viveu um caso muito particular de plágio e apropriação intelectual. Enquanto ela produzia seu trabalho, seu marido era o que levava a fama, respondia a entrevistas e controlava o dinheiro resultante da venda dos seus quadros. Dirigido por Tim Burton, o que é interessante no longa é como as pinturas de Keane dialogam com o traço já clássico do cineasta. Assim, o tom meio sombrio, meio fantasioso da narrativa combinam bem com a produção de ambos os artistas - a protagonista e o diretor. Ainda que seja uma história cativante, o fato é que a trama acaba pendendo para um certo tom moralista (principalmente depois que Keane junta-se às Testemunhas de Jeová). Para fazer um filme de cunho verdadeiramente feminista, ainda há que se ir além do maniqueísmo.

O quarto de Jack (filme de 2015)

Uma história de cativeiro e liberdade - O quarto de Jack  é um filme delicado, que sabe explorar tanto a claustrofobia quanto a reintegração de uma família sequestrada à sociedade. Com um mote simples, aborda as reverberações psicológicas de um rapto, com enfoque em Jack, criança gerada pelos estupros recorrentes de sua mãe. Uma das principais temáticas do enredo são as construções sociais do menino. Criado em cativeiro, é convencido pela mãe de que o mundo se resume ao quarto do sequestro. Após a fuga, é preciso reeducar a criança não só a saber diferenciar a realidade dos mitos, como também a confiar nos adultos. O processo de inserção de Jack no mundo real é bastante doloroso, e impacta toda a família a seu redor. Negado por alguns parentes por ser filho de um criminoso, o menino é também alardeado pela imprensa como o grande salvador da mãe - no meio de avaliações diversas e extremas, ele aprende a construir sua personalidade e a se integrar a um mundo ao qual jamai...