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The Lobster (filme de 2015)

O preceito básico das distopias talvez seja o de causar um estranhamento profundo, mas sem distanciar o público totalmente da realidade criada. Com caráter com um quê de premonitório, elas apontam para sociedades possíveis - não se trata de ficção científica, mas da narrativa de mundos que espelham nossos defeitos em medidas exacerbadas. Em "The Lobster", filme de difícil classificação, o efeito de distanciamento relativo pouco se mantém. O enredo se apoia fortemente em recursos do gênero real maravilhoso, criando situações bastante complexas, por vezes esbarrando no inverossímil. Com um efeito muito grande de estranhamento, o espectador passa mais tempo tentando desvendar o rumo dos acontecimentos do que criando relações entre a sua realidade e a da obra. É um longa que entretém e convida a desvendar mistérios, mas que não cria vínculos o suficiente para ser lido como distopia.

Vênus (filme de 2006)

A maior obscenidade contemporânea não é, de modo algum, relacionada ao sexo. Pelo contrário: o que mais nos choca não é a vida em sua efervescência, mas em seu declínio. Poucos temas incomodam mais do que a velhice - ainda que seja uma maturidade plenamente vivida, como é o caso dos protagonistas deste filme.  O contraste entre um protagonista idoso e uma personagem bastante jovial é outro aspecto que corrobora o tom de estranhamento que "Vênus" causa. Ainda assim, aos poucos é possível perceber que o objetivo não é o de narrar uma nova Lolita, mas sim de opor dois polos da vida. De um lado, o ator com uma carreira consolidada, apreciador da arte e consciente do fim próximo; de outro, uma menina inconsequente, sem vínculos ou amores mais profundos pela cultura que a cerca. Tendo como fio condutor a obra "Vênus no espelho", de Velázquez, o longa trabalha com a ideia de autoconhecimento - seja das potencialidades do próprio corpo, seja da descoberta da Arte enquan...

Animais fantásticos e onde habitam (filme de 2016)

Ao contrário de outras produções para o cinema adaptadas da obra de J.K. Rowling, "Animais fantásticos" consegue a primazia de tornar a história narrada nas telas mais interessante do que o seu par literário.  Em todas as versões filmadas de Harry Potter, sempre houve uma infantilização maior do que a necessária, reduzindo o amadurecimento dos personagens a episódios superficiais, sem lidarem de fato com a dor ou com a perda (diferentemente do que ocorrem nos livros da série). Nesta obra, menor dentro do universo criado pela autora, não há problemas sérios na construção dos protagonistas; inclusive, eles parecem mais bem desenvolvidos, a fim de preencherem o enredo de um longa-metragem. Se a trama, no geral, não chega a ser surpreendente, por outro lado ela consegue garantir um bom entretenimento ao espectador. As atuações são divertidas, mesmo que ligeiramente estereotipadas, e os efeitos especiais - usados na medida certa - não ofuscam a verdadeira magia do cinema.