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Mostrando postagens com o rótulo literatura britânica

O morro dos ventos uivantes (Emily Brontë)

Conheci a obra por uma tradução de Rachel de Queiroz - achei um romancezinho interessante, mas sem entender o frisson que causava em tanta gente. Isso foi até perceber que o conservadorismo da escritora cearense se espraiou pelas charnecas inglesas. Publicado durante a era vitoriana, marcada pela austeridade moral, o grande feito do livro é sua transgressão. Uma das leituras possíveis é entender o Morro dos Ventos Uivantes como uma alegoria do inferno. Por que uma tradução se atreveria a tornar o diabo menos feio do que parece? Ao limar o grotesco da escrita original, a tradução de Rachel invalidou o projeto como um todo.  Dessa vez, lendo em inglês, tornou-se um dos meus livros preferidos. É um jogo infinito de espelhos distorcidos, com vidas que replicam as mesmas histórias ao longo de gerações. Penso agora que esses personagens com nomes e feições iguais talvez tenham sido a inspiração dos "Cem anos de solidão", que é outro de meus queridos. Bastaria diminuir alguns anos n...

A inquilina de Wildfell Hall (Anne Brontë)

Romance raiz, publicado em plena época vitoriana, o livro corresponde a muito do que se esperava do gênero na época: reviravoltas no enredo, uma história de amor no centro da narrativa, atenção aos valores religiosos e contextualização com um pano de fundo mais social. Apesar da previsibilidade, a caçula das irmãs Brontë toca em feridas que seguem abertas hoje: maridos opressores e alcoólatras, pretendentes incapazes de entender um “não”, mulheres crentes de que o relacionamento vai salvar um homem de seus hábitos nocivos. É um desfile de boys lixo, mas um ou outro personagem masculino é retratado de modo ambíguo; já no que diz respeito às personagens femininas, são santas ou bruxas. O que Anne defende no conteúdo infelizmente não reverbera na estrutura de seu livro: uma obra importante para a época, mas que ainda espelha os valores contra os quais a autora se propôs a lutar.   

Winnie-the-Pooh e The House at Pooh Corner (A. A. Milne) + filme de 1977

Eu não gostava nem um pouco do Ursinho Pooh quando pequena e vi que essa é uma impressão comum para quem assistiu aos desenhos do personagem. Mas que esse desgosto inicial não seja empecilho para a leitura: o livro é excelente, extremamente divertido. O que existe na obra original e que não conseguiu ser transposto para a tela é o tom brincalhão do narrador, a inserção de sutilezas graciosas a cada frase. O primeiro livro, especialmente, é de ler o tempo inteiro com um sorriso de canto na boca (isso quando não rindo alto). São vários os temas importantes que a obra abarca: a aquisição da linguagem, a alfabetização, os primeiros passos no mundo escolar... e tudo isso é tratado com leveza, mas de forma certeira. O segundo livro da coleção é quase tão bom quanto o primeiro. Seu maior mérito é o surgimento do personagem Tigrão, que talvez seja o mais carismático de toda a turma.  No entanto, é neste volume também que Bisonho deixa de ser um inocente azarado para se parecer demais com g...

Orgulho e preconceito (Jane Austen) + série de 1995 + filme de 2005

Faz tempo que Jane Austen estava na minha lista de autores a conhecer – mas, ao mesmo tempo, provavelmente o motivo de ter adiado tanto esse primeiro encontro seja a aura açucarada que parece acompanhar toda a sua escrita. Sem pesquisar um pouco do contexto, "Orgulho e preconceito" realmente dá a impressão de amorzinho fofo. Mas não é por ter escrito algo similar a uma coleção "Sabrina" do século XIX que a autora se fez reconhecida; há muito mais que a história de casamentos na estrutura da narrativa. Além da crítica à divisão da herança (que ficava restrita aos filhos homens de uma família), Austen mostra a mesquinhez de relações que são movidas unicamente pelo dinheiro. O pano de fundo das guerras napoleônicas, o surgimento da Revolução Industrial e uma maior maleabilidade entre as classes sociais (apenas as mais confortáveis em seu status, como novos ricos e aristocracia) também dão as caras no romance. A série de 1995: para quem gosta de uma adaptação fiel, é um...

Poetry for children (Emily Dickinson)

Com vários títulos já publicados, a coleção "Poetry for children" traz uma concepção editorial muito bem pensada: ilustrações lindas, uma seleção de ótimos autores, glossário ao pé da página para palavras desconhecidas dos pequenos e uma paráfrase acessível de cada texto ao final da publicação. Emily Dickinson trabalha vários temas que são (ou deveriam ser) essenciais à literatura infantil: natureza, descoberta do mundo, leitura, vida e morte. Confesso que achei alguns poemas bastante complexos para crianças... ainda assim, a maioria dos textos é composta de versos curtos e que encantam pelas rimas. E pela beleza da linguagem, claro.

Frankenstein (Mary Shelley)

N o prefácio à edição da Penguin, a escritora Elizabeth Kostova narra sua surpresa ao reler o clássico de Mary Shelley - afinal, sua pretensa releitura nada mais era do que o contato inicial com a obra. Clássicos incorporados à mitologia popular têm o poder de criar narrativas prévias à trama inicialmente idealizada por seus escritores. Quando falamos de obras impossíveis de catalogar no que tange às suas releituras e adaptações, as intertextualidades que as antecipam são ainda mais potentes. "Frankenstein", no entanto, é uma obra que não decepciona um leitor que tenha criado altas expectativas sobre a trama original. Pelo contrário: o livro só cresce ao descobrirmos o quanto sua narrativa foge ao senso comum em relação à criatura gerada pelo dr. Frankenstein. Além da confusão habitual que leva a nomear o suposto monstro com o mesmo sobrenome de seu criador, outra surpresa da obra é descobrir o quanto há de mais monstruoso na figura do cientista do que em sua criação. Publica...

Down and Out in Paris and London (George Orwell)

O arquétipo do artista pobre, que só atinge fama e sucesso próximo à morte (ou depois dela) é bastante recorrente, seja na vida real ou na ficção. No entanto, por mais que falemos dessa miséria, poucas vezes entramos em contato com sua dimensão concreta. Não é isso o que ocorre neste livro de Orwell – aqui, entramos em contato com o lado mais carente, imundo, renegado daqueles que transitam à margem. Em certos pontos, o relato do autor me lembrou um pouco dos livros escritos sobre os campos de concentração; a diferença maior é que nele é descrita uma catástrofe que não tem fim e nem está vinculada a um cataclismo histórico. O que é mais triste é a cotidianidade da miséria, as massas que atravessam os séculos sem nada mais que breves e ilusórios paliativos, quando muito. Algumas das cenas me remeteram à construção social de 1984: não é difícil enxergar onde a distopia se apoia na vida moderna. Mesmo que grande parte do livro tenha o tom mais confessional de um diário, certos capítulos s...

Weird Things Customers Say in Bookshops (Jen Campbell)

Neste livro, Jen Campbell reúne as bizarras experiências de diferentes livreiros com sua clientela — o que mostra que o frequentador de livrarias, muitas vezes, está longe de ser o consumidor mais bem-educado ou minimamente consciente possível. A coleção de relatos divertidíssimos me lembrou a época em que trabalhava como atendente de biblioteca (e o quanto fiquei estupefata com a má educação e má vontade de boa parte do público que a frequentava). Uma pena não ter registrado minhas desventuras de então — se não dariam um livro (como o de Jen Campbell), ao menos seriam alguns causos engraçados em terras brasileiras.

Lord of the flies (William Golding) + filme de 1963

Conheci a história clássica do livro de Golding por meio do cinema; não sabia nada sobre ela até assistir ao filme produzido em 1963. São mais de 8 anos que separam essa experiência do meu contato com o livro: agora, ainda que já soubesse o que se passaria na ilha, minha experiência de leitura só foi potencializada por já conhecer, de antemão, o quanto essa narrativa é instigante e provocadora. Alguns pontos que ficaram ressaltados durante a minha leitura/visão do filme dialogam diretamente com o contexto de 2020: como não sabemos sobreviver a uma catástrofe, o quanto acreditamos na versão da história que é mais confortável para nós e como até os bons e justos (Piggy) também são falhos, além de frágeis. Além disso, é curioso observar que Simon, julgado como louco pelas demais crianças, é o que mais se aproxima da verdade sobre a ilha. A leitura é arrasadora e sabe construir muito bem o ambiente em que as crianças interagem, dialogam e amadurecem (para o bem e para o mal). Quanto ao fil...

The Peregrine (J. A. Baker)

Na minha trajetória como leitora, consigo mapear claramente a influência de poucos livros, enquanto a maioria entremeia suas palavras à minha própria narrativa de vida de forma mais obscura, sem deixar traços evidentes que me permitam refazer esse caminho. Houve um livrinho de Tchekhov encontrado em um ferro-velho que me levou às Letras (e a cursar um ano de russo); os quadrinhos de Mafalda, que me desviaram do frio europeu para cursar o espanhol hermano; o "Cultura letrada", de Márcia Abreu, que estabeleceu um novo paradigma nas minhas conversas sobre literatura com alunos... e agora, na quarentena, houve o "The Peregrine". Ao buscar informações sobre o livro na internet, encontrei um vídeo intitulado "The book is so good that is impossible to read". A definição é certeira, ainda mais para quem dá de cara com a barreira da língua e de um vocabulário técnico-científico intransponível na tradução. Sem dúvida, é uma obra a que precisarei voltar com calma, de...

Romeo and Juliet (William Shakespeare) + filme de 1996

Durante a adolescência, o encarte da trilha sonora original de "Romeu e Julieta" ficava pendurado nas paredes do meu quarto. Ao finalmente entrar em contato com a obra que lhe deu origem - e na sua língua original -, consigo entender mais claramente o impacto que a peça teve na minha formação como leitora. Por mais que haja traduções disponíveis da obra (e por mais que o meu inglês capenga tenha de recorrer a elas), a experiência de ler Shakespeare no original foi muito reveladora. As sutilezas de linguagem que tornaram o dramaturgo tão reconhecido ainda são muito potentes, mesmo registradas em uma linguagem que hoje nos é arcaica. Ao assistir ao filme, pude confirmar o que havia me encantando no fim dos anos 1990: muito mais do que a atualidade do filme de Baz Luhrman, o que me marcou profundamente foi a sonoridade dos versos e o contraste entre o discurso e o contexto. Assim, mesmo antes de o saber, Shakespeare me capturou por sua poesia.

Frankenstein (Mary Shelley)

No prefácio à edição da Penguin, a escritora Elizabeth Kostova narra sua surpresa ao reler o clássico de Mary Shelley - afinal, sua pretensa releitura nada mais era do que o contato inicial com a obra. Clássicos incorporados à mitologia popular têm o poder de criar narrativas prévias à trama inicialmente idealizada por seus escritores. Quando falamos de obras impossíveis de catalogar no que tange às suas releituras e adaptações, as intertextualidades que as antecipam são ainda mais potentes. "Frankenstein", no entanto, é uma obra que não decepciona um leitor que tenha criado altas expectativas sobre a trama original. Pelo contrário: o livro só cresce ao descobrirmos o quanto sua narrativa foge ao senso comum em relação à criatura gerada pelo dr. Frankenstein. Além da confusão habitual que leva a nomear o suposto monstro com o mesmo sobrenome de seu criador, outra surpresa da obra é descobrir o quanto há de mais monstruoso na figura do cientista do que em sua criação. ...

Jude, o obscuro (Thomas Hardy)

Folhetim do século XIX, "Jude, o obscuro" coleciona qualidades e defeitos típicos do modo de publicação. Sua premissa básica é instigante e dialoga, surpreendentemente, com o leitor brasileiro do século XXI - assim como Jude, o protagonista, que passa a vida sonhando com uma universidade à qual não terá acesso, nós também assistimos desolados ao fim das bolsas de pesquisa e incentivos ao estudo no Brasil. Outra qualidade notável do romance é a sua galeria de personagens complexos e a criação de um panorama bastante abrangente do contexto em que a narrativa se passa. Romance de fôlego (com cerca de 500 páginas), tem a preocupação de situar o leitor na história ao invés de propor lacunas às quais ele teria de resolver. Apesar dos elementos que sustentam a obra, ela não consegue se afastar do efeito rocambolesco da trama. Com muitas reviravoltas e um tanto de melodrama, o livro acaba correspondendo a alguns estereótipos da literatura de folhetim do XIX. Ainda que o início in...

O sentido de um fim (Julian Barnes)

Se já é premissa validada a de que sempre devemos desconfiar de um narrador em primeira pessoa, ainda assim está longe de esgotar-se a nascente de possibilidades que esse recurso narrativo oferece. Em um livrinho curto e poderoso, o inglês Julian Barnes consegue, mais uma vez, pôr em xeque a autenticidade de um discurso (e, nos tempos em que vivemos, saber negar uma fonte com argumentos bem construídos é uma habilidade a ser urgentemente aprimorada). Um dos truques utilizados pelo narrador em sua versão dos fatos é o de apontar suas próprias falhas - assim, o leitor sabe desde o princípio que não está diante de uma figura confiável. Dessa forma, estabelecido o pacto inicial de não confiabilidade, nos deixamos levar pela narrativa do ponto de vista que nos é oferecido - afinal, nosso impulso natural é preencher as lacunas da história, sem pensar que elas podem ter sido deixadas assim de forma proposital. Após finalizar a leitura, acreditei ter entendido alguns dos mistérios do roman...

A menina do capuz vermelho e outras histórias de dar medo (Angela Carter)

Angela Carter foi uma questionadora escritora britânica,  que soube escrever desde versões empoderadoras dos contos de fada (que irritaram aos conservadores) até uma releitura feminista de Marquês de Sade (que irritou aos progressistas).  Como pesquisadora, Carter também foi polêmica, como o prova a reunião de contos da tradição oral em "A menina do capuz vermelho e outras histórias de dar medo". Desde inuítes até relatos da tradição afro-americana moderna, as narrativas coletadas pela britânica têm o comum o estranhamento, o choque e um universo trágico muito diferente do imaginado pela Disney. Ainda que sejam poucos, os contos do livro são o suficiente para mexer com o leitor. Mais chocantes do que as coletâneas originais de Perrault e dos Irmãos Grimm, essas narrativas contam com elementos inesperados no gênero, como piadas sujas e humor sarcástico, provando que os contos de fada são muito mais sombrios do que aparentam.

A câmara sangrente (Angela Carter)

O fato de ser um dos livros mais mal avaliados do clube da Tag Curadoria me fez iniciar a leitura de Angela Carter com receio. No entanto, se houvesse confiado mais em quem indicou a obra (a incrível Marina Colasanti), saberia desde o início ter em mãos algo maravilhoso - ainda que tão polêmico. Carter faz, em 1979, o que se tornou chavão na nossa cultura atual: o reconto de histórias de encantamento. Para quem não admite releituras de clássicos, é natural que o livro cause choque - ainda que, convenhamos, as histórias originais sejam tão ou mais violentas que as fabulações propostas em "A câmara sangrenta". No conjunto de contos, preferi os mais extensos. Quanto mais sucinta, mais alegórica é a escrita da autora, o que dificulta a compreensão ou o mero envolvimento com as narrativas. Além de instituir diferentes pontos de vista, narradores e brincar com diferentes estilos, Carter faz a questão de instituir personagens femininas fortes, que não se submetem a padrões impos...

Retorno a Brideshead (Evelyn Waugh)

Somos muito dos livros que lemos - o que torna cada experiência no mundo da leitura única, pois é construtora de uma identidade singular. Curador da TAG do mês de janeiro, Luis Fernando Verissimo foi uma criança alfabetizada em inglês, o que o tornou bastante familiarizado com o idioma e toda a sua cultura. Ao escolher o livro do mês, o autor apostou em uma obra que pouco cativa quem não tem a mesma familiaridade com as referências culturais da língua inglesa. "Retorno a Brideshead" tem elementos que o aproximam de séries como "Downton Abbey" e "The Crown", mas não consegue tantos fãs brasileiros quanto essas produções televisivas. São muitas as referências específicas da cultura britânica - mesmo com o apoio de várias notas de rodapé, é difícil identificar-se com a narrativa. O ponto de maior interesse na trama talvez seja o fato de retratar, de forma implícita, um relacionamento homossexual e, de forma explícita, o panorama da sociedade inglesa de al...

Vidas muito boas (J. K. Rowling)

Bons discursos de formatura têm sido lançados nos últimos tempos - ainda que este seja um gênero no qual seja tão difícil escapar dos clichês, dos conselhos e do toque de autoajuda. A solução da autora de Harry Potter para tecer um discurso inovador e emocionante foi relacioná-lo com sua própria vida (afinal, foi por causa de seus feitos que recebeu o convite para ser a oradora das turmas de Harvard). Com um casamento fracassado e vivendo de bolsas governamentais, J. K. fracassou muito antes de alcançar o sucesso - e é relembrando a importância de suas desventuras que encontra uma importante lição para repassar. Retomar as agruras da vida não faz desse discurso algo meloso ou falsamente otimista. Pelo contrário: trata-se de um texto simples, coeso, elegante. E que, ainda que não se reduza a isso, não deixa de oferecer bons conselhos.

Harry Potter and the Cursed Child (J.K. Rowling, John Tiffany & Jack Thorne)

Roteirizado como uma peça de teatro, o oitavo Harry Potter talvez seja mais uma história sobre o mundo mágico criado por J.K. Rowling do que sobre o seu protagonista. Ainda que quase todos os personagens mais marcantes da saga apareçam, de uma forma ou outra, a verdade é que este enredo se passa em um outro momento, com diferentes expectativas e desafios. O fato de ter sido dramatizado talvez ajude na linearidade do roteiro - afinal, o teatro não permite descrições muito detalhadas, explicações profundas, uma análise da motivação de cada personagem. Por ser tudo muito dinâmico, o leitor é comprado pelo enredo, mesmo que nem sempre ele seja assim tão verossímil. Há falhas na lógica da história, no comportamento de personagens (principalmente naqueles que já eram nossos velhos conhecidos), no encaminhamento da trama. No entanto, a linguagem deliciosa e o reencontro com a saga, quase vinte anos depois, tornam esses defeitos facilmente releváveis. Qualquer tentativa a mais será muit...

Contraponto (Aldous Huxley)

O fato de ser o livro que inspirou Erico Verissimo a escrever o delicioso "Caminhos Cruzados" foi o que me levou a esta leitura. Mais conhecido pela distopia de "Admirável mundo novo" e por seu relato de uso da droga mescalina, Huxley, para mim, tinha aquela aura de autor descolado, questionador, irreverente e com uma linguagem tão clara e acessível quanto a do Verissimo-pai. No entanto, essas impressões seguiram pouco além das primeiras páginas de imersão na obra. A quantidade de personagens é enorme, o que torna difícil para o leitor não só o acompanhamento do enredo, mas também os vínculos com essas figuras. É penoso sentir empatia - e não só em função da  troca constante de cenários e atores na trama, mas também pelo fato de o livro, como um todo, ser o retrato de uma sociedade burguesa bastante elitista, quando não fútil e descartável. Se a composição da trama já não é simples, esse efeito se intensifica com uma linguagem potente, mas por vezes mais fil...