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Mostrando postagens com o rótulo Filme argentino

Um conto chinês (filme de 2011)

A situação absurda nos faz esquecer do aviso ao início: "baseado em fatos reais". Existe lógica para a vida? Para o protagonista desta trama, interpretado pelo sempre maravilhoso Ricardo Darín, não. Ainda que esse personagem se esmere em cumprir pontualmente a sua rotina, sua crença é de que a vida é um turbilhão sem sentido, som e fúria significando nada... Do encontro do chinês atingido pela vaca voadora com o argentino pontual e quase-niilista resulta uma amizade surpreendente e bastante divertida. Não se assustem com a falta de legendas para os diálogos em mandarim: o objetivo do filme é justamente focar o lado incompreensível das relações humanas.   Humor fino, discussão das relações humanas, alfinetadas em preconceitos, atuações maravilhosas e uma vaca muito carismática. Um filme diferentemente bom.

O limite infinito (filme de 2020)

Como quase todo filme de superação, parte da ideia de que "se ele pode, você também pode". Apesar da problemática em comparar situações diferentes de vida (principalmente por ignorar o confortável poder aquisitivo de seu protagonista), não deixa de ser por isso que assistimos a obras assim: para dar uma boa chacoalhada nas certezas de nossas impossibilidades. A história do paratleta traz questionamentos incômodos sobre deficiência, que vão desde a noção de coitadinho até como a ajuda constante também pode ser um problema. Outro ponto que surpreende é ver como, mesmo com o melhor dos treinamentos, por vezes o corpo não aguenta... força de vontade não é só uma questão mental, no fim das contas. 

Fuga (filme de 2006)

Gostei de tantas coisas neste filme: idas e vindas no tempo, fluxo narrativo esquisito (mas não hermético), fotografia quase surrealista, frases certeiras em diálogos, um enredo todo muito bem amarrado (ainda que nem tudo se explique). Por meio da história de uma sinfonia, vários temas relacionados à arte vêm à tona: autoria e plágio, inspiração e prática, pesquisa e apropriação, a violência intrínseca ao trabalho do artista. Além disso, a opressão e a barbárie manicomial também são pautas importantes aqui. Algumas cenas me lembraram um pouco da ideia de "O cisne negro", já que também há um clima soturno e uma espécie de maldição ligada à apresentação da sinfonia. É a arte como perdição e como única fuga possível.

Eva no duerme (filme de 2015)

A história do corpo embalsamado de Evita é impressionante: como Branca de Neve, a proposta é que a populista argentina ficasse exposta em um mausoléu, que nunca chegou a ser construído (em função da ditadura militar). Quando os milicos assumiram o poder, seu corpo foi vigiado por um coronel e, depois, por um general — inclusive com a acusação de que teria sido violada por um deles. Evita morta vai para o Vaticano; é exigida como troca em um um sequestro; é desenterrada e vista como um milagre pelos coveiros abismados; é enfeite na casa de Perón; é boneca nas mãos de Isabela Perón, que faz compras de roupas e renova seu figurino; é assombração, impedindo o general que a tinha anteriormente sob guarda de ocupar a mesma residência que ela; e, por fim, é enterrada no cemitério La Recoleta. Uma narrativa tão potente tinha de tudo para render um filme bom — mas não é necessariamente o caso. Há uma tentativa forçada de incluir o astro Gael García Bernal em um papel bastante inverossímil, só p...

A odisseia dos tontos (filme de 2019)

É uma pena que "A odisseia dos tontos" não tenha causado a mesma repercussão por aqui que "Relatos selvagens"; ainda que se tratem de filmes bastante diferentes, vi na obra de 2019 uma intertextualidade implícita com a história protagonizada por Ricardo Darín no longa de 2014. Outro fato curioso é o quanto este filme repercute temas que também eclodiram no brasileiro "Bacurau". Mesmo que a pegada argentina seja muito mais humorística e menos alegórica que nossa produção nacional, o mote de ambas as obras é basicamente o mesmo: uma pequena comunidade, no interior do país, que decide levantar-se contra aqueles que lhes prejudicaram. A justiça feita pelas próprias mãos - e contra o sistema - é o que move os personagens em ambas produções. Ainda que seja um filme bastante masculino, acho interessante os lugares ocupados pelas mulheres nesta obra - a empresária de sucesso na cidade, a mulher que sabe desde o princípio que um plano está sendo articulado, a m...

El cuento de las comadrejas (filme de 2019)

Com um humor tipicamente argentino, "El cuento de las comadrejas" traz algumas das melhores características do cinema portenho às telas: o tom sarcástico, as atuações incisivas, o real maravilhoso que nos soa tão verossímil em terras latino-americanas. Um dos recursos utilizados para gerar o riso é parodiar outros gêneros do drama; assim, temos desde o tom melodramático das novelas mexicanas até o clima noïr de suspense e mistério. Tudo combinado, cria-se uma grande salada cinematográfica - à qual, ainda assim, não falta um bom tempero argentino. Talvez um pouco mais longo do que a história que tem a contar, mesmo assim a obra não chega a ser cansativa. É uma opção justa de entretenimento, sem grandes pretensões - mas com bons resultados.

Mi obra maestra (filme de 2018)

Uma das melhores características do cinema argentino é, de fato, um traço marcadamente cultural: o humor ácido e incisivo. Por mais que nenhum estereótipo dê conta da singularidade humana, o fato é que reconhecemos muitos de nossos hermanos portenhos por uma refinada ironia. "Mi obra maestra" direciona esse olhar mordaz sobre o mercado contemporâneo da arte. Sem ser desoladamente crítico (como o longa sueco "The Square"), o filme aposta mais em uma visão sutilmente desconstrutora. Ainda que não abra mão de valores como a importância da amizade, a obra consegue um bom equilíbrio entre a narração delicada de uma vida e a ironia sobre o comércio de museus e galerias. Com atuações envolventes, cenas permeadas de bom humor e um final surpreendente, o filme vai além de um entretenimento justo. Mesmo que não aprofunde as reflexões sobre arte, consegue instigar o espectador com boas provocações.

El amor menos pensado (filme de 2018)

Um dos meus atores preferidos, Ricardo Darín geralmente retribui à minha certeza de que qualquer filme em que conste o seu nome será minimamente envolvente. É a sensação que vi comprovada mais uma vez ao assistir a "El amor menos pensado" - ainda que o gênero mais romântico esteja longe das minhas preferências. Antes da exibição, assisti a dois trailers ( "Gloria Bell" e "Happy Hour")  que me revelaram muito do filão no qual a obra se encaixa: as histórias de amor para uma faixa de adultos pós-quarenta. No caso deste filme em específico, pós-cinquenta. A história narrada trata do questionamento da felicidade de um casal de família-margarina: com filho intercambista, apartamento de luxo no coração de Buenos Aires, vivendo uma rotina de discussões culturais, viagens, parceria. O rompimento de um casal que tanto corresponde aos padrões de companheirismo lança uma potente dúvida ao espectador. Em paralelo, histórias de traição, viuvez, desencantamento co...

Happy Hour: verdades e consequências (filme de 2017)

Típico filme que vale mais pelo trailer do que pela execução - Happy Hour é uma obra que consegue conquistar, à primeira vista, mas que se perde totalmente no meio do caminho. Ou até antes. Com um elenco entre argentino e brasileiro, com a língua oscilando do espanhol para o português, é uma produção bastante dividida. A parte em que domina o narrador argentino - por mais crápula que seja - ainda consegue envolver minimamente o espectador. Já nos trechos interpretados pelos atores conterrâneos, domina um clima de novelão da Globo (e muito do malfeito). O final do enredo, que tenta surpreender, mostra as falhas de uma narrativa confusa e cheia de buracos. Não dá para entender qual é a proposta, gênero ou lição que o filme pretende passar. Em suma, dispensável.

Uma noite de 12 anos (filme de 2018)

Assim como seus demais hermanos latinos, o Uruguai passou por uma longa e violenta ditadura. E, tal como sempre existiu e sempre existirá, houve resistência aos desmandos de um governo despótico e absolutamente controlado por interesses de outras nações. Seu principal núcleo de combate foi o movimento guerrilheiro Tupamaros, que operou por meio de assaltos a bancos (com distribuição de renda à população carente), sequestros de poderosos e inevitáveis assassinatos no confronto com as forças de repressão. José Mujica, Mauricio Rosencof e Eleuterio Fernández Huidobro foram militantes do movimento, famosos pelo poder de liderança e persuasão. Para além da prisão e da tortura, foram confinados em solitárias por um período que gira em cerca de 12 anos. Além da solidão extrema, eram proibidos de circular em um espaço maior que um 2 x 3 metros, de falar sozinhos, de se exercitarem, de verem o sol. São 3 homens que passaram mais de uma década na mais profunda noite - o que é retratado com bri...

Como funcionam quase todas as coisas (filme de 2015)

Na literatura, Anton Tchekhov foi um dos mais icônicos autores de enredos em que nada acontece. Ao contrário dos contos estruturados em início, clímax e desfecho, o escritor russo aposta na quebra de ritmo em grande parte de suas narrativas. Assim, o que fica em evidência não é o acontecimento, mas a vida em si. "Como funcionam quase todas as coisas", como um típico road movie, usa o pretexto da estrada para traçar reflexões sobre o ser e estar no mundo. Celina, a protagonista, é uma vendedora itinerante de enciclopédias, sem raízes em um lugar definido - assim como também é desprovida de laços interpessoais. A estrutura da obra, que usa o recurso das entradas de verbetes para construir o enredo, é bastante interessante. Ainda que seja um filme com poucos acontecimentos, seu caráter um tanto fragmentário ajuda a tornar a narrativa menos cansativa para o espectador. É uma obra que exige atenção e paciência - como qualquer boa estrada.

A cordilheira (filme de 2017)

No panorama político conturbado da atual América Latina, "A Cordilheira" é um filme que não pode ser analisado de maneira neutra. Ainda que não haja apologias e as alegorias sejam, em certa medida, sutis, é fato que esta é uma tentativa de retrato dos intrincados rumos dos governos de hoje. Ricardo Darín, no papel de presidente da Argentina, interpreta um personagem bastante ambíguo. As intenções nunca são claras para o espectador, que busca nas minúcias os significados não revelados. Talvez uma alegoria de Macri, o político antipopulista e elegantemente cruel é um enigma para quem vê a obra. Outro aspecto instigante no enredo é o presidente brasileiro, bastante estereotipado na figura de um coronel dotado de um discurso passional. Mais para um Getúlio Vargas do que um Lula, o personagem é um retrato curioso de como os hermanos nos veem (e, claro, não é um olhar muito gentil). Filme escuso, escorregadio, pouco explícito em suas intenções - ou seja, tal como a política d...

O cidadão ilustre (filme de 2016)

Esta é uma história de muitos enredos, subtramas, metáforas e reflexões - e, não por acaso, o seu tema principal é uma discussão sobre o fazer literário e o ser escritor na contemporaneidade.  Um escritor argentino, radicado há 40 anos na Europa e vencedor do Nobel, recebe um convite para regressar a sua cidade natal para participar de conferências sobre literatura. Inicialmente relutante, acaba aceitando a proposta - que, muito mais que um breve passeio, se revela um retorno às verdadeiras origens do ser. Uma vez em seu solo, novamente territorializado, o protagonista já não consegue manter o ar frio e distanciado de sua persona  europeia; o pampa argentino exige dele a aceitação divertida do kitsch , a afetividade exacerbada, o erotismo confidente, o enfrentamento de velhos traumas. É uma bonita metáfora dos nossos reencontros ao longo da vida - com o outro e com o nosso eu. Ainda que a Argentina seja retratada como esse lugar de afeto-desafeto, em que alegria e pesar ...

Humano (filme de 2013)

A ideia da vida como viagem é um tópos de inúmeras culturas e épocas. E, se estamos no mundo a passeio, nada melhor que uma longa caminhada para repensar os motivos da existência, na busca de respostas - ou, ao menos, de boas indagações. "Humano" retrata uma trilha nos Andes de um jovem argentino ao lado de um sábio da cultura indígena Saqra. O filme é uma tentativa de mostrar as 200 perguntas feitas pelo diretor/protagonista do longa ao seu guru espiritual. Ainda que seja, em princípio, um walk movie , as paisagens na tela não são o ponto principal de encanto (apesar de serem cenários lindos, os recursos técnicos para mostrar os diferentes lugares são insuficientes). O grande destaque são os diálogos entre esses dois humanos, que guiam toda a linha da história em busca de revelações e descobertas.  Trata-se de um filme filosófico, intimista e extremamente rico ao nos colocar em contato com a cultura ancestral dos indígenas. É uma excelente introdução ao misticismo/sabe...

Neruda (filme de 2016)

Raramente um filme que começa mal - no que concerne ao enredo, atuações, trilha sonora, fotografia - consegue se reinventar antes do final, ao menos segundo minhas percepções enquanto espectadora. O inverso, infelizmente, é bem mais comum: tramas ótimas que descambam em um desenlace mirrado, sem satisfazer a nenhuma expectativa possível. Talvez Neruda parta do princípio errado, o que dificulta o envolvimento com a história; segundo o diretor, trata-se de uma fantasia em torno a fatos não explicados da vida do poeta. Para mim, que não havia lido nada sobre o longa-metragem (mas que conhecia a autobiografia do escritor chileno), desde o início a trama me pareceu exagerada e inverossímil. Tive de interromper a exibição ao meio para pesquisar pela internet entrevistas com o diretor que justificassem a escolha do enredo do filme - só assim me dispus a vê-lo até o fim. Surpreendentemente, a caçada do poeta chileno por um agente policial/detetivesco começa a fazer sentido quase no fi...

Truman (filme de 2015)

Talvez este seja um dos meus filmes preferidos com o Ricardo Darín - o que é difícil de avaliar, tendo em vista um ator com carreira tão múltipla e papéis muito diversos entre si. No entanto, o tempo (que figura, de certa forma, como também personagem do enredo) agrega tal delicadeza e profundidade à interpretação que o resultado é primoroso. Esta é a história de um ator de teatro com câncer terminal, que decide interromper o tratamento ineficaz para viver com alguma qualidade seus últimos dias de vida. O grande dilema do protagonista - e que nomeia a obra - é com quem deixar seu cachorro Truman. Com um plot que gera tanta identificação (aos amantes da vida, dos cachorros e de Darín), o difícil seria a produção não dar certo. Algumas produções argentinas tendem a abusar de seu renomado astro, criando cenas em que Darín tem, com seu silêncio carregado de significados, de preencher todo o take. Não é o caso aqui - ainda que seja o protagonista, as interpretações são dosadas, cri...

El aura (filme de 2005)

Do mesmo diretor de "Nove rainhas" e ainda estrelando Darín, este filme de Bielinsky tem uma aura bastante diferente de seu trabalho anterior. O humor, elemento tão importante na comédia policial que foi sua obra de estreia, é ausente aqui. "El aura" traz para o espectador mais elementos de escuridão, trevas do que a ideia de um amanhecer ou alguma luz no fim do túnel. O protagonista é um taxidermista sem nome, epiléptico, cujas ações são sempre intrigantes para o espectador. Uma de suas primeiras frases, logo ao início da obra, é "Você não me conhece".  Ainda que, naquele contexto, ele estivesse conversando com um companheiro de viagem, a citação parece ser uma indireta cheia de significados para os que assistem à película. Pouca empatia é desenvolvida pelos personagens ao longo do filme, e este talvez seja o seu ponto fraco. O carisma de Darín, mesmo em um protagonista do qual tão pouco entendemos, ajuda a suavizar esta lacuna. Ainda que não haj...

O mesmo amor, a mesma chuva (Filme de 1999)

Com Ricardo Darín no papel de um escritor frustrado, o filme desdobra momentos políticos importantes na história da Argentina, como a ditadura, a guerra das Malvinas e o momento de retomada da democracia.  Conforme atravessam os períodos históricos, os personagens vão revelando as intenções verdadeiras por trás de seus atos, transformando-se de acordo com as levas políticas. O ponto forte da obra é revelar a fragilidade da ética dos personagens. A história de amor que serve de pano de fundo às transformações políticas é muito fraca, e parece não conectar-se bem ao restante da história. É um filme para conhecer um pouco mais da história da Argentina e da filmografia de Ricardo Darín.

Relatos selvagens (filme de 2014)

"Relatos Selvagens. A tragicomicidade do cotidiano. “Que el mundo fue y será una porqueria ya lo sé… En el quinientos seis y en el dos mil también… Que siempre hay habido chorros, maquiávelos y estafáos, contentos y amargaos, valores y dublé… “ (Cambalache – Enrique Santos Discépolo) Dirigido por Damián Szifron e produzido por ninguém menos do que os irmãos Pedro e Agustín Almodóvar, Relatos Selvagens inova no formato e na abordagem e, mais uma vez, valida a qualidade e versatilidade do cinema argentino. A partir das pequenas grandes selvagerias já incorporadas ao nosso cotidiano – raiva, frustração, violência, corrupção, abuso de poder, traição, vingança, impotência, etc – Szifron tece uma antologia coesa, uniforme e de regularidade surpreendente! São seis histórias independentes e que, em nenhum ponto, nem por mais leve sugestão, se cruzam ou dialogam entre si. Em comum? Aquele momento em que a corda, de tão esticada, arrebenta. Relatos de fúrias. Reações de revolta, vin...

Sétimo (filme de 2014)

Tenho a percepção de que todos os filmes que estrelam Ricardo Darín são muito bons - ou, pelo menos, bons o suficiente. Este longa de suspense com o multifacetado ator argentino no papel principal entra na segunda categoria - é interessante, mas não chega a ser nenhuma obra de arte indispensável. No entanto, o que garante coesão e solidez a uma trama não tão bem desenvolvida é, sem dúvida, a interpretação de Darín. Todo o enredo gira em torno do suspense do sequestro dos filhos de um advogado. Por estar envolvido em questões políticas e ter vários desafetos também na vida pessoal, é difícil descobrir quem foi o responsável pelo sumiço das crianças. A tensão se mantém até o final, que, como em todo bom filme de suspense, é surpreendente. Creio que os maiores defeitos da obra são a fotografia, que não acompanha o ritmo da narrativa, e a trilha sonora de novela mexicana. O excesso de melodramaticidade não combina com a boa história que tentou ser contada.