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Mostrando postagens com o rótulo Quadrinhos brasileiros

Angola Janga (Marcelo D'Salete)

Rico documento sobre a história do Quilombo dos Palmares, o quadrinho justifica suas escolhas narrativas com base em documentos e fatos.  É uma versão bastante diferente da que conhecemos da época escolar. Alguns elementos romanceados suprem lacunas, para que os discursos sobre a resistência não venham apenas da fonte oficial - padres, governantes, bandeirantes. Apesar da relevância de uma obra desse calibre em nosso meio editorial, confesso que esperava um pouco mais. O traço e os diálogos nem sempre são bem acabados, tornando a leitura menos impactante do que deveria ser.

Além (Max Andrade)

Por tentar manter o registro elevado nas falas dos personagens etéreos (anjos, santos e demais divindades), é frequente o uso do "tu" como pronome nesta obra – e meu olho de revisora não conseguiu ignorar que a conjugação no imperativo estava quase toda errada.  Apesar do ranço ao passar as primeiras páginas incomodada com muitos erros, a história me ganhou ao final. Mesmo que se refira a um dado biográfico do autor, falar da morte de uma criança negra no Brasil envolve sempre um contexto social e político vasto, que nos define enquanto sociedade desigual.

Arraso (Cora Ottoni)

Denise me interessa como personagem por trazer um ar irreverente às histórias da Turma da Mônica. Na versão da Graphic MSP, contudo, há mais uma tentativa de lição de moral do que um aproveitamento do tom espevitado da personagem.

Triste fim de Policarpo Quaresma (Edgar Vasques e Flávio Braga)

A versão em quadrinhos de Triste fim consegue não só fazer um belo recorte das cenas mais significativas da história, como acrescenta falas e observações oportunas em pontos-chave da trama.  Mesmo curtinha, a adaptação trabalha lindamente com a limitação de espaço para recriar a narrativa de Lima – ao contrário de muitas versões de romances em quadrinhos, que tentam socar muito conteúdo em pouquíssimo espaço.

Frankenstein (Taisa Borges)

A adaptação brasileira para os quadrinhos do clássico Frankenstein estampa na capa uma figura cubista, com traços desiguais. E esse é realmente a grande sacada da artista Taisa Borges na elaboração da obra: assim como o monstro que é feito de partes diversas do corpo humano, o quadrinho tem um estilo diferente a cada virada de página. Se começamos com uma capa cubista, no miolo identificamos figuras que relembram Mondriani, o gótico, a arte naïf . Há uma oscilação ampla entre os estilos, mas sem perder o fio condutor da narrativa. 

Shamisen (Guilherme Petreca e Tiago Minamisawa)

A aura mística de fama que ronda os magakas japoneses inspira jovens artistas brasileiros há um bom tempo. No entanto, a publicação de mangás está restrita, basicamente, a lançamentos de autores independentes que logo descobrem não haver terreno fértil para esse tipo de arte por aqui.  Nesse contexto, Shamisen  é uma obra que rompe muitos padrões e estereótipos ligados ao gênero. Trata-se de uma produção nacional, ainda que navegue pela cultura japonesa e tenha uma ampla assessoria para entender e repassar aspectos da arte milenar do instrumento que lhe dá título. Há um quê de tropicália que invade as páginas do quadrinho, marcando-o como território brasileiro. Contudo, passa longe da descaracterização da arte que retrata: é apenas um modo de rever a tradição sob uma ótica que ultrapassa fronteiras, em um movimento antropofágico.  

Armandinho 10 (Alexandre Beck)

O décimo volume de Armandinho não foge de pautas políticas — o que é ótimo. Ainda assim, algumas tirinhas parecem pecar por um tom quase didático, deixando a sagacidade que tanto marca o personagem de lado. Gosto mais do Armandinho afiado, que sabe que o leitor entende suas piadas e não perde tempo com explicações.

Jeremias: Alma (Rafael Calça e Jefferson Costa)

Alma  é uma continuação muito bem arquitetada de Pele , o título anterior de Rafael Calça e Jefferson Costa para o selo Graphic MSP. Minha impressão é ter gostado ainda mais deste segundo volume, mas é muito difícil falar em qualquer superação da dupla. O que existe, de fato, é uma complementação temática: o que não foi abordado antes o é agora. E nenhuma das pautas de ambos os volumes é menos importante que as de outro. Talvez o que tenha me encantado particularmente em Alma  é o trabalho gráfico. Há uma sequência de páginas dedicada à contação de histórias de uma griô que são de tirar o fôlego. O fato de dialogar com a cultura indígena também é outro ponto de destaque. Quadrinho maravilhoso, é uma excelente opção de paradidático... mas, mesmo fora do âmbito escolar, é uma leitura que só trará ensinamentos profundos.

Lar (Paulo Crumbin e Cristina Eiko)

Na graphic novel anterior ("Vida"), os artistas escolhidos já tinham demonstrado o domínio do traço e da arte de contar uma boa história. Claro que ter personagens tão interessantes quanto a Turma do Penadinho facilita o interesse na trama — ainda assim, não é motivo para Crumbin e Eiko não aprofundarem o contexto. Um dos pontos interessantes de "Lar" é justamente o trabalho com a condição de quem sobrevive dia a dia na metrópole. Ao mostrar a vida de ocupantes de um prédio desocupado, a HQ dá pinceladas na temática social (e mostra quanto uma vida precarizada é vizinha da Dona Morte).

Sob o solo (Bianca Pinheiro e Greg Stella)

Um dos aspectos cruciais da novela gráfica, como o próprio nome indica, é o traço do ilustrador. A narrativa se desenvolve em dois eixos simultâneos (visual e verbal), que devem se unir para contar uma história. Assim, é comum que em HQs não tão bem planejadas um aspecto se sobreponha ao outro ou que ambos não conversem muito entre si. "Sob o solo" pode dar a impressão inicial de uma obra em que o verbal seja mais importante do que o traço – afinal, quase todos os quadros das cenas consistem em alguns bonequinhos-palitos dialogando. No entanto, é com muito trabalho que os autores chegaram à simplicidade proposta nas páginas. Tal como muito fica oculto no desenho de um boneco-palito (os traços simples não dão conta das características e complexidades da personalidade retratada), também nas falas entrecortadas dos personagens muito não se diz. É nas entrelinhas da ilustração e das poucas falas que vamos construindo as possibilidades de interpretação dessa história, que são múlt...

Roseira medalha engenho (Jefferson Costa)

Ambientado no Brasil profundo, "Roseira medalha engenho" é uma obra que vai além de resgatar a genealogia do próprio autor. Nela, são desenvolvidas histórias simples, mas que estão inscritas em um panorama de transformações sociais ressignificadoras - como o advento da industrialização no campo, a favelização das cidades, o êxodo rural. Ao chegar ao final, vemos o quanto a narrativa está bem amarrada - com cenas que se interconectam e um desfecho com cara de obra cinematográfica. Entretanto, tive dificuldade de acompanhar a narrativa por não ter gostado do traço. Durante boa parte da história, não havia percebido quem eram os protagonistas (já que a cada cena são desenhados de forma bastante diferente). Ainda assim, vale a leitura.

Tina - Respeito (Fefê Torquato)

Assim como o personagem Jeremias assume um discurso contestatário na excelente graphic novel "Pele", Tina ressurge em uma trama cheia de questionamentos neste novo volume do selo MSP.  A sensibilidade da aquarela usada pela artista Fefê Torquato contrasta com a força da personagem, que se recusa a permanecer passiva em uma situação de assédio sexual. Ainda que a obra dialogue muito com o movimento Me Too, é suficientemente criativa para ser mais do que um pastiche da realidade. Além disso, a forte personalidade de Tina é o fio condutor da narrativa; assim, não se trata de uma obra com personagens criados apenas para justificar a pauta polêmica. Com diálogos potentes e um aproveitamento inusitado dos espaços da página, a autora consegue criar um gibi bastante surpreendente. Uma das melhores surpresas das Graphic MSP.

Tesouros (Bianca Pinheiro) - Graphic MSP

A segunda publicação de Bianca Pinheiro no selo Graphic MSP pode ser lida de forma isolada, ainda que faça referências à obra "Força", lançada anteriormente. A narrativa é bem amarrada e conta, mais uma vez, com o traço delicado da artista. Ainda que tenha gostado da experiência de leitura, achei o tom da obra muito próximo ao das histórias do gibi. Talvez tenha faltado um pouco de profundidade na abordagem dos temas, uma vez que a graphic novel  pressuporia um público mais adulto. Entretanto, ainda com a ressalva, vale o entretenimento que proporciona.

Recuperação (Gustavo Borges)

Mais um volume da Graphic MSP, "Recuperação" estrela o personagem Cebolinha, dessa vez lidando com a falibilidade de seus planos na vida real.  O volume tem como ponto alto trazer para a discussão a temática do trabalho, mostrando o seu Cebola desempregado (e deprimido) e a dona Cebola na posição de provedora do lar.  Ainda que não tenha gostado tanto do traço do artista, o roteiro é construído com sensibilidade o suficiente para valer a leitura.

Horácio: mãe (Fabio Coala)

Mais uma edição da Graphic MSP, desta vez com uma história curiosa de bastidor: a princípio, Mauricio de Sousa não queria nenhuma releitura do dinossaurinho Horácio, que é seu personagem preferido (além de alter ego). Com jeitinho e nome de bichinho fofo, o desenhista Fabio Coala conseguiu convencê-lo a mudar de ideia... e o resultado é bastante bonito! A história segue o padrão dos roteiros do gibi, com pitadas de filosofia e reflexão. Ainda que não se trate de um pensamento revolucionário, não deixa de ser uma provocação interessante em relação ao modo como levamos a vida. O apêndice da obra traz desenhos de Fabio para anunciar sua imersão no universo dos dinossauros - são um brinde ótimo para o leitor.

Já era (Felipe Parucci)

Entre o verossímil cotidiano e o megalomaníaco interespacial, esta é uma narrativa em quadrinhos com um ritmo acelerado de eventos e reflexões. Grande crítica à vida moderna, cria imediata empatia com o leitor que, por sua vez, também estiver cansado deste modelo insano de busca pelo capital. Caso queira encontrar um botão de "delete" para o mundo, esta pode ser a leitura recomendada. O traço é relativamente simples, com belas páginas retratando a passagem do tempo de forma bastante simples e visual. Há desvios na narrativa principal que utilizam elementos da fantasia, por vezes um tanto exagerados. No entanto, ao final toda a narrativa mostra ter mantido a coesão, cumprindo o objetivo a que se propôs. 

Lembranças (Lu Cafaggi e Vitor Cafaggi)

A trilogia lançada pelos irmãos Lu e Vitor Cafaggi dentro do selo Graphbic MSP foi uma das grandes homenagens realizadas não só aos personagens de Mauricio de Sousa, mas ao próprio conceito de infância vinculado a eles. A beleza dos títulos, sonoros e imagéticos, já desvela um pouco do cuidado com que foi concebida a coleção. Os laços, as lições e as lembranças são três nomes em uma sequência bastante imagética e nostálgica, nas quais os nossos tempos de criança são resgatados e tornam-se pauta para reflexão. Se o segundo volume (Lições) havia terminado com um fim em aberto, "Lembranças" vem não só tapando os possíveis buracos da história, mas ressignificando muitas das cenas e personagens. É, em suma, uma sequência de livrinhos singelos, que não têm a pretensão de narrar grandes histórias, mas que conseguem ser surpreendentemente belos.

Capitão Feio (Magno e Marcelo Costa)

Mais uma produção da nostálgica e inovadora Graphic MSP, desta vez com foco no personagem do Capitão Feio. Não está dentre os meus volumes preferidos, mas conta com alguns pontos significativos: - Enredo que prende a atenção do leitor, com um toque de aventura; - Personagem principal foge do maniqueísmo (é mais que um simplório vilão); - Referência bastante velada à desigualdade de renda (mas, só por existir, já atribui outro significado à história); - Diálogo com diversos gêneros (telejornal, história em quadrinhos, aventura); - Easter eggs simpáticos.

Arvorada (Orlandeli)

Chico Bento já havia estreado na coleção de novelas gráficas da Turma da Mônica, a Graphic MSP, mas sem um resultado surpreendente. "Pavor espaciar", primeiro título do personagem dentro deste selo, é uma história interessante, mas que pouco marca o leitor. Em "Arvorada", Orlandeli consegue trazer o elemento mais caro às melhores obras da coleção: o tom poético. Aliado a um desenho de traço simples, mas que casa com o enredo, o resultado alcançado está dentre os melhores dos seus pares. Orlandeli aposta na figura quase mítica da avó de Chico, valorizando a experiência e sabedoria dos mais velhos. Além disso, tem sensibilidade o bastante para resgatar alguns fatos pouco conhecidos da vida do personagem, como a morte de sua irmãzinha Mariana. É um quadrinho para fãs e leigos; uma florada de ipê bem amarelinho surge a cada página de "Arvorada".

Demônios em quadrinhos (Aluísio Azevedo por Guazelli)

Meu interesse renovado por Aluísio Azevedo é bastante recente - afinal, é um daqueles autores que a escola força goela abaixo, sem procurar despertar nenhum gosto real por sua escrita. No entanto, superados os traumas, é um escritor que vem crescendo aos meus olhos (cada leitura nova de "O cortiço" vem sendo uma agradável redescoberta). Para quem gostaria de dar uma chance ao naturalista, esta é uma boa porta de entrada. Mantendo o texto original, mas com evidentes cortes (para adaptá-los aos quadrinhos), o artista Guazelli realiza um bom trabalho, atribuindo visualidade a um dos contos mais perturbadores de Azevedo. Em uma época em que "The Walking Dead" tem tantos fãs, este conto tem todos os elementos para cativar os adolescentes: mistério, acontecimentos sobrenaturais, zumbis, um tom de humor ácido e debochado e o núcleo romântico. É uma história que prende a atenção, muito bem escrita, e que não receia colocar mortos-vivos como protagonistas. Um livro delic...