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Mostrando postagens com o rótulo Literatura indiana

In Other Words (Jhumpa Lahiri)

Quase sem perceber, já li quase toda a produção de Jhumpa Lahiri - uma autora contemporânea que lida com destreza sobre questões doloridas de nossa época, como imigração, pertencimento e o não lugar. As temáticas recorrentes na obra de Jhumpa não são casuais: filha de imigrantes indianos, a autora cresceu dividida entre culturas, línguas e crenças. Uma das muitas restrições que essa fragmentação impunha era a falta de uma língua materna: obrigada a falar inglês na escola e a conversar apenas em bengali com a família, a escritora nos conta como seu próprio idioma (e seu instrumento de trabalho) sempre foi marcado com o signo do interdito. Essas e outras razões a levaram a optar por um autoexílio voluntário de suas pátrias linguísticas: no começo dos anos 2000, Jhumpa se mudou com toda a família para a Itália, onde passou a falar e escrever apenas no idioma italiano. "In Other Words" é o relato dessa jornada, permeado de reflexões arrebatadoras sobre a linguagem, imigração ...

The Clothing of Books (Jhumpa Lahiri)

Jhumpa Lahiri, mais do que ser uma autora cuja temática principal é a migração, coloca-se permanentemente na posição daquele que é o outro, o diferente, o alheio a uma cultura. Por meio de sua obra, repensamos as questões da nacionalidade e do pertencimento de forma profunda, quase sempre dolorida. Indiana criada nos Estados Unidos, Jhumpa já traz, desde as primeiras memórias, a mescla de culturas e raízes. Após a publicação de seus livros iniciais, decide refazer esse percurso de impermanências por conta própria; assim, a escritora abandona mais uma vez suas raízes para viver na Itália, onde passa a publicar no idioma italiano. "The Clothing of Books" é uma das primeiras tentativas da escritora nessa nova língua. Assim, ela parte de um assunto que domina (os livros) para compor suas reflexões em um idioma que lhe foi estranho durante muito tempo. Dessa forma, este experimento resulta em um livro extremamente claro, com frases sucintas e muito polidas. Contudo, mesmo dent...

Intérprete de males (Jhumpa Lahiri)

Coletânea de contos bastante sucinta (com pouco mais de 100 páginas), "Intérprete de males" é a estreia de Jhumpa Lahiri no meio literário. Muito mais do que vícios de um autor iniciante, o que encontramos na obra são as temáticas que serão retomadas pela escritora - com igual afinco - em publicações posteriores. São contos em que a alteridade é trabalhada de diferentes formas, mas quase sempre gerando choque e confronto. Não encontramos neste livro de Jhumpa nem a falácia de uma cultura democrática e pronta a acolher o diferente, nem excessos na caracterização daquele que é estrangeiro. Uma das marcas mais interessantes em sua escrita é o uso de poucos, mas incisivos elementos para caracterizar seus personagens. Esse recurso fica ainda mais evidente nos excelentes contos que são narrados sob a perspectiva de uma criança - nos quais a estranheza de pequenos gestos e objetos é ampliada pelo olhar daquele que descobre o mundo (e, junto a ele, o que nos aproxima e diferencia...

*** Aguapés (Jhumpa Lahiri) ***

Consumimos muito do que vem da Índia - o yoga, a meditação, as roupas, os incensos, os temperos e até mesmo o festival das cores -, mas raramente admitimos essa irmandade. Ainda que separada por oceanos imensos, línguas múltiplas e mais de 330 milhões de deuses, esta nação oriental é marcada por muitos dos elementos que definem também nossa brasilidade. O (sub)desenvolvimento que nos aproxima no BRICS, a dança como expressão da cultura, os excessos (de gente, de crenças, de vivências), a corrupção, a desigualdade... são muitas as pontes que nos levam a essa cultura, tão diversa em sua unidade. Ao falar de pontes, coincidentemente me lembro do contexto de leitura de  Aguapés , que iniciei logo após finalizar  Dois irmãos , de Milton Hatoum. Centradas na mesma temática - as brigas e desencontros entre dois irmãos muito parecidos fisicamente  - as obras assemelham-se apesar de todas as fronteiras que existem ao meio.  Assim como Hatoum, Jhumpa também se utili...

A primeira luz da manhã (Thrity Umrigar)

Comecei 2014 com a proposta de ler e adquirir mais livros fora do cânone ocidental-branco-católico-masculino. E que surpresa boa ando tendo com as escritoras de outras culturas, idiomas e modos de pensar! Thrity Umrigar é uma autora indiana já bastante reconhecida, com boa parte de sua obra traduzida ao português. Sua biografia "A primeira luz da manhã" é um retrato das diversas facetas do quase-continente Índia. A pluralidade de regiões, pessoas, meios de vida é descrita de forma bastante interessante, atraindo o leitor para o seu país natal. As referências culturais de Umrigar são bastante destacadas ao longo da obra, permitindo uma compreensão maior do seu conjunto literário. Ainda que sejam raras as biografias boas de autores jovens, este é um caso em que se pode apostar. Trechos: Pela primeira vez, entendo vagamente o vínculo entre amor e responsabilidade. Somos responsáveis por aqueles momentos que amamos, percebo, e, se abdicamos dessa responsabilidade,...