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Mostrando postagens com o rótulo filme dinamarquês

A caça (filme de 2012)

Apesar de saber deste filme desde o lançamento, passei uma década sem coragem de vê-lo. Mais medonho que qualquer filme de terror, a trama parte da ideia de como uma mentira de criança pode arruinar uma vida para sempre. No enredo, um professor de creche é acusado de pedofilia por uma das menininhas da instituição, filha de seu melhor amigo. Uma das grandes sacadas do filme é deixar uma desconfiança de que algo realmente possa ter acontecido (seja com o professor ou com os outros adultos que cercam a criança). Apesar de todas as evidências em contrário, como desconfiar da narrativa de quem é tão inocente? Além das possibilidades de interpretação da história da menina, o que também fica em jogo é a atitude dos adultos. É como se, diante de um problema difícil, ninguém tivesse maturidade o suficiente para lidar com a situação; o que todos procuram são respostas fáceis e um culpado que seja punido – seja com a justiça penal, seja com as próprias mãos. Filmaço.

Flee: nenhum lugar para chamar de lar (filme de 2021)

Imigração, refugiados, fuga de regimes autoritários - não tem como o cinema atual escapar disso, mesmo quando o tema é justamente a (tentativa de) evasão de fronteiras. Com indicações a melhor filme e melhor filme estrangeiro do Oscar deste ano, Flee é uma produção com linguagens múltiplas: da animação a cenas filmadas documentais, do afegão ao russo e ao inglês.  O mais bonito é como a costura de fragmentos é feita com retalhos imprecisos da memória. Há várias idas e vindas na narrativa para refazer afirmações, redescobrir culpas e histórias perdidas em um processo de reconstruir a identidade roubada. É no contar-se que a vida se consolida.

A pior pessoa do mundo (filme de 2021)

Com um conflito de gerações pulsando no centro da trama, o filme retrata as angústias de quem não sabe o que lhe faz feliz. Talvez fosse uma obra sobre autoconhecimento, mas a protagonista parece ocupada demais em mudar de paixão para refletir sobre quem realmente é. É um abismo geracional que dá nervoso - principalmente para quem valoriza estabilidade e certezas, por mais ilusórias que sejam. Contudo, como retrato dos (pós-)millenials, me pareceu bastante certeiro. Incômodo e incompreensível - como qualquer embate de gerações diferentes.

Contra o gelo (filme de 2022)

O que queremos ver em um filme de exploradores? Muitas cenas da mãe natureza acabando com toda nossa pretensão humana de dominar o ambiente. Nesse quesito, "Contra o gelo" é um prato cheio: aquele típico enredo em que uma desgraça se sucede à outra na vida dos desbravadores. A produção conta ainda com uma bela fotografia, que faz jus ao cenário deslumbrante. No entanto, é uma história dotada de certo tom épico para descrever o que é, em suma, um relato de colonizadores.

Olmo e a gaivota (filme de 2015)

Alguns dos melhores filmes a que assisti neste ano (mais cinéfilo que os anteriores) foram dirigidos por mulheres: "Ataque de cães", "A teta assustada" e, agora, "Olmo e a gaivota". E a condução de uma trama fora de perspectiva usual faz toda a diferença. Dirigido pela brasileira Petra Costa (de "Democracia em vertigem" e "Elena"), o longa-metragem é um retrato intimista e, ao mesmo tempo, abrangente das questões sociais que a maternidade envolve. Tal como "A história da filha perdida", a trama tem um forte apelo anticoncepcional. Ainda que conte a história de uma gravidez por escolha, é difícil não se impactar pelas restrições e falta de liberdade durante o período da gestação. A linguagem cinematográfica de Petra é construída por reminiscências, baús de guardados dos protagonistas postos em cena. Como o casal filmado trabalha no teatro, as fronteiras entre a realidade e a fição / o drama e o documentário são ondulantes, flex...

Innsaei (filme de 2016)

Qual é o papel da intuição no comando de nossas ações? E como trabalhar o tema sem cair no discurso de autoajuda, com nenhum aprofundamento mais sério sobre a subjetividade? Ainda que comece com um relato aparentemente forçado (algo como fala pronta para o TED) sobre uma profissional de sucesso que abandona a carreira em busca do próprio eu, o filme surpreende. Apesar de um tanto clichê, o mote consegue fincar raízes mais profundas ao trazer para o debate outras experiências com a intuição, inclusive científicas. Não é uma obra revolucionária, mas vai além do entretenimento namastê.

A garota dinamarquesa (filme de 2015)

Com uma abordagem delicada sobre a questão transgênero, o filme A garota dinamarquesa  consegue colocar em xeque preconceitos, ao mesmo tempo que resgata dados biográficos de Lili, primeira a realizar uma cirurgia anatômica de mudança de sexo biológico. A fotografia e a trilha sonora contribuem para a criação de uma estética condizente com os anseios da protagonista - o desejo de Lili por tecidos suaves e delicadezas se reflete na paleta de cores da filmagem. Ademais, como, na vida real, tanto Lili quanto sua esposa eram artistas plásticas, o longa consegue recuperar um pouco deste ambiente artístico da Dinamarca do século XX.  A atuação de Eddie Redmayne é outro dos pontos fortes da produção - o ator consegue transformar sua personagem em alguém cativante, despertando a empatia do espectador. E, no fim das contas, é este o primeiro e mais importante passo para entender o outro: estar disposto a escutar sua história.