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Mostrando postagens com o rótulo filme australiano

Elvis (filme de 2022)

Fui ver "Elvis" no cinema porque filme que não seja de super-herói ou infantil nos cinemas do interior de SP é um evento; o fato de não ser dublado, quase um milagre. Não saber de nada previamente sobre a produção foi uma soma de surpresas boas, que culminou nos créditos, ao perceber que a direção era de Baz Luhrmann (mesmo diretor da versão de 1996 de "Romeu e Julieta", um dos meus filmes preferidos). A obra faz uma bela contextualização da música americana negra da época, e de como Elvis foi privilegiado por ser branco em uma época de forte segregação racial. Claro que a complexidade da apropriação cultural é apenas levemente matizada, já que o tema em si renderia muitas horas de discussão. No entanto, saí do cinema com a impressão de que essa abordagem da biografia do astro do rock, valorizando o contexto criativo do qual saiu, seria impossível há alguns anos.  Além disso, a opção por mostrar quanto da carreira e da vida de Elvis foram definidas por um empresário...

Ataque dos cães (filme de 2021)

 Mais um da lista do Oscar: do que mais gostei aqui foram as fronteiras tênues que negam os estereótipos de sexualidade. O caubói escroto, que aprendemos a odiar nos primeiros 15 minutos de filme, toca banjo e coleciona borboletas; o menino delicado é aquele que sabe como matar com frieza. A fotografia é linda e usa recorrentemente o efeito de moldura nas cenas: tanto para mostrar o caráter fragmentário da trama como para revelar o claro-escuro da personalidade ambígua dos protagonistas. Trilha sonora e cenário são muito bem escolhidos na produção. Ainda que incômodos, os elementos todos são muito bem amarrados - não à toa, um dos principais símbolos da trama é uma corda.

Trilhas (filme de 2013)

Excelente filme sobre o desejo de viajar, Trilhas explora também a contradição fundamental do mochileiro: o desejo de conhecer o mundo sozinho e a descoberta de uma solidão horrível que sobrevém dessa empreitada. Acompanhar o percurso de uma mulher, que em nenhum momento é fragilizada ou exposta como vítima na narrativa, é outro dos pontos fortes da produção. Os questionamentos sobre o porquê da inusitada aventura – atravessar o deserto em camelos – existem, mas não aparecem vinculados a nenhum estereótipo de gênero.  O contato entre a experiência dos aborígenes e a impetuosidade arriscada da trilheira também é um aspecto bem desenvolvido na trama. Por fim, a fotografia delicada e muito bela contribui para tornar a experiência de assistir ao filme ainda mais proveitosa.

Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis (filme de 2021)

A proposta de marketing por trás da história de um herói chinês da Marvel é bastante clara. Considerando esse aspecto, o que é mais louvável no filme é o esforço mínimo para manter alguma ligação com a cultura homenageada, como: cenas relativamente longas de diálogos em mandarim; efeitos especiais que lembram a estética do Clã das adagas voadoras , por exemplo; algumas referências a aspectos culturais orientais (não necessariamente chineses). Fora isso, os personagens não conseguem cativar pelos diálogos (mas, para mim, essa é uma tônica geral dos filmes da Marvel). E, ainda segundo o meu gosto pessoal, tem lutinha demais.   

A Copa (filme de 1999)

Certa vez, uma reportagem elegeu o Butão como o país mais feliz do mundo. Se, por um lado, o índice da suposta plenitude pode ser questionado, por outro ele parece bem contemplado no filme "A Copa" — que foi a primeira produção cinematográfica da pequena e alegre nação. Ambientado em um mosteiro budista, o mote do longa é bastante inusitado: conta como os pequenos monges fazem de tudo para poderem assistir à final da Copa de 1998. O motivo da torcida também tem uma pincelada política: afinal, a França (que foi a campeã do evento) era uma das poucas nações que reconhecia a existência do Tibet à época. Aliás, apesar do clima predominante ser de um humor leve (e que ajuda a desconstruir a figura do monge budista como um ser sem defeitos), há uma ou outra cena que trazem à tona as torturas, prisões e resistência política de quem defende o Tibet. Assim, ainda que seja uma obra leve, não deixa de ser bem contextualizada e uma fonte interessante de informações sobre um contexto que ...

O Grande Gatsby (filme de 2013)

A megalomania nas produções de Baz Luhrman (diretor de Romeu + Julieta e Moulin Rouge ) não destoa em nada do tom de O grande Gatsby ; assim, ainda que a releitura para o cinema use elementos contemporâneos (como a ostentação do rap ), acaba sendo uma produção bastante fiel ao enredo original de Fitzgerald.  Os efeitos pouco realistas de  videogame  não me encantam, mas podem ser mais facilmente aceitos no contexto da obra em que se inserem.  A escolha de Tobey Maguire talvez seja um ponto a ser questionado; afinal, por meio de sua atuação, o enigmático Nick Carraway vira quase um bobo na corte de Jay Gatsby. Contudo, a presença de DiCaprio no elenco ajuda a contrabalançar essa dinâmica da obra, dando-lhe o ar de dramaticidade necessário.

Romeo and Juliet (William Shakespeare) + filme de 1996

Durante a adolescência, o encarte da trilha sonora original de "Romeu e Julieta" ficava pendurado nas paredes do meu quarto. Ao finalmente entrar em contato com a obra que lhe deu origem - e na sua língua original -, consigo entender mais claramente o impacto que a peça teve na minha formação como leitora. Por mais que haja traduções disponíveis da obra (e por mais que o meu inglês capenga tenha de recorrer a elas), a experiência de ler Shakespeare no original foi muito reveladora. As sutilezas de linguagem que tornaram o dramaturgo tão reconhecido ainda são muito potentes, mesmo registradas em uma linguagem que hoje nos é arcaica. Ao assistir ao filme, pude confirmar o que havia me encantando no fim dos anos 1990: muito mais do que a atualidade do filme de Baz Luhrman, o que me marcou profundamente foi a sonoridade dos versos e o contraste entre o discurso e o contexto. Assim, mesmo antes de o saber, Shakespeare me capturou por sua poesia.

Hannah Gadsby: Nanette (filme de 2018)

Aparentemente despretensioso, em princípio o filme não seria nada mais do que a filmagem de um talk show , de mais ou menos 1 hora de duração. No entanto, são muitas as surpresas que essa pequena obra de arte guarda - capazes de conquistar até o público mais avesso ao gênero stand up  (dentre o qual me encaixo). O que Hannah Gadsby faz em seu discurso, sem deixar de divertir a plateia, é lançar reflexões profundas tanto sobre o gênero textual (a comédia) quanto sobre o sexual (uma vez que se define como lésbica). E, nessa proposta ousada de desconstruções, conduz questionamentos incômodos e agudos sobre ambas as questões. Ainda que atenda à expectativa inicial de um talk show , com bons chistes, o que a comediante australiana faz é dar um espetáculo retórico. Com um discurso emocional, angaria o pathos do público para em seguida capturá-lo pela racionalidade. Sua argumentação é absolutamente bem estruturada, a ponto de conseguir subverter completamente as estruturas do gênero c...

Lion (filme de 2016)

O mote de Lion , ainda que carregue algumas notas trágicas, é relativamente simples: a história de um menino adotado que, após adulto, decide reencontrar sua família biológica, da qual se perdeu quando criança. É preciso que o espectador tenha em mente, desde o começo, que não se trata de uma trama cheia de reviravoltas ou suspense; pelo contrário, o desenrolar da narrativa é bastante previsível, sem que isso seja, necessariamente, uma falha do filme. O início da trama, ambientado na Índia, é o grande atrativo da história, o que talvez gere grandes expectativas em quem a assiste. Por mais que Dev Patel seja um ator bastante completo, a interpretação das duas crianças no começo é o que mais emociona na obra. Ademais, o retrato social da Índia feito nesta parte do filme é, ainda que cruel, bastante cativante. O modo como o personagem usa a tecnologia do Google Earth para reencontrar suas origens, sendo baseado em uma história real, não deixa de ser curioso. Somado à atuação fenom...