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Mostrando postagens com o rótulo literatura catalã

La gente feliz lee y toma café (Agnès Martin-Lugand)

Fui procurando um livro-conforto para me distrair da turbulência do avião, mas encontrei uma história menos fofa do que procurava. O protagonista masculino do romance é tão bronco que beira a violência (ou parte para ela, em alguns momentos). Como não consigo romantizar grosseria, a história pouco me convenceu. O título também poderia incluir “lee, fuma y toma café”, já que os personagens são fumantes inveterados - a ponto de o cigarro ser muito mais citado que o conforto da cafeína e boas dicas de literatura. Apesar de o final até surpreender um pouco (dada a previsibilidade do enredo), está longe de ser um livro para manter nas prateleiras da estante.

Espelho partido (Mercè Rodoreda)

Gosto de narrativas entrecruzadas, histórias aparentemente independentes que se mostram interligadas desde o começo. Não foi difícil, portanto, me render de amores às primeiras páginas deste romance. O que acreditava que viria pela frente seria uma obra de fios soltos, cada capítulo como se fosse um conto, que se uniriam ao final. Contudo, não é bem assim que a trama ocorre; aos poucos, o que parecia único e isolado já se mostra parte da teia de uma grande família e sua decadência. Há aspectos de que gosto bastante na obra, como um dos capítulos ser narrado por uma ratazana; o fim de uma família tradicional em nome do crescimento das megacorporações; alguns personagens marcantes. Entretanto, a sugestão de uma estrutura diferente, feita nas primeiras páginas da publicação, era o que mais me havia cativado. Outro ponto que me afastou da obra foi o desaparecimento súbito de Maria, uma de suas personagens mais cativantes. Tanto é feito para construir uma personagem misteriosa e, em poucas ...

Veintidós cuentos (Mercè Rodoreda)

No romance "A velocidade da luz", o protagonista tenta ensinar catalão a um colega de universidade, pois este deseja conhecer mais a fundo a obra da escritora Mercè Rodoreda. Curiosamente, o autor do romance - Javier Cercas - é catalão (ainda que escreva em espanhol). E, aliás, não são raros os casos de artistas da Catalunya que não produzem em sua língua materna, uma vez que o espanhol parece estar intrinsecamente atrelado à divulgação de uma obra (vide outro caso famoso: Carlos Ruiz Zafón). Se somarmos o contexto de uma língua pouco utilizada para a projeção internacional da literatura ao contexto do exílio durante a guerra, a figura de Rodoreda causa ainda mais impacto. Sem deixar de escrever na língua catalã, é ainda hoje um dos nomes mais reverenciados quando se fala na literatura dessa nação, em eterna disputa pela independência. Os 22 contos, escritos na França durante o exílio ao franquismo, constituem uma das primeiras obras reconhecidas pela escritora. Nela, já ...

Nada (Carmen Laforet)

Anton Tchékhov, o meu russo (e talvez o escritor) favorito, compunha contos em que nada acontecia. Sua concepção do gênero, diametralmente oposta à de um Edgar Allan Poe, não apostava em conflito, clímax, resolução. O que predomina em sua escrita é a criação da atmosfera e não a atenção aos fatos concretos, palpáveis.  Como não lembrar da aura tchekhoviana, portanto, em um romance que traz o nada como título? Primeira obra de Carmen Laforet, o romance foi publicado quando a autora tinha apenas 23 anos - e, inusitadamente, traz um olhar muito maduro e desesperançado sobre a realidade. O enredo conta a história de Andrea, jovem interiorana que vai morar com parentes quase desconhecidos durante sua graduação em Barcelona. Assim como a protagonista, somos arrastados para o centro de uma família desestruturada, com relações passionais, imersa na pobreza resultante da Guerra Civil.  A obra não é um libelo contra a violência da ditadura franquista; no entanto, para bom leitor, ba...

A praça do diamante (Mercè Rodoreda)

2017 me trouxe algumas das melhores leituras da vida, como David Copperfield e O sol é para todos . E agora, com o ano quase em seu fim, ainda consegui acrescentar uma obra na minha lista de grandes favoritos: o impressionante A praça do diamante , de Mercè Rodoreda. A escritora, nascida na Catalunha, usou sua escrita como bandeira de uma língua e nacionalidade. Em um ano em que a independência catalã foi tão discutida, o reencontro com sua obra faz-se mais do que nunca necessário. Dois aspectos me encantaram particularmente neste livro: o questionamento do papel da mulher e a descrição da passagem do tempo. Apesar de ser um retrato de Barcelona dos anos 30, a obra é muito à frente de sua época, com indagações de cunho feminista que até hoje soam chocantes - talvez pelo fato de o machismo seguir ocupando espaços e discursos com força, mesmo hoje, quase cem anos após a sua publicação. Mesmo sem se pautar na infância da protagonista, este pode ser considerado um romance de formaçã...