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Veintidós cuentos (Mercè Rodoreda)

No romance "A velocidade da luz", o protagonista tenta ensinar catalão a um colega de universidade, pois este deseja conhecer mais a fundo a obra da escritora Mercè Rodoreda. Curiosamente, o autor do romance - Javier Cercas - é catalão (ainda que escreva em espanhol). E, aliás, não são raros os casos de artistas da Catalunya que não produzem em sua língua materna, uma vez que o espanhol parece estar intrinsecamente atrelado à divulgação de uma obra (vide outro caso famoso: Carlos Ruiz Zafón).

Se somarmos o contexto de uma língua pouco utilizada para a projeção internacional da literatura ao contexto do exílio durante a guerra, a figura de Rodoreda causa ainda mais impacto. Sem deixar de escrever na língua catalã, é ainda hoje um dos nomes mais reverenciados quando se fala na literatura dessa nação, em eterna disputa pela independência.

Os 22 contos, escritos na França durante o exílio ao franquismo, constituem uma das primeiras obras reconhecidas pela escritora. Nela, já se percebem sementes de tramas, personagens e impasses que motivariam seus futuros romances.

Um dos pontos fortes no estilo da autora é a sua capacidade de chocar (mas sem apelar ao melodrama). Como um exemplo, uma das descrições que mais me causaram impacto associa um bebê no ventre a uma bola disforme sem mãos e pernas, um monstro em crescimento. Sem preocupação nenhuma em fazer uma literatura palatável, Mercè Rodoreda escolhe temas instigantes e não se inibe ao provocar o leitor com cenas fortes e associações inusitadas. Mesmo em contos de viés tchekhoviano - nos quais nada aparentemente acontece - a linguagem de Rodoreda garante um mundo de possibilidades e interpretações para quem a lê.


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