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Mostrando postagens com o rótulo literatura uruguaia

Contra viaje (Federico Berro)

A ideia do livro é nos fazer rir pelo reconhecimento, listando os perrengues pelos quais passa um viajante sul-americano na sua primeira incursão na Europa. Apesar de publicado nos anos 1970, a geografia que define nosso lugar no mundo não mudou tanto assim, o que faz a obra permanecer atual (apesar de um ou outro comentário infeliz sobre etnia e gênero). O problema maior do livro é seu ritmo: estruturado como dicionário, nem sempre traz verbetes que convençam. Além disso, por mais que um viajante mal-humorado possa ser engraçado, tem hora que cansa.

Breve sol (Circe Maia)

Alguns elementos na poética de Circe Maia, escritora uruguaia, me lembraram da minha poeta brasileira preferida: Ana Martins Marques. Assim como nossa conterrânea, Circe faz a poesia dos pequenos objetos, em que uma cadeira ou uma folha de papel se transformam em convites para a filosofia e a metalinguagem.  O que mais se ressalta no conjunto de poemas do livro, contudo, talvez seja a questão do duplo: o que se espera e o que se alcança, o que se escreve e o que não se registra, a autora e seus leitores. É nessa travessia de espelhos singulares, iluminada pela graça das pequenas coisas, que a poeta constrói um conjunto de versos solares. 

La tregua (Mario Benedetti)

Apesar do título, La tregua  é um livro que exige permanente luta do leitor (ainda mais quando estamos acostumados a reivindicar uma literatura que se faça sem estereótipos e preconceitos). O romance é quase um campo de batalha entre as nossas crenças e a perspectiva de mundo de um homem branco dos anos 1950, prestes a se aposentar. Machismo, homofobia, relações abusivas. Não faltam motivos para odiar o protagonista da trama. E, ainda assim, ela nos toca no pouco de humanidade que temos inegavelmente em comum. É pela perda que a narrativa nos conecta ao seu tão antiquado protagonista. Construído com entradas curtas (o livro mimetiza um diário), tive dificuldade em me envolver com as primeiras páginas da obra. No entanto, sem perceber, o livro reverberou em mim como um favorito. É um desafio gostar dessa obra; contudo, para que afinal a literatura serve, se não para nos colocar em contato com o extremo outro?  

Las soledades de Babel (Mario Benedetti)

As solidões de Babel são compostas de 6 partes: Aquí lejos , Babel , Tréboles , Saturaciones y terapias , Caracol de sueño , Praxis del fulano . Com cerca de 150 páginas, é uma coletânea de poemas com mais fôlego, que agrupa diferentes temas da poética de Benedetti sob o guarda-chuva da linguagem. Publicado em 1991, o livro conta com um autor mais maduro – mas que não me encantou tanto quanto a obra publicada mais de 20 anos antes, Cotidianas . Talvez o passeio por diferentes paisagens da solidão a que a linguagem leva (e não são elas infinitas?) traz menos unidade ao conjunto. A primeira parte, Aquí lejos , traz o olhar do exilado político que volta a seu país e continua lidando com a desesperança e o desenraizamento – sem dúvida, foi do que mais gostei na obra. As seguintes partes são de alguma forma autoexplicativas pelo título (as confusões da linguagem, a natureza, exercícios poéticos, o onírico, a oscilação entre o universal e o lírico de qualquer fulano), mas não tão bem amarrad...

Cotidianas (Mario Benedetti)

Ainda que 2020 pareça ter entrado em uma espécie de loop, em que todos os dias se repetem com tragédias em doses semelhantes, o fato é que o tempo continua seu usual fluxo. E agora, quando mais da metade do ano se passou, já consigo ter um panorama prévio do que significará rever esse tempo em retrospectiva. No campo das leituras, foi uma época de descobertas de muitos poetas favoritos. Após o chileno Nicanor Parra, outra voz latina veio somar-se à minha lista de autores mais queridos. Com um tom bem diferente do de Parra (menos irônico, mais político), Mario Benedetti me arrebatou igualmente.  Talvez a escolha do livro tenha sido certeira, em um tempo em que os dias se fazem iguais no mesmo ambiente. Em "Cotidianas", o uruguaio resgata os pequenos prazeres e vicissitudes que constroem o dia a dia de uma vida. Não são grandes os gestos exaltados, mas tampouco é uma poesia que exalta o insignificante (como a de Manoel de Barros). A poética de Benedetti se aproxima mais a uma l...

Cuentos de locura, de amor y de muerte (Horacio Quiroga)

Quiroga é uma dos escritores mais amaldiçoados do século passado; mesmo tendo nascido em uma época posterior à das trágicas mortes dos autores românticos, não há passagem em sua vida que seja isenta de sofrimentos. Esse ambiente desestabilizador se reflete claramente na temática de seus contos, que trabalham o sombrio e o horror. Além disso, o uruguaio insere na literatura uma região quase entre fronteiras: a selva, compartilhada com Brasil e Argentina. É o uruguaio que consegue colocar no mapa literário um lugar tão afastado do centro de produção cultural da época. A coletânea reúne contos que já são clássicos de Quiroga - como "O travesseiro de plumas" e "A galinha degolada" -, mas traz também outras histórias curtas menos conhecidas. Se as narrativas de amor (ainda que sombrias) deixam a desejar, nos outros temas - loucura e morte - o trabalho do autor é impressionante.

Bocas del Tiempo (Eduardo Galeano)

Ainda que por vezes oscile entre o sublime e o clichê, Eduardo Galeano é um autor de indiscutível qualidade literária - para não falar de sua filosofia profunda e acessível. No conjunto de pequenas crônicas "Bocas del tiempo", o autor passeia por diversos temas que permeiam as relações sociais e o nosso ser e estar no mundo. O pano de fundo da maioria dos textos é a desigualdade social que constitui a América Latina, marcada por coronelismos e uma perene submissão às nações de maior poder econômico. Assim, os escritos do autor uruguaio são um ótimo meio de reconhecer nossa latinidade - nossos mesmos problemas, nossas mesmas dores.

A casa de papel (Carlos María Domínguez)

Esta novela do uruguaio Carlos María Domínguez é poderosa para discutir literatura, além de ser uma delícia para todos aqueles que vivem imersos no mundo das bibliotecas. Em poucas páginas, nos deparamos com a questão da materialidade do livro impresso, do academicismo em torno das leituras, dos laços que envolvem a vida do leitor e a vida do livro... Todos esses temas são desdobrados sobre o pano de fundo de um pequeno mistério a ser desvelado. Dessa forma, acompanhamos o personagem principal no processo de suas descobertas - sempre relacionadas à literatura. Uma pena que a única edição disponível no Brasil tenha vários probleminhas de revisão, apesar de ser tão ricamente ilustrada. Ainda assim, é uma obra altamente grifável - daquelas que nos faz quer registrar cada frase, cada pensamento deste livro sobre livros.

Primavera num espelho partido (Mario Benedetti)

Livro curto e polifônico, "Primavera num espelho partido" é uma tentativa de amálgama de relatos e experiências muito distintos sobre a ditadura uruguaia. Enquanto Santiago, o protagonista da trama, é um preso político, os demais personagens a seu redor falam e escrevem sobre outras facetas da opressão: o exílio, a espera pela liberdade dos companheiros, a desilusão com os movimentos que deveriam ser libertários, a tentativa de recomeçar em um novo país.  Cada um dos relatos se vale de técnicas narrativas distintas (diário, carta, redação de escola, monólogo interior etc.), o que enriquece ainda mais a estrutura da obra.  Os trechos conduzidos pela voz infantil de Beatriz, filha de Santiago, estão dentre os que mais me agradaram. Benedetti faz um excelente trabalho na criação de uma narradora perspicaz, curiosa, mas não totalmente ingênua. É uma personagem que nos cativa de imediato, mas que propõe questões mais profundas: afinal, o que significa crescer no exílio? Como id...

As cartas que não chegaram (Mauricio Rosencof)

Nesses tempos em que vivemos - de um ódio tão fácil, falácias com estatuto de dogmas - a leitura de uma obra poderosa, como a de Rosencof, é um lembrete assustador do que acontece com aquele que perde sua humanidade em nome de crenças avassaladoras. Dois períodos históricos incontornáveis são retratados com maestria no livro - e, infelizmente, mais fundamentados na realidade do que na ficção. As primeiras cartas que nunca chegaram são as da família do pai de Rosencof, morta ou nos guetos da Polônia ou em campos de concentração. Com uma sensibilidade arrebatadora, o autor toma para si a tarefa de escrever missivas ao pai, revelando o destino trágico de seus parentes. A segunda e a terceira parte da obra ("A carta" e "Dias sem tempo") consistem no relato tardio do filho ao pai. O autor, Mauricio Rosencof, passou 11 anos, 6 meses e alguns dias na solitária durante a ditadura no Uruguai. Companheiro de Mujica, acompanhou seu trágico destino por mais de uma década. N...

Um, dois e já (Inés Bortagaray)

A curta novela da escritora uruguaia Inés Bortagaray retrata um contexto afetivo bastante específico, que cativa mais o leitor que passou por experiências semelhantes: uma viagem de carro, durante a infância, com toda a família. Centrada apenas no deslocamento (uma road trip bastante específica), a obra retrata desde os detalhes mais prosaicos (como a vontade que a protagonista tem de vomitar nesses passeios) até questões mais amplas, que ficam um pouco subentendidas.  Pelo fato de a narradora ser criança, não se explica muito; é o leitor que infere que a viagem, por exemplo, pode ser uma fuga (afinal, estamos falando do Uruguai ditatorial).  Não foi uma obra que me encantou - talvez por pouco ter viajado durante a infância, talvez por algumas inverossimilhanças narrativas. A protagonista menina alterna fluxos de consciência infantis com um vocabulário, por vezes, muito adulto - o que me incomodou e acabou corrompendo um pouco o clima da narrativa.