Pular para o conteúdo principal

Primavera num espelho partido (Mario Benedetti)

Livro curto e polifônico, "Primavera num espelho partido" é uma tentativa de amálgama de relatos e experiências muito distintos sobre a ditadura uruguaia. Enquanto Santiago, o protagonista da trama, é um preso político, os demais personagens a seu redor falam e escrevem sobre outras facetas da opressão: o exílio, a espera pela liberdade dos companheiros, a desilusão com os movimentos que deveriam ser libertários, a tentativa de recomeçar em um novo país. Cada um dos relatos se vale de técnicas narrativas distintas (diário, carta, redação de escola, monólogo interior etc.), o que enriquece ainda mais a estrutura da obra. 

Os trechos conduzidos pela voz infantil de Beatriz, filha de Santiago, estão dentre os que mais me agradaram. Benedetti faz um excelente trabalho na criação de uma narradora perspicaz, curiosa, mas não totalmente ingênua. É uma personagem que nos cativa de imediato, mas que propõe questões mais profundas: afinal, o que significa crescer no exílio? Como identificar as raízes pátrias de um refugiado?

O que também me encantou na obra são os capítulos conduzidos pelo próprio Benedetti, que relata suas experiências reais no exílio. Assim, realidade e ficção se sobrepõem com esmero, criando um retrato profundo do tempo de homens partidos.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Armandinho 1, 2 e 3 (Alexandre Beck)

O personagem de cabelo azul já ganhou apelidos que o aproximam dos famosos Calvin e Mafalda. No entanto, o toque brasileiro é que faz a diferença e aproxima Armandinho de seus leitores. O garotinho, que não gosta muito da escola, mostra que a sabedoria vai muito além dos bancos da sala de aula. Desde questões políticas específicas - do Brasil ou de Santa Catarina - até piadas simples sobre assuntos cotidianos, a força das suas tirinhas reside também na versatilidade. O ponto de vista infantil nos serve de guia nesses quadrinhos, nos quais os adultos aparecem sempre retratados sob o viés da criança. Para comprovar esse fato, basta observar o traço: assim como na clássica animação dos Muppets, apenas as pernas dos personagens mais velhos são desenhadas. Se a semelhança com Mafalda está no aspecto irreverente (e nos cabelos que são marca registrada), com Calvin o parentesco vai além: em muitas das tirinhas, Armandinho aparece com seu bicho de estimação (um sapo que, inclusi...

Livre (Cheryl Strayed)

O que me interessou neste livro, com capa de autoajuda ("Uma história de superação") foi apenas seu tema: uma viagem no estilo mochileira que se tornou tão famosa a ponto de virar filme neste ano, com Reese Witherspoon no papel principal. Iniciei a leitura por curiosidade, mas pronta para largar o livro no primeiro capítulo, caso ele se mostrasse uma história mal construída. No entanto, best sellers podem sim esconder um conteúdo maravilhoso, com uma trama bem articulada e enredo cativante. Assim que iniciei a leitura de "Livre", me senti presa à história, que vai muito além da descrição da longa caminhada pela Pacific Crest Trail.  A autora, antes de nos apresentar sua jornada, explica os motivos que a levaram a caminhar por três meses sozinha ao longo de florestas, campos, neve, desertos. A análise madura que faz de sua própria vida, focando o vazio que causou a perda de sua mãe, é comovente. Suas dificuldades imensas ao longo da trilha (uma mochila que mal ...

O debate (Guel Arraes e Jorge Furtado)

Escrito no calor do momento, é um livro com prazo de validade; seu grande clímax é deixar o leitor na expectativa de saber quem ganhará as eleições de 2022 (Lula ou Bolsonaro). Com uma tentativa de reproduzir o conteúdo na forma, a peça teatral contempla o debate dos dois protagonistas: um casal de jornalistas recém-divorciado, ambos progressistas, que discutem com ardor sobre os rumos das transmissões eleitorais televisivas. Apesar de um ou outro argumento bem elaborado, o texto é a reprodução de falas já muito marcadas em todas as discussões de bar, acrescentando pouco ou nada de mais profundo ao panorama atual. De certa forma, ainda bem que o texto ficou datado: é preciso abrir caminhos a novos diálogos e enterrar de vez os fantasmas de um passado miliciano.