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Mostrando postagens com o rótulo Literatura alemã

Corpus delicti: um processo (Juli Zeh)

Na busca de livros que ajudassem a pensar o mundo pós-Covid, escolhi esta obra (que já habitava minha estante há um tempo). Se, por um lado, a opção foi adequada em termos de linguagem (é uma escrita bastante fluida, quase de best-seller), por outro não me trouxe muitas novidades. Frente ao nosso cenário distópico atual, é preciso um romance de muito fôlego para ser capaz de tratar temas complexos com o mínimo de verossimilhança. O mundo retratado pela alemã Juli Zeh é aquele no qual a Ciência venceu. Assim, os seres humanos não são mais definidos em razão de suas crenças ou tipo de pele - mas sim por seu histórico de saúde, que é minuciosamente controlado pelo governo. Não há espaço para doenças e tampouco para opções pessoais que ameacem a sociedade. É um cenário em que o coletivo se sobressai e as paixões individuais são ignoradas. Se o mote é bom, o mesmo não se aplica ao desenvolvimento do enredo. Diálogos fracos, personagens pouco elaboradas e uma trama confusa fazem que o li...

O diário de Anne Frank - Edição definitiva

Foram poucos os professores, durante a minha vida escolar, que indicaram leituras. Assim, ainda me lembro da minha descoberta do diário de Anne, por meio da fala de uma professora de História, segundo a qual este livro era uma releitura para a vida inteira. Cumprindo seu ditado à risca, depois de duas incursões na obra durante a minha adolescência, decidi retomá-la mais uma vez - quase quinze anos depois. Anne Frank não é o registro mais representativo do que foi o Holocausto (e quem diz isso não sou eu, mas algumas sociedades judaicas de preservação da memória), já que a parte mais cruel e inominável de sua história não foi narrada. Há relatos de crianças nos campos e nos guetos que são extremamente marcados pela violência e pela desilusão. Assim, até essa minha releitura, acreditava que o furor em torno do diário de Anne estava centrado exclusivamente em nossa vontade de querer conhecer o que foi o nazismo apenas até alguns limites. Não queremos nos aprofundar demais, talvez por me...

A cruzada das crianças (Bertold Brecht)

Brecht narra, em um poema curto, a história verídica de 55 crianças órfãs de guerra que decidiram atravessar a Europa em busca de um lar. Ambientado durante a II Guerra, o livro problematiza fatos como o da criança de passado nazista que decidiu se juntar à marcha, e o do cachorro que, mesmo sendo uma boca mais a alimentar, acaba sendo adotado pelos pequenos. A edição da Pulo do Gato conta com ilustrações lindíssimas de Carme Solé, que criam um efeito de carvão sobre o papel (além do constante vermelho sangue em quase todos os desenhos). É uma história linda para aproximar os pequenos da história ocidental e dos desmandos da guerra.

Os cadernos de Malte Laurids Brigge (Rainer Maria Rilke)

Rilke é um poeta de uma obra não muito extensa, porém de uma forte influência sobre diversos autores e, inclusive, filósofos como Jean-Paul Sartre. O único romance escrito pelo poeta alemão, estes cadernos de Malte Laurids Brigge, são reconhecidos por muitos como uma das inspirações para o movimento existencialista e, também, para o expressionista. Uma mistura de prosa, poesia, filosofia e arte, portanto. Dessa síntese resulta um livro que, apesar de curto, é de leitura bastante difícil. O narrador nos guia quase por um fluxo de consciência, sem se preocupar em apresentar os personagens ou situações que se desenrolam ao longo da trama. E todo esse cenário é pontuado ainda por reflexões filosóficas complexas - o que é a vida, a morte, a capacidade de enxergar - e metáforas herméticas. Não foi um livro de que absorvi muito - pelo tamanho, esperava uma leitura rápida, mas me deparei com um texto intrincado, para o qual precisaria de uma série de outras referências. Talvez len...

Momo e o senhor do tempo (Michael Ende)

Michael Ende é o autor alemão de "Uma história sem fim", um enredo mágico que foi adaptado para os cinemas e ganhou uma grande legião de fãs nos anos 80 e 90. Vasculhando sua bibliografia, descobrimos que o sucesso da narrativa de Atreyu não é isolado: seu criador é um grande contador de histórias, daquelas que realmente não merecem ter fim. A garota Momo, protagonista desta trama, é um ícone da inocência que não deve ser perdida na infância - ela sabe viver seu tempo, sem se submeter às regras dos adultos (sempre tão atarefados). Seus conhecimentos não vêm da escola, mas dos ensinamentos da comunidade e da natureza; seu grande atrativo é ter o dom de escutar em um mundo em que ninguém quer se ouvir. E é com essas qualidades, tão naturais e simples, que a menina enfrenta as tramoias elaboradas pelos ladrões do tempo. Apesar do cenário fantástico e da linguagem acessível, o melhor interlocutor para esta narrativa é o adulto - principalmente aquele que já tem fi...

Siddharta (Hermann Hesse)

Há inúmeras versões para a história de Buda, assim como o próprio Buda não é um só. Hermann Hesse aproveita este conceito para recriar a biografia de Sidharta à sua maneira, buscando por si próprio o conceito de espiritualidade que seria capaz de nos levar ao nirvana. Apesar de bem redatado, o livro não me convenceu. Ainda que não esperasse a figura de um Buda sem pecados, boa parte da vida do personagem não traz nenhum elemento da santidade ou da espiritualidade elevada que tanto buscamos. Por mais que o próprio conceito do budismo reforce a transcendência do cotidiano, a obra me pareceu muito corriqueira, afastada de conceitos mais profundos. Nota: 6,5 Trechos: "La verdadera profesión del hombre es encontrar el camino hacia sí mismo." "En ese momento sentía más profundamente que nunca el carácter indestrutible de toda la vida, de la eternidad en cada instante (...) "