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Mostrando postagens com o rótulo Literatura infantojuvenil

Meu pequenino (Germano Zullo / Albertine)

Livro espelhado, em que as narrativas de vida da mãe e do filho se confundem. Os laços que unem no útero expandem-se para a vida, criando necessidades iguais em quem já foi uma só carne. Delicado e potente, consegue aprofundar reflexões sobre infância e velhice – e sobre o que fazemos com o miolo da vida.

Eloísa e os bichos (Jairo Buitrago / Rafael Yockteng)

Temas: imigração, medo do desconhecido, dificuldade em adaptar-se. Do que mais gostei: é ótima a ideia dos insetos gigantes simbolizando nossos medos. E o lado B dessa história: como também podemos apavorar quem se sente diferente.

Casa de passarinho (Odilon Moraes)

Temas: curiosidade, criação de hipóteses, natureza, pássaros. Do que mais gostei: é a soma de várias perguntas de crianças diante de uma casa de passarinhos, mas sem se preocupar com respostas.

Rosa (Odilon Moraes)

Temas: Guimarães Rosa, A terceira margem do rio, ser pai e ser filho. Do que mais gostei: é quase tão enigmático quanto uma terceira margem, quase tão calado quanto o pai que passa a vida na canoa. É pouquíssimo texto a emoldurar as ilustrações, mas com tantas possibilidades de leitura.

Sagatrissuinorana (João Luiz Guimarães / Nelson Cruz)

Temas: Guimarães Rosa, Os três porquinhos, desastres ambientais de Mariana e Brumadinho. Do que mais gostei: me emociono a cada vez que releio. Não é à toa que ganhou o Jabuti do ano passado - parece livrinho, mas é um tremendo livrão. Para mim, é a prova inegável de como o livro ilustrado pode ser literatura da mais alta qualidade.

Samira e os esqueletos (Kristin Lie Garrubo)

Temas: corpo humano (esqueleto e músculos), igualdade, humor e terrorzinho infantil. Do que mais gostei: é MUITO divertido. A cada releitura percebia um detalhe no texto ou nas ilustrações que me fazia rir ainda mais. Além disso, tem protagonismo negro mas não é um livro (só) sobre igualdade racial.

Lampião e Lancelote (Fernando Vilela)

Temas: cavaleiros, cangaceiros, narrativa de capa e espada, cordel, arte abstrata. Do que mais gostei: o todo. É tanta pesquisa para elaborar textos e ilustrações que só resta admirar o conjunto. Obra de arte da primeira à última página.

De passinho em passinho (Otávio Júnior)

Temas: dança, música, desigualdade social. Do que mais gostei: traz uma mensagem positiva, mas não é simplista; seus temas ricos são quase uma sequência didática, prontinha para ocupar as escolas.  

Da minha janela (Otávio Júnior)

Temas: vivência em comunidade, desigualdade social, amor aos estudos. Do que mais gostei: olhar pelas janelinhas de cada uma das casas e sentir a movimentação do dia a dia, a vida que pulsa na favela.

Com qual penteado eu vou? (Kiusam de Oliveira / Rodrigo Andrade)

Temas: nome, identidade, ancestralidade, sororidade. Do que mais gostei: ilustrações lindas e com muita representatividade.

Passarinha (Regina Berlim)

Com uma narrativa bem simples, a beleza maior da obra está em falar do vazio – simbolizado desde a capa, com o ninho desabitado. Ao refletir sobre a perda e atrelá-la à liberdade do voo, o livro consegue criar uma ponte bonita, ainda que bastante simples, entre essas ideias aparentemente opostas.

Poetry for children (Emily Dickinson)

Com vários títulos já publicados, a coleção "Poetry for children" traz uma concepção editorial muito bem pensada: ilustrações lindas, uma seleção de ótimos autores, glossário ao pé da página para palavras desconhecidas dos pequenos e uma paráfrase acessível de cada texto ao final da publicação. Emily Dickinson trabalha vários temas que são (ou deveriam ser) essenciais à literatura infantil: natureza, descoberta do mundo, leitura, vida e morte. Confesso que achei alguns poemas bastante complexos para crianças... ainda assim, a maioria dos textos é composta de versos curtos e que encantam pelas rimas. E pela beleza da linguagem, claro.

Os Moomins e o chapéu do mago (Tove Jansson)

​ Os Moomins são barrigudinhos, narigudos e charmosos; além disso, vêm de uma ampla linhagem de livros que narram sua história. Tove Jansson, a escritora finlandesa responsável pelo sucesso da série, recebeu vários prêmios e o reconhecimento de crianças do mundo todo. Pude entrar no universo mágico dos Moomins graças à leitura coletiva de Abril (@ensayosdeabril). Gostei especialmente de Hemulen, um cientista apaixonado por descobrir novas espécies. O retrato das figuras femininas (como a mamãe Moomin, sempre preocupada com os outros e nunca consigo) incomoda um pouco, mas é a visão do tempo em que foi escrita.

Gente pequena, gente grande (Stéphanie Vander Meiren / Aurélie Romain)

Páginas que crescem conforme a vida da protagonista se expande: a graça de Gente pequena, gente grande é proporcionar uma experiência bastante sensorial e visual do que significa a passagem dos anos. Enquanto o bebê tem uma filipeta com pouco texto e a ilustração de poucos acessórios, a velhinha de 86 anos precisa de uma página dupla e um acumulado de pertences e contatos feitos ao longo da vida. E, no entanto, assim como o bebê, ela mal se lembra dos acontecimentos anteriores, o que nos leva a questionar o porquê de tanta acumulação... ou mesmo dessa nossa correria. Um livrinho (ou um livrão) sensacional.

Não quero usar óculos (Carla Maia de Almeida e Daniel Letria)

Para as crianças que receiam passar a ver o mundo com outras lentes, o livro parece ser uma boa pedida. O que a autora e o ilustrador fazem é tecer possibilidades de modos de enxergar, criando uma situação inusitada a cada hipótese que lançam. Não é o meu tipo preferido de livro para a infância, contudo. Talvez um certo didatismo, talvez a falta de trabalho com os reais motivos que fazem a criança rejeitar o óculos... não tenho certeza, mas algo na obra não me fisgou.

Sagatrissuinorana (João Luiz Guimarães e Nelson Cruz)

Que porrada. Não consigo pensar em outra forma para definir Saga , ainda que o meu tom despropositado em nada reflita a linguagem profundamente poética desta obra. Desde o título inusitado para um suposto livro para infância, Sagatrissuinorana  é um susto contínuo, uma reviravolta mais potente que a outra. Poucas páginas bastam para nos arrastar para o meio do redamunho. E do meio do pé de vento retornamos ao princípio: uma das muitas belezas, aqui, é a brincadeira entre a atemporalidade dos contos de fadas e as datas marcadas de nossas tragédias, o que foi o início de tudo e o fim que não marca um ponto-final na história.  Voltando ao recomeço, cada releitura de Saga apura nosso olhar para tudo o que o envolve. Não foi à toa que o Jabuti premiou autor e ilustrador pela primeira vez em sua história: afinal, aqui a narrativa se tece a muitas mãos, inclusive as de Guimarães Rosa. 

Um dia, um rio (André Neves e Leo Cunha)

Meu contato com a literatura infantil não se encerrou na infância; há algo do universo do livro ilustrado e do livro para crianças que continuamente me cativou. No entanto, nem sempre tive um bom olhar para percorrer com paciência as páginas dessas publicações – ao reler muitas das minhas resenhas sobre literatura infantojuvenil, reparo na minha pressa ao me defrontar com livros que, apesar do aparente pequeno tamanho, exigem uma atenção concentrada de seu leitor. Um dia, um rio foi uma obra que me emocionou, há dois anos – antes ainda do desastre de Brumadinho. E agora, com um novo caso de rompimento de barragem em Minas, suas palavras ganham um tom quase profético. Não é à toa que o grande vencedor do Jabuti deste ano ( Sagatrissuinorana ) retoma o mesmo tema usando também a linguagem do livro ilustrado. Hoje, meu olhar percorre com mais vagar cada imagem da obra. Vejo as cores a invadirem as páginas, o rio de sangue que se forma aos poucos, o menino soterrado que pede ajuda em sua ...

O jardim (Carlos Drummond de Andrade/Atak)

Há uma frase de Cícero (se não me engano) que afirma: aquele que tem uma biblioteca e um jardim não precisa de mais nada. Essa publicação da Companhia das Letrinhas é o objeto que incorpora essa máxima em toda a plenitude: além de passearmos pelas palavras de Drummond (trechos esparsos recortados de sua produção), pousamos o olhar nas flores e ervas que crescem pelas páginas. Cada virada de folha é uma semente nova que brota no jardim, criando inumeráveis possibilidades de palavra e ilustração. E que bonito é ver tudo crescer e ramificar em nós.

310 perguntas que nunca fiz ao meu avô (Fernando Bonassi/Luiz Maia)

Não há pontos finais neste livro infantojuvenil; do começo ao fim, somos engolfados em uma maré de perguntas. E, entretanto, a obra trata sobre aquilo que encerra todos os discursos, o ponto final definitivo: a morte de quem amamos. A relação do autor com seus avós passa longe de ser idílica (e justamente por isso mais nos toca). É justamente nos diálogos que não ocorreram, nos espaços em branco do pouco tempo de convivência, que o autor encaixa seus perspicazes questionamentos. 

Da pequena toupeira que queria saber quem tinha feito cocô na cabeça dela (Werner Holzwarth & Wolf Erlbruch)

Uma parte dos estudos freudianos passa por estudar a relação da criança com as próprias fezes – bem a grosso modo, um pequeno que não se entende com seu cocô pode crescer um adulto bastante mal resolvido. Esta preciosidade de livro infantil dá conta, com leveza e graça, desse e de outros assuntos que geralmente não descem bem. Além de tudo, tem um humor divertidíssimo e trabalha muito bem as relações com a natureza.