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Mostrando postagens com o rótulo filme japonês

Nope (filme de 2022)

Talvez a missão de todo filme de terror seja deixar o espectador desconfortável; contudo, no modelo clássico do gênero, à apreensão sucede-se o alívio de descobrir a fonte do mal e eliminá-la. Em “Nope”, o incômodo maior não vem das cenas de sangue e morte (que não são poucas), mas de não entender nada do que acontece ao redor dos personagens. Não se trata, por isso, de uma obra ruim. A prova de sua qualidade são as inúmeras hipóteses dos espectadores sobre as intenções do diretor, que surgem logo após o término da exibição. Tampouco se trata de um enredo extremamente difícil; algumas alegorias se repetem com frequência, até se tornarem mais claras para quem tenta desvendar os enigmas da produção. Contudo, há uma ondulação de diferentes ritmos ao apresentar a história que não ajuda a sustentar o interesse até o final da trama. Além disso, o fato de contar com um protagonista que literalmente baixa a cabeça diante do perigo ainda é uma questão que me incomoda (e talvez devesse mesmo inc...

Roda da fortuna e da fantasia (filme de 2021)

Nesta roda, temos três histórias que tratam da coincidência e de atos falhos que determinam, para sempre, o destino das personagens. Os acasos que permeiam a trama não são o suficiente, entretanto, para ligar a vida das protagonistas – cada uma das três narrativas é um conto isolado, sem relação com os demais. Os bons e longos diálogos provavelmente são o elemento mais bem construído do todo. Com estranhamento, silêncios, pausas, as conversas se desenrolam de modo surpreendente e vão revelando muito de cada um dos interlocutores. A primeira trama, sobre um casal de ex-namorados e uma amiga em comum, é a mais fraca e também mais novelesca do conjunto. A segunda, sobre uma aluna que tenta seduzir seu professor, tem bons momentos (e traz um diálogo hilário sobre o mercado editorial, ao final). A terceira, por fim, talvez seja a que mais dependa do acaso, unindo duas completas desconhecidas – e, para mim, também é a narrativa mais bonita e delicada.

Lost in translation (filme de 2003)

Costumo associar os filmes de Sofia Coppola a personagens quebradas vestidas de rosa. A diretora subverte a ideia de uma feminilidade ideal e sensualizada ao compor figuras bastante complexas dentro desse estereótipo. Lost in translation  abre com um close na calcinha de Scarlett Johansson, e só aos poucos vamos conhecendo as motivações e dúvidas que angustiam a protagonista. O personagem interpretado por Bill Murray se oferece de maneira mais imediata (e desiludida) ao espectador, ainda que seja também um personagem bastante complexo. Costumo gostar de filmes que retratam encontros fortuitos e significativos; ainda que este caso não seja uma exceção, tenho algumas ressalvas à obra. A mais forte delas é o preconceito presente em algumas cenas e um olhar pouco delicado perante a cultura alheia. 

Ensaio sobre a cegueira (José Saramago) + filme de 2008

Quando muitos anos me separam de uma leitura, geralmente retenho mais a sensação do encontro com a obra do que detalhes de enredo, aspectos da narração, personagens. Contudo, Ensaio sobre a cegueira  é um livro do qual ainda muito me recordava. Se algo estava mais oblíquo nas minhas memórias, provavelmente era o poder de escrita de Saramago. E o final de livro e filme, ao qual tinha atribuído uma solução ingênua, sem perceber a potente ambiguidade que carregam. Fui engolfada pelas palavras do escritor, ainda que recordasse de antemão boa parte dos acontecimentos da trama. Deparei-me com uma perspectiva mais crítica em relação ao romance (muitos questionam, por exemplo, um suposto discurso capacitista), mas a verdade é que pouco me incomoda profundamente no romance. Até alguns aspectos que esbarram no machismo (como o fato de a personagem principal ser apenas "a mulher do médico") podem ser lidos em um leque mais abrangente, em que essas disparidades do discurso são o reflexo ...

Wittgenstein (filme de 1993)

Pensado inicialmente como um especial para televisão e formatado com elementos muito próprios do teatro, Wittgenstein é um filme que passeia com leveza por diferentes linguagens, ao mesmo tempo que nos questiona profundamente sobre o âmago filosófico da linguagem em si mesma. Para mim, que pouco conhecia do linguista, a obra funcionou quase como uma explicação didática: cita quem ele foi, suas contribuições enquanto estudioso e seus pares na época em que viveu. No entanto, ainda assim parte-se do pressuposto de que o público-alvo do filme é aquele que tem um interesse mínimo nos temas abordados. Mesmo que empregue a linguagem mais leve, própria de quem seria exibido na TV, ainda visa um interlocutor bastante específico. E isso se reflete inclusive nas escolhas estéticas da produção, que brinca com o experimental, o lúdico e o grotesco, criando uma composição predominante agradável... mas que não deixa de ser perturbadora.

Wilde, o primeiro homem moderno (filme de 1997)

Uma biografia todinha socada em 2 horas de filme. Ainda que tenha pontos positivos, a impressão que tive ao assistir à obra sobre Wilde é que ela seria muito melhor desenvolvida em uma série, com espaço para os acontecimentos e sem os cortes bruscos entre uma passagem e outra da vida do autor retratado. Outro ponto que combinaria melhor com uma série é o fato de não haver carga dramática o suficiente,  por mais que Stephen Fry se assemelhe fisicamente ao protagonista . As cenas de descoberta da sexualidade são boas, e poderiam ocupar boa parte da trama de uma produção televisiva mais longa. Assim, quem sabe, o desfecho trágico de Wilde (tão superficialmente retratado) nos incomodaria menos, já que não seria a proposta principal. Ainda sobre Fry, também me incomodou não escolherem nenhum outro autor para interpretar Wilde nas diferentes fases da vida. Em uma época pré-tecnologias sofisticadas de edição, fica difícil de engolir um senhor de 40 anos interpretar um menino de 18. O que ...

Assunto de família (filme de 2018)

As temáticas abordadas em "Assunto de família" podem parecer inéditas a quem pouco conheça cinema oriental - afinal, desconstroem a ideia do Japão como um país sem pobreza. No entanto, a pauta da miséria e do abandono têm se tornado mais recorrentes; para comprovar essa tese, basta assistir ao ganhador do Oscar de 2020. Outro filme que espelha os temas de "Assunto de família" é o também japonês "Ninguém pode saber" - no qual crianças sobrevivem escondidas em um apartamento, sem supervisão de nenhum adulto. Assim como nas obras com as quais dialoga, este é um filme de clima sombrio, em que pouco é explicado. Ainda que haja uma grande revelação ao final, ela não dá conta de responder a todas as questões que o enredo propõe. Muito fica subentendido e o desenrolar da história é bastante ambíguo. Nesse aspecto, a seleção de uma personagem criança para compor o conflito principal da narrativa é muito adequada - tal como ela, o espectador não conseguirá enten...

Get out! (filme de 2017)

O gênero de filmes de terror, em sua tradição direcionado ao efeito catártico, dificilmente surpreende o espectador pelo enredo. Ao menos quando falamos em longa-metragens estadunidenses de grande bilheteria, o que se espera é um consumo fácil, sem grandes complicações. É justamente ao ir contra essa corrente que "Get out!" inova. É terror problematizador, que consegue garantir doses de adrenalina na mesma medida em que suscita questões incômodas. Mais do que apavorar, a obra provoca: qual é o limite do nosso preconceito? A convivência pacífica entre etnias é possível? Como conviver com o que é diferente sem querer eliminar essa distinção? Outro aspecto excelente é a ironia bem pensada. A ideia do branco "bonzinho", descolado, eleitor de Obama, é desconstruída de forma crua. Ao final da exibição, se não pregarmos os olhos à noite, não é por procurar monstros embaixo da cama - mas sim dentro de nós mesmos.

Quando Marnie estava lá (filme de 2014)

Obras direcionadas às crianças devem ter consciência de que podem ser importantes fatores no seu processo de formação. No entanto, algumas criações levam esta ideia muito a sério, subestimando a inteligência dos pequenos para forçar uma lição de moral e bons valores (que, por sua vez, pode ser extremamente superficial). Nesse contexto, "Quando Marnie estava lá" ganha credibilidade por conhecer o público a que se destina, não subjugando sua capacidade de compreensão e nem se esquivando a trabalhar assuntos mais complexos. O drama de uma garotinha que tem dificuldades de relacionamento e de aceitar o fato de ter sido adotada é o que dá o mote da história. Com problemas de saúde e encaminhada para a casa de parentes no campo, a menina aos poucos entra em contato com personagens que revelarão um pouco de suas origens. Apesar de bastante interessante para crianças, não há nada de excepcional na obra - o roteiro é razoável, os traços da animação bonitinhos, a trilha sonora ok. ...