Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens com o rótulo Literatura francesa

Uma morte horrível (Penélope Bagieu)

Quadrinho divertido, que trabalha tanto aspectos do mundo editorial quanto o cenário e os estereótipos franceses: Uma morte horrível é um livro talvez despretensioso, mas muito eficaz enquanto bom entretenimento. Dei boas risadas com a figura do escritor sorumbático e da protagonista avoada; além disso, algumas cenas têm o tom de Amélie Poulain , levando-nos a passear por Paris de forma graciosa. Entre o thriller  e a comédia, é uma leitura que vale a pena, nem que seja apenas para se deliciar com a reviravolta que marca seu final.

Gente pequena, gente grande (Stéphanie Vander Meiren / Aurélie Romain)

Páginas que crescem conforme a vida da protagonista se expande: a graça de Gente pequena, gente grande é proporcionar uma experiência bastante sensorial e visual do que significa a passagem dos anos. Enquanto o bebê tem uma filipeta com pouco texto e a ilustração de poucos acessórios, a velhinha de 86 anos precisa de uma página dupla e um acumulado de pertences e contatos feitos ao longo da vida. E, no entanto, assim como o bebê, ela mal se lembra dos acontecimentos anteriores, o que nos leva a questionar o porquê de tanta acumulação... ou mesmo dessa nossa correria. Um livrinho (ou um livrão) sensacional.

Aqueles que queimam livros (George Steiner)

Esta é uma obra que me fisgou pelo título – mas, ao me levar pelas aparências, não pus igual atenção à casa editorial que a publica. Ainda que disponha de obras fundamentais em seu catálogo, a Âyiné é também a responsável por lançar a Biblioteca Antagonista por aqui. Ou seja, ainda que bem fundamentada na escolha de alguns clássicos, a linha teórica com que nos deparamos em seus títulos selecionados é bastante conservadora. O discurso que preza pela educação clássica (e, logicamente, meritocrática) tem sido retomado com ênfase em alguns campos de estudo. E é justamente essa ideia que Steiner defende – sem perceber que invalidar métodos modernos de estudo é também uma forma de queimar livros... ou seus leitores. São vários os temas relacionados à área dos livros ao longo da obra; contudo, o que mais me chamou a atenção e parece percorrer todos os textos que a compõem é a ideia de que existe uma leitura certa e uma leitura errada. E, como boa leitora errada que sou, não quis me atentar a...

Le pendentif (Sylvie Lainé)

Uma das piores partes da aprendizagem de línguas, para mim, é a passagem pelos livrinhos produzidos para estudantes do nível A1/B1. No entanto, como nem sempre consigo substitutos possíveis para eles (como bons livros de literatura infantojuvenil ou HQs), acabo me rendendo à praticidade – que raramente vem atrelada a um bom enredo ou a um conjunto de informações interessantes. "Le pendentif" não é de todo mal, mas passa longe de ser um livro indispensável (ao menos no caso de quem não está ainda engatinhando na língua).

Ponto cardeal (Léonor de Récondo)

Ponto Cardeal  recebeu o prêmio de melhor livro pelos estudantes de Ensino Médio da França. O romance toca em questões urgentes, necessárias, pois detalha o processo de autodescoberta de um homem trans. Ainda assim, não posso negar que a premiação recebida me pareceu bastante significativa pelo tom leve de ensinamento que traz – algo próximo de nossa Coleção Vaga-Lume. Questões de representatividade são sempre complexas – e, em um mundo literário no qual pouco se fala delas com seriedade, qualquer obra escrita com boa fé já é um feito notável. No entanto, talvez a maior parte dos méritos do romance de Récondo fiquem na intenção, e poucos na literariedade em si da obra. Por ter sido escrito da perspectiva de uma mulher cis, apresenta problemas de verossimilhança na construção da personagem principal. Além disso, outras pautas de não menor importância (como o machismo da protagonista) são ignoradas na trama. Se é uma boa tentativa, está longe de ser um livro sem falhas.

El informe de Brodeck (Philippe Claudel) + HQ de Manu Larcenet

Tendo a ver com desconfiança obras contemporâneas de arte baseadas na Segunda Guerra Mundial; afinal, a overdose  de filmes e romances criminalizando os nazistas não parece ter sido o suficiente para impedir o ressurgimento da extrema direita e nem para brecar os inflamados discursos autoritários que nos cercam e cerceiam. Contudo, não só me rendi a "El informe de Brodeck", como o registrei dentre minhas melhores leituras ao longo da vida. Philippe Claudel tem a maestria de lidar com um contexto saturado e, ainda assim, saber extrair dele o inusitado, o absurdo, o mágico. Um dos recursos empregados pelo escritor para não cair em clichês sobre a guerra foi situar sua narrativa em tempo e espaço indefinidos. Assim, com um quê de fábula (ou de mito fundador), a narrativa trabalha valores universais que extrapolam o contexto de uma época. Com um narrador "profissional", encarregado de relatar o que acontece em seu povoado, a história traz à tona também questõ...

Canção de ninar (Leïla Slimani)

O arquétipo da babá que mata as crianças não é uma novidade na nossa cultura - veja-se "A mão que balança o berço", "Minha babá é uma vampira", "A babá" (série de terror), dentre outros exemplos que qualquer busca rápida pelo Google nos fornece. Assim, com um tema tão batido, o que diferencia o livro da autora franco-marroquina Leïla Slimani? Primeiramente, obra dificilmente poderia ser considerada um suspense, já que deixa bem claro seu desenlace logo ao primeiro parágrafo: "O bebê está morto. Bastaram alguns segundos. O médico assegurou que ele não tinha sofrido. Estenderam-no em uma capa cinza e fecharam o zíper sobre o corpo desarticulado que boiava em meio aos brinquedos. A menina, por sua vez, ainda estava viva quando o socorro chegou. Resistiu como uma fera. Encontraram marcas de luta, pedaços de pele sob as unhas molinhas. Na ambulância que a transportava ao hospital ela estava agitada, tomada por convulsões. Com os olhos esbugalhados pare...

Eugénie Grandet (Balzac)

Uma das histórias que compõem talvez a maior série ocidental - A comédia humana , de Balzac -, Eugénie Grandet  pertence ao arco de narrativas provincianas. Assim, seus tipos humanos contrastam com a euforia de uma Paris em festa, apegados a valores e costumes mais tradicionais. Romance malogrado, desfecho melancólico - não há muitos elementos sobressalentes nesta trama interessante, porém bastante simples. Se algum fator merece destaque, certamente é o personagem do senhor Grandet, retratado como um ávaro para Tio Patinhas nenhum botar defeito. Ainda que muito caricato, seu apego ao dinheiro pode representar uma crítica à classe burguesa ascendente da França de então. É um romance característico do Realismo não apenas pelo seu retrato desesperançoso da raça humana, mas também por toda a estética empregada. A minuciosidade na descrição de detalhes, por exemplo, pode ser um ponto de distanciamento do leitor atual - contudo, aos poucos a narrativa pega no tranco e se desenvo...

Contos da Mamãe Gansa (Charles Perrault)

Ao fechar as portas, ano passado, a Cosac&Naify encerrou um catálogo feito para apreciadores de livros; difícil vai ser encontrar uma editora tão feliz na escolha das publicações e tão atenta a detalhes que fazem toda a diferença no mundo dos bibliófilos. Dentre as pérolas publicadas recentemente, estavam os contos de 3 grandes recopiladores de histórias populares: Esopo, os Grimm e Perrault. Apesar de ser a edição menos volumosa de fábulas, os Contos da Mamãe Gansa foram editados com tanto capricho que é difícil não se deixar conquistar pela estética da obra. As páginas são diagramadas em papéis diferentes, por ilustradores diversos, criando um universo único para cada uma das narrativas que a compõem. Deixando de lado a forma, a surpresa continua diante do conteúdo. Para quem não conhece as versões originais dos contos de fada, talvez a surpresa seja grande. Em vez de um mundo mágico de bondade, em que tudo se resolve com um final feliz, as fábulas estão permeadas d...

Olhos azuis cabelos pretos (Marguerite Duras)

Um dos romances que mais me impressionou na adolescência foi "O amante", de Marguerite Duras - apesar da história curta, o modo particular de escrita da autora francesa ficou gravado na minha memória afetiva. Em "Olhos azuis cabelos pretos" já não senti tanta afinidade pelos personagens ou pelo enredo em si. Ainda que a narrativa de Duras continue sendo arrebatadora, e gere mais questões do que resolva-as, não senti uma conexão profunda com as paixões mal resolvidas de seus protagonistas. Trata-se de um livro muito pequeno, mas consideravelmente hermético. Seus personagens beiram o inverossímil ou, talvez, a loucura, em ações descoordenadas e entre pedaços de amor mal costurados. É potente, mas não me cativou.

A tentação do impossível (Mario Vargas Llosa)

Compilação de um curso ministrado pelo autor peruano, "A tentação do impossível" traz uma interpretação bastante sensata da obra magistral de Victor Hugo. Apesar de ser, claramente, um grande fã das aventuras de Valjean e Javert, Llosa não deixa de registrar o que considera inverossimilhanças ou exageros no romance - bem como explica por que até eles podem ter sido empregados intencionalmente. Llosa analisa bastante a potência da voz do narrador na história - onipotente, onisciente, argumentativa, irrevogável. O poder de um deus sobre seus personagens cai como uma luva em um livro bastante católico, cujo prefácio, por exemplo (nunca terminado) tinha a intenção de provar a existência do divino. Marius é identificado como um personagem medíocre na história, assim como Cosette representa a futilidade - posições com as quais me identifiquei - em um contexto em que os personagens são quase todos sobre humanos, seja na miséria, seja na bondade. Os traços teatrais da obra t...

Os miseráveis (adaptação de Luc Lefort)

Nunca tinha visto uma adaptação de um livro pela metade. Luc Lefort reconta a história de Jean Valjean apenas até o ingresso de Cosette no convento e adianta a revelação das últimas páginas da obra de Victor Hugo (de que Fantine é a mãe da menina) apenas para conseguir dar um desfecho ao seu reconto forçado do clássico francês. Não trata-se de uma adaptação, mas de uma outra história, moldada ao bel-prazer de seu autor. Em vez de adaptação, seria mais justo que a capa da obra afirmasse que é apenas livremente inspirada em Les Misérables. Além disso, apesar de ser uma obra voltada a crianças, as ilustrações são medonhas, o que não condiz com o público-alvo.

Os miseráveis - adaptação de Walcyr Carrasco

Apesar de que qualquer tentativa de adaptar "Os miseráveis" acabe caindo na ideia de resumo, uma vez que a obra original é bastante extensa, o reconto de Walcyr Carrasco é interessante. O adaptador/tradutor, ao invés de facilitar a obra para o jovem leitor, prefere trabalhar com glossário ao pé da página, o que é bastante proveitoso para formar leitores mais perspicazes, enriquecendo seu vocabulário e contextualizando o enredo aos poucos. A parte histórica deixou a desejar, já que o foco parece ser mais as relações familiares de Jean Valjean, Cosette e Marius. De qualquer forma, para a pouca extensão da obra, seria difícil um livro sem falhas.

Os miseráveis (Victor Hugo)

É muito difícil não se deixar agradar pela leitura de "Os miseráveis" - nas pouco mais de 1500 páginas do livro, algum trecho deve conseguir cativar o leitor, por mais diverso que seja o público receptor deste romance ao longo dos séculos. São tantos os personagens, situações e contextos descritos no livro que é difícil não sentir empatia por alguma faceta do grande cenário humano desenhado por Victor Hugo. O primeiro que se deve saber, contudo, antes de começar a leitura, é que trata-se de um romance com forte cunho historiográfico. Além de acompanhar as intrigas da vida de Jean Valjean, Javert, Cosette, Fantine, o leitor será informado sobre toda a situação política da França (especialmente em Paris) alguns anos após a Revolução Francesa. Uma vez que o autor escreve aos seus contemporâneos, um pouco de pesquisa histórica antes da leitura ajudará a entender não só o contexto, mas as opiniões políticas do narrador, indispensáveis para compreender o desenrolar da trama....

Madame Bovary (Gustave Flaubert)

Clássico sempre comentado nos cursos de Letras, sempre acreditei que Madame Bovary era a história de uma mulher fútil, iludida por romances água-com-açúcar, que resolve trair o marido em busca de um amor como o dos livros. No entanto, gostei da obra de Flaubert porque percebi que ela é muito mais do que isso: trata-se de um livro irônico, que tem como principal crítica a eterna insatisfação humana, a constante busca por mais posses, títulos, fama. Ao contrário do que é estereotipado, Ema Bovary não é uma tola; apesar de suas eternas ambições insatisfeitas, ela é muito mais astuta que o marido, este sim a figura do vulgar "corno manso". O sr. Bovary é de uma vanidade terrível, um personagem não só sem malícia, mas também sem graça, sem cor. O farmacêutico Homais é, por sua vez, o homem bajulador e aproveitador, sempre em busca de condecorações e fama. Nesse mosaico de personagens falhos, fracos, cheios de defeitos, o escritor desenha sua crítica social, q...

Fábulas (La Fontaine)

"Permitam-me iniciar essa resenha com uma nota pessoal: sou um admirador semicontido de ditos populares. Já ouvi muito ser dito a respeito de serem eles chavões, frases feitas ou expressões tão gastas que perderam seu sentido, mas não consigo deixar de estender meus pensamentos à reflexão cada vez que um deles é utilizado em minha presença. Há aqueles clássicos como “Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura” ou “Em casa de ferreiro o espeto é de pau”. Tem alguns outros que carregam uma advertência velada, como “Em boca fechada não entra mosquito” ou “O apressado come cru”. Isso sem contar um dos meus favoritos, que considero rascante, que é “Caixão não tem gaveta”. É um fato que tirando-os dos contextos em que foram utilizados, eles acabam perdendo um pouco de sua força. Isso não deixa, contudo, que eles percam aquele algo de ligeiramente filosófico que há em cada um deles, ainda que a pessoa que os utilize muitas vezes o faça mais pela repetição oportuna do que propria...