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Mostrando postagens com o rótulo filme espanhol

Um conto chinês (filme de 2011)

A situação absurda nos faz esquecer do aviso ao início: "baseado em fatos reais". Existe lógica para a vida? Para o protagonista desta trama, interpretado pelo sempre maravilhoso Ricardo Darín, não. Ainda que esse personagem se esmere em cumprir pontualmente a sua rotina, sua crença é de que a vida é um turbilhão sem sentido, som e fúria significando nada... Do encontro do chinês atingido pela vaca voadora com o argentino pontual e quase-niilista resulta uma amizade surpreendente e bastante divertida. Não se assustem com a falta de legendas para os diálogos em mandarim: o objetivo do filme é justamente focar o lado incompreensível das relações humanas.   Humor fino, discussão das relações humanas, alfinetadas em preconceitos, atuações maravilhosas e uma vaca muito carismática. Um filme diferentemente bom.

Os amantes do círculo polar (filme de 1998)

 Uma boa obra de arte costuma despertar outras referências, em um diálogo com as produções que a antecederam ou as que se inspiraram posteriormente nela. Tematizando as relações de acasos e desencontros de um casal apaixonado, o filme me lembrou demais "Medianeras" - mas com um toque mais dramático espanhol.  A narração sabe usar muito bem idas e vindas no tempo e a perspectiva de uma mesma situação por diferentes personagens. Dessa forma, a trama de acasos também se tece pela incerteza com que se conta.

100 metros (filme de 2016)

Inspirado em uma história real, o filme traz como protagonista um jovem publicitário que descobre ter esclerose múltipla. Ao sentir que perderia o controle sobre seu corpo, decide testá-lo até o limite em uma prova de Iron man - em que correr 42km é apenas uma das etapas a serem cumpridas. Ramón Arroyo, em quem o filme se inspira, acompanhou a produção, mas afirma que há uma boa dose de elementos ficcionais na trama. A narração dá uma boa exagerada no sofrimento (que já é enorme) para tentar sensibilizar ainda mais a audiência. De qualquer forma, é uma boa história de superação.

Hasta que nos volvamos a encontrar (filme de 2022)

Em inglês, o título do filme é "Backpackers" - mas o que não faltam aqui são incoerências e clichês para retratar quem faz da viagem seu destino. A menina mochileira está sempre festejando e fazendo artesanato, com uma roupa furada, tentando superar um trauma de infância enquanto viaja o mundo... até encontrar o espanhol colonizador (digo, conquistador) do seu coração peruano. Gostei de rever os lugares por onde passei quando fiz a trilha Salkantay (apesar de várias gafes do filme darem a entender que os atores sequer fizeram ou entenderam o percurso completo). A cena do casal apaixonado chegando a uma Machu Picchu vazia, sem nenhum turistazinho, é a cereja do bolo.

A flor do meu segredo (filme de 1995)

Bem almodovarístico, o filme tem segredos revelados, reviravoltas, estética kitsch e uma certa dose de brega chic (seja nos cenários, seja nos diálogos melodramáticos). Com uma protagonista escritora e revelando um pouco dos percalços do mundo editorial, é um bom filminho para quem gosta do tema. As discussões não chegam a ser aprofundadas (há tantas subtramas no filme que nada parece ser prioridade), mas algumas poucas cenas trazem interessantes reflexões sobre a linguagem.

Dezessete (filme de 2019)

Road movie de personagens separados pela vida e unidos na viagem: apesar da trama já ser velha conhecida de outros enredos, a fórmula ainda funciona muito bem em "Dezessete". Demora um pouco para o tema principal do filme ficar claro para o espectador; no entanto, a confusão é proposital, já que vamos descobrindo quem os personagens são ao longo da estrada. Com um tom leve, o enredo me lembrou filmes como "Pequena Miss Sunshine" e "Rain Man". E, tal como eles, é uma obra sem grandes pretensões... e que, por isso, sabe como conquistar seu valor.

Madres paralelas (filme de 2021)

​ Em "Madres paralelas", Almodóvar parece ter se formado na mesma escola de Manoel Carlos. Pois é, pensa num novelão cheio de reviravoltas. E, se não há uma Helena por aqui, há a presença carimbada de Penélope Cruz como elemento de continuidade. Até as cores marcantes, tão características da estética de Almodóvar, ganham um toque refinado nesta última produção. É como se, em vez do kitsch dos primeiros filmes, estivéssemos diante de um catálogo da Farm: ainda colorido, mas querendo ser elegante. O lado político da narrativa é mais evidente e permeia o filme como um todo - não é como em "Carne trêmula", em que a crítica à ditadura é apenas uma moldura tímida. Todas as mortes do totalitarismo espanhol são o tema principal deste filme, bem como seu contraposto: as novas vidas que germinam no agora.

Volver (filme de 2006)

Um bom filme com a marca de Almodóvar: muita cor, estética kitsch (um antepassado do cringe), drama repleto de reviravoltas (algumas um tanto previsíveis) e com Carmen Maura e Penélope Cruz divando. O estupro é uma temática forte em Almodóvar – e é claro que a perspectiva de um homem sobre o tema sempre será questionável e incompleta. Em "Volver", contudo, as heroínas são as mulheres que matam quem as viola... ao contrário do que se passa em outras obras do diretor, em que o estuprado é o protagonista em busca de redenção.  

La teta asustada (filme de 2009)

Dirigido por uma mulher, o filme trata do medo incontornável do estupro – é um convite ao diálogo com todas nós, que compartilhamos o mesmo temor. E ainda há a violência de classe, o sincretismo cultural, a música como catarse, a morte como âncora. O filme está cheio de cenas que são uma grande bagunça sincrética e alegórica somada à exuberância das cores na aridez do deserto. E uma fotografia apurada para significar o que parece caos.

Mal día para pescar (filme de 2009)

Sob a direção de Álvaro Brechner, que também foi responsável pelo excelente "O sr. Kaplan", "Mal día para pescar" é um filme com bons elementos, mas que não chega a ser grandioso. O que chama a atenção na obra? A contraposição entre força e delicadeza, Europa e interior do Uruguai, masculino e feminino, verdade e distorção dos fatos. São todos aspectos bem trabalhados, mas que talvez não se enlacem bem o suficiente para criar uma trama mais forte. Além do mais, o tema central (lutas livres) não é de agrado de todos, inclusive o meu. Quem sabe, se o pano de fundo fosse outro, a narrativa poderia se desenvolver ainda mais.

O homem que matou D. Quixote (filme de 2018)

A figura do cavaleiro andante em cenários mais contemporâneos é uma temática que me agrada muito, especialmente no cinema. Entre exemplos que me marcaram, estão "O homem que era o super-homem", coreano, e "O sr. Kaplan", uruguaio. Em "O homem que matou D. Quixote", uma produção espanhola, também temos o elemento do estranhamento com personagens que falam em inglês quase o tempo todo. Uma das curiosidades dessa produção é o fato de ter levado quase 30 anos para ficar pronta. Talvez tanto tempo no forno seja o sucesso da obra, que é toda bem amarradinha, mesmo que essa coerência interna pareça difusa no ambiente quase carnavalesco em que se desenvolve a trama principal.  Há algo de surrealismo no longa (que me lembrou Jodorowsky), mas que se casa muito bem com o plot original do Quixote – afinal, mesmo escrito há tantos séculos, continua sendo uma das obras mais contemporâneas que temos.

Carne trêmula (filme de 1997)

Colorido, sensual, kitsch e cheio de reviravoltas: Carne trêmula  é um filme que carrega as marcas do que considero uma estética almodovariana. Entretanto, apesar de captar a atenção do espectador, não é uma obra que vá muito além de oferecer uma trama entre divertida e interessante, por mais que seus minutos iniciais deem a entender que haverá um viés político inerente à produção. Talvez o filme, ao apresentar uma moldura inserida no contexto político da época, prometa além do que consegue cumprir. Outro problema que nos distancia hoje do longa é o fato de um de seus personagens principais ficar paralítico – o que, dependendo do olhar que elegemos, pode conferir um certo discurso capacitista à trama. Não se trata de uma produção que resistiu sem falhas ao passar do tempo, mas talvez nenhuma das obras de Almodóvar o tenha conseguido. Contudo, para quem gosta de acompanhar a produção do diretor, continua sendo um filme que traz entretenimento.

Durante a tormenta (filme de 2018)

O aspecto sombrio e aterrador de Durante a tormenta  não se prolonga muito além do título e dos minutos iniciais do longa – o que talvez seja o ideal para uma produção que trata de viagem no tempo. Insistir demais na própria seriedade levaria a perguntas sem fim sobre o eterno paradoxo que caracteriza o tema: afinal, haveria forma possível de voltar ao passado sem alterar o futuro? Ao deslocar-se das sombras para ir, aos poucos, construindo uma história mais próxima dos thrillers e das empolgantes narrativas de detetive, o filme encontra seu tom certo. O objetivo é conquistar o espectador e levá-lo a imaginar as outras possibilidades de desenvolvimento da história nas idas e vindas temporais, sem caracterizá-las com nenhuma frágil explicação científica. O foco é o entretenimento e o jogo com as possibilidades que o tempo oferta.

Profissão: repórter (filme de 1975)

Como um quebra-cabeça, nada é muito claro em "Profissão: repórter" (péssima tradução, por sinal, de "The Passenger". Afinal, o que o protagonista faz em toda a trama é uma passagem, uma caminhada sem muito sentido — vai de uma vida a outra (usurpando a identidade de um morto), de um deserto afastado a uma cidade movimentada, de um estado de afobação a um de incertezas. E nós, como espectadores, acompanhamos essas passagens, sem conseguirmos traçar claramente aonde dará essa trilha. A ambientação e a fotografia contrapõe belamente os cenários, que caem como uma luva para refletir a inquietação e instabilidade do protagonista. Mesmo quando a câmera se fixa em um ponto (como a bela sequência de imagens que passam por uma janela, ao final), o recorte de cena e a narrativa que é contada são impressionantes. Jack Nicholson, talvez habituado a personagens deslocados, tem uma atuação maravilhosa. Por outro lado, a protagonista feminina é o papel que cabe a Maria Schneider, ...

Eva no duerme (filme de 2015)

A história do corpo embalsamado de Evita é impressionante: como Branca de Neve, a proposta é que a populista argentina ficasse exposta em um mausoléu, que nunca chegou a ser construído (em função da ditadura militar). Quando os milicos assumiram o poder, seu corpo foi vigiado por um coronel e, depois, por um general — inclusive com a acusação de que teria sido violada por um deles. Evita morta vai para o Vaticano; é exigida como troca em um um sequestro; é desenterrada e vista como um milagre pelos coveiros abismados; é enfeite na casa de Perón; é boneca nas mãos de Isabela Perón, que faz compras de roupas e renova seu figurino; é assombração, impedindo o general que a tinha anteriormente sob guarda de ocupar a mesma residência que ela; e, por fim, é enterrada no cemitério La Recoleta. Uma narrativa tão potente tinha de tudo para render um filme bom — mas não é necessariamente o caso. Há uma tentativa forçada de incluir o astro Gael García Bernal em um papel bastante inverossímil, só p...

Josep (filme de 2020)

Josep  é uma animação pautada na vida do desenhista catalão Josep Bartolí, que foi preso em um campo de concentração francês após a Guerra Civil Espanhola. Além de a obra do artista já ser uma boa justificativa para um documentário (ainda mais no formato escolhido, de longa-metragem contado por meio de desenhos), o contexto histórico é outro elemento que angaria a atenção do espectador. O recorte de um período histórico bastante específico, além de retomar a ideia de que não apenas a Alemanha teve campos de concentração, é bastante enriquecedor. Além disso, as demais figuras com que Bartolí se relaciona ao longo da vida – como Frida Kahlo – ajudam a tornar o pano de fundo da vida do artista ainda mais interessante. Outro aspecto que chama a atenção é o fato de passado e presente serem intercalados na obra, mostrando que a falta de humanidade de meados do século XX continua presente hoje – ainda que em contextos menos abrangentes, como em um núcleo familiar pequeno.  

El ángel (filme de 2018)

O filme conta a história real de um jovem assassino e ladrão argentino – que ficou famoso, à época, por sua pouca idade e traços angelicais. A proposta da obra acaba sendo, portanto, trabalhar esse contraste entre a inocência que se perde e uma violência que se afirma fortemente. O ator escolhido para protagonizar o anjo – Lorenzo Ferro – tem traços muito semelhantes ao do delinquente real, o que torna a história bastante crível. Com uma trilha sonora bem escolhida, fotografia ótima e atuações convincentes, é uma obra que consegue tornar uma biografia corrompida em obra de arte.

Jamás leí a Onetti (filme de 2010)

Porta de entrada para a leitura de Onetti, o documentário traça um panorama interessante da vida do escritor uruguaio. No entanto, apesar do título convidativo, é uma obra para iniciados: os entrevistados só são devidamente creditados ao final. Assim, quem não conhece figuras como Jorge Drexler e Eduardo Galeano tende a, talvez, não entender o alcance multilinguístico da literatura produzida pelo biografado.

Senhor Kaplan (filme de 2014)

Filho do meio do diretor uruguaio Álvaro Brechner (cujo caçula é o renomado "Uma noite de 12 anos"), Sr. Kaplan  é uma produção surpreendente. Ainda que o tom de comédia predomine em grande parte da trama, sua carga dramática é de grande potência. Não é à toa que o longa consegue conciliar gêneros tão diversos - um olhar mais atento revela uma forte intertextualidade com Dom Quixote . Assim, nos vemos diante de um Quixote judeu, sobrevivente da Grande Guerra, e um Sancho uruguaio bem mequetrefe. A combinação de temáticas tão diversas só funciona por ser muito bem amarrada e o espectador só tem a ganhar dessa miscelânea inusual.

Uma pistola em cada mão (filme de 2012)

Apesar do título de faroeste, este é um filme que trabalha justamente a fragilidade do sexo masculino. Sua estrutura narrativa é composta de cenas breves, nas quais os protagonistas revelam sua incapacidade de lidar com relacionamentos, frustrações, carreira, vícios.  O entrelaçamento entre as distintas histórias só ocorre no fim (e, ainda assim, de maneira parcial). Dessa maneira, a produção tem um aspecto mais leve, por mais que tente apresentar personagens complexos. Por ter pouco tempo dedicado à revelação dos dramas de cada um, não tem como proposta aprofundar a discussão sobre as falhas masculinas; trata-se mais de um panorama entre melancólico e divertido.