Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens com o rótulo filme sueco

A caça (filme de 2012)

Apesar de saber deste filme desde o lançamento, passei uma década sem coragem de vê-lo. Mais medonho que qualquer filme de terror, a trama parte da ideia de como uma mentira de criança pode arruinar uma vida para sempre. No enredo, um professor de creche é acusado de pedofilia por uma das menininhas da instituição, filha de seu melhor amigo. Uma das grandes sacadas do filme é deixar uma desconfiança de que algo realmente possa ter acontecido (seja com o professor ou com os outros adultos que cercam a criança). Apesar de todas as evidências em contrário, como desconfiar da narrativa de quem é tão inocente? Além das possibilidades de interpretação da história da menina, o que também fica em jogo é a atitude dos adultos. É como se, diante de um problema difícil, ninguém tivesse maturidade o suficiente para lidar com a situação; o que todos procuram são respostas fáceis e um culpado que seja punido – seja com a justiça penal, seja com as próprias mãos. Filmaço.

Clara Sola (filme de 2021)

Longa de estreia de Nathalie Álvarez Mesén, diretora costa-riquenha, “Clara Sola” reverbera alguns aspectos do filme guatemalteco “Ixcanul” (lançado sete anos antes). Não é difícil imaginar por que esses países, com pequenos territórios e uma extensa história em comum, tenham tanto para compartilhar. São as narrativas de povos silenciados por séculos – e ainda pouco ouvidas. Em ambas as produções, a protagonista tem uma relação fortíssima com a natureza, a ponto de se envolver fisicamente com os elementos da floresta. São duas mulheres reclusas em comunidades afastadas, nas quais vigora a tradição familiar e a religião do colonizador. No entanto, apesar das aproximações possíveis, são narrativas com uma trama própria a deslindar. Em “Clara Sola”, o que domina é ambivalência entre normalidade e loucura, profano e sacro, catolicismo e Pachamama, castidade e depravação. Saímos do filme sem ter respostas que desamarrem as ambiguidades; assim, navegamos entre os duplos de uma personagem que...

Inspire, expire (filme de 2018)

Com algo de "Nomadland" (ou talvez alguma semelhança com os filmes de Ken Loach, marcados pelo esgarçamento da linha entre classe média e miséria), a primeira cena de "Inspire, expire" já nos leva para um contexto de pobreza remediada na Islândia. Lembro-me de ter lido este ano (não recordo onde) que o pior tipo de pobreza é aquele que tem de ser disfarçado. É sobre isso que o filme trata, de forma geral: uma mãe que consegue o emprego sonhado na polícia imigratória e que precisa manter a aparência de estabilidade até o fim do período probatório. Aliás, que alegoria linda da narrativa para pensarmos em catracas sociais. Também é uma história bonita sobre amizade e sororidade. Gosto muito de tramas que tematizam o encontro epifânico de desconhecidos - com uma pontadinha de esperança no meio do turbilhão de misérias, fica ainda melhor.

A pior pessoa do mundo (filme de 2021)

Com um conflito de gerações pulsando no centro da trama, o filme retrata as angústias de quem não sabe o que lhe faz feliz. Talvez fosse uma obra sobre autoconhecimento, mas a protagonista parece ocupada demais em mudar de paixão para refletir sobre quem realmente é. É um abismo geracional que dá nervoso - principalmente para quem valoriza estabilidade e certezas, por mais ilusórias que sejam. Contudo, como retrato dos (pós-)millenials, me pareceu bastante certeiro. Incômodo e incompreensível - como qualquer embate de gerações diferentes.

Olmo e a gaivota (filme de 2015)

Alguns dos melhores filmes a que assisti neste ano (mais cinéfilo que os anteriores) foram dirigidos por mulheres: "Ataque de cães", "A teta assustada" e, agora, "Olmo e a gaivota". E a condução de uma trama fora de perspectiva usual faz toda a diferença. Dirigido pela brasileira Petra Costa (de "Democracia em vertigem" e "Elena"), o longa-metragem é um retrato intimista e, ao mesmo tempo, abrangente das questões sociais que a maternidade envolve. Tal como "A história da filha perdida", a trama tem um forte apelo anticoncepcional. Ainda que conte a história de uma gravidez por escolha, é difícil não se impactar pelas restrições e falta de liberdade durante o período da gestação. A linguagem cinematográfica de Petra é construída por reminiscências, baús de guardados dos protagonistas postos em cena. Como o casal filmado trabalha no teatro, as fronteiras entre a realidade e a fição / o drama e o documentário são ondulantes, flex...

The Lamb (filme de 2021)

Com um início bem parado, "The Lamb" me causou uma primeira impressão de desconfiança: tive receio de que fosse mais um daqueles filmes premiados no Cannes, sem diálogos e repletos de naturezas-mortas incompreensíveis do cotidiano. Mas o longa está mais para um surrealismo desvairado que para a pasmaceira - o silêncio que marca os minutos iniciais tem um motivo. Aliás, tudo tem um motivo no enredo, ainda que a premissa que o sustenta seja pura carnavalização. É daquelas obras que vale a pena rever desde o princípio após saber como acaba, só para perceber como todas as pontas foram bem amarradas. E o que parece absurdo, além de questionar nossos limites de verossimilhança, resgata conflitos fundamentais que nos constituem enquanto humanos: a civilização e a barbárie, a natureza e a sociedade, o instinto e a racionalização.

The Square (filme de 2017)

Qual é a utilidade da arte ? Para quem serve a arte contemporânea ? As indagações acima são consideradas inocentes diante do leque de possibilidades de uma obra artística - afinal, ela não tem de servir a ninguém e nem ter um uso funcional para ser carregada de significados e potencializadora da vida. Ideologicamente, portanto, a resposta aos questionamentos surge de forma simples; no entanto, como bem mostra o filme "The Square", a arte é também consumo - restrita, elitista, por vezes degenerada. Absolutamente sarcástico, o roteiro do filme centra-se no contexto de um museu sueco de arte contemporânea, revelando um pouco do backstage  desse universo. Por meio das transações realizadas, da busca por popularidade, da discussão apoiada em jargões vazios, aos poucos o espectador percebe que o ambiente corporativo de um museu pouco difere do de uma empresa ou de um banco. Assim, as perguntas propostas inicialmente se expandem: a finalidade da arte é ser capitalizada ? Quem ...

Deus branco (filme de 2014)

É um excelente filme sobre o melhor amigo do homem - e sem o toque infantil de um Beethoven ou de uma Lassie. Pelo contrário, é uma obra densa em críticas à nossa sociedade, na qual acaba havendo uma rebelião de cães muito semelhante à que ocorre em o Planeta dos Macacos. No entanto, ao contrário do clássico hollywoodiano, a revolta canina é extremamente verossímil e parece bastante possível de ocorrer a qualquer hora. Talvez essa impressão venha da direção excelente, que torna o protagonista cachorro muito instigante. A sua atuação (Hagen, no filme) foi realizada por dois cães (um para cada fase da vida do personagem), que ganharam até uma espécie de Oscar animal. Apesar do viés mais adulto, não é um filme proibido a crianças um tanto maiores - pode ser um forte incentivo a repensar como tratamos os animais. O longa aborda questões como abandono, violência, centros de zoonoses... e até mesmo o tema do vegetarianismo, de maneira implícita.  O ritmo mais parado, n...