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Mostrando postagens com o rótulo Quadrinhos franceses

Un été sans maman (Grégory Panaccione)

Este livro vem com uma instrução de uso: logo na primeira página, uma nota do autor adverte: para ler com calma. Afinal, trata-se aqui de uma história sobre férias inesquecíveis - e quem é que gosta de ver esse período, tão breve, prestes a acabar? Para mim, que repeti o conteúdo na forma (propondo-me esta leitura durante as minhas próprias férias), o livro foi um encontro com tudo o que vivi: o desconforto de estar em uma terra sem a segurança da língua-mãe, a descoberta de um mundo diferente, a intensidade da experiência concentrada em um pequeno período.  A obra traz também alguns conceitos oníricos que beiram o surrealismo: mas qual é, no fim das contas, a viagem que não resvala no lugar mais profundo e enigmático de nossas memórias, criando uma narrativa diferente a cada reencontro?

Olympe de Gouges (Catel & Bocquet)

Olympe de Gouges é uma figura instigante para estudar não apenas as origens do feminismo, mas também a própria história da França. Sempre que revejo os conflitos sociais que levaram à queda da Bastilha, não posso deixar de comparar com a situação atual do Brasil – por aqui, só não parecem terem chegado ainda as guilhotinas, mas talvez porque nosso estado tenha métodos mais eficazes de genocídio, como a fome. Assim, mesmo que se passe há alguns séculos, tanto a história como a personalidade retratadas são extremamente atuais. O quadrinho apresenta alguns dos textos mais famosos de Gouges, permitindo àquele que nunca a leu começar a desvendar os mistérios de sua escrita.

Destino adiado (Jean-Pierre Gibrat)

O timing de lançamento de Destino adiado  foi ideal: afinal, se trata de uma obra que discute a reclusão e o distanciamento social forçados. O mote da história é a deserção de um soldado francês no final da Segunda Guerra, que resolve se esconder em um imóvel abandonado enquanto espera pelo término do conflito. Trata-se de uma narrativa singela, sem grandes feitos ou frases marcantes. No entanto, é surpreendente como o retrato quase bucólico da guerra em uma cidade do interior da França consegue nos cativar – sem deixar de ser revelador na construção dos personagens, afiliados a ideologias opostas. Para coroar a experiência, o traço lindo das ilustrações só reforça a beleza da obra.

Um pedaço de madeira e aço (Chabouté)

"Um pedaço de madeira e aço" parte da mesma premissa de um de meus livros ilustrados/quadrinhos/novela gráfica favoritos: o excelente "Aqui", de Richard McGuire (que, por sua vez, inspirou o roteiro do estranhamente arrebatador filme "A Ghost Story").  Assim como Richard McGuire ambienta sua linha narrativa em um único ponto, contando a história do terreno de uma casa com o passar dos milênios, Chabouté também fixa seu olhar. No entanto, aqui temos uma perspectiva ligeiramente mais móvel, já que o artista francês acompanha não um lugar, mas um objeto ao longo do tempo: um banco de praça. Sem diálogos, toda a trama depende da habilidade narrativa das ilustrações. E, nesse trabalho, Chabouté é muito bem-sucedido: capaz de criar ambiguidades e múltiplas leituras em uma sequência de quadrinhos, sua história a todo momento desafia o leitor a ser mais atento, a saber acompanhar as sutilezas do traço e as várias camadas da história. Ainda que rápido, é uma...

Solitário (Chabouté)

Não só o traço do artista Chabouté é riquíssimo, como ele sabe muito bem como empregá-lo como recurso narrativo. Essa característica, somada à força da história desenvolvida em "Solitário", fazem que a hq em questão seja uma pequena obra-prima. Pouco sabemos sobre os poucos personagens que protagonizam o livro; no entanto, é através das pistas deixadas pela ilustração que criamos nosso próprio desenho mental sobre a trama - tão lacunar e, ainda assim, tão completa.

El informe de Brodeck (Philippe Claudel) + HQ de Manu Larcenet

Tendo a ver com desconfiança obras contemporâneas de arte baseadas na Segunda Guerra Mundial; afinal, a overdose  de filmes e romances criminalizando os nazistas não parece ter sido o suficiente para impedir o ressurgimento da extrema direita e nem para brecar os inflamados discursos autoritários que nos cercam e cerceiam. Contudo, não só me rendi a "El informe de Brodeck", como o registrei dentre minhas melhores leituras ao longo da vida. Philippe Claudel tem a maestria de lidar com um contexto saturado e, ainda assim, saber extrair dele o inusitado, o absurdo, o mágico. Um dos recursos empregados pelo escritor para não cair em clichês sobre a guerra foi situar sua narrativa em tempo e espaço indefinidos. Assim, com um quê de fábula (ou de mito fundador), a narrativa trabalha valores universais que extrapolam o contexto de uma época. Com um narrador "profissional", encarregado de relatar o que acontece em seu povoado, a história traz à tona também questõ...

Placas tectônicas (Margaux Motin)

Com um traço e uma temática muito semelhantes aos da argentina Maitena, a autora Margaux Motin faz, neste volume, uma espécie de autobiografia do período entre o seu divórcio e o início de uma nova relação amorosa. O principal problema do livro não é nem a parte gráfica (que, aliás, é linda), nem o enredo em si, mas a protagonista: a narradora-autora dá mostras de ser uma pessoa extremamente inconstante, reclamona e péssima mãe. Com uma antipatia natural por quem escreveu a história, fica muito complicado gostar do enredo em si. Vale pelas ilustrações.

Asterix y Obelix - 23 (Goscinny/Uderzo)

Nunca havia lido nada de Asterix e Obelix, e esperava um quadrinho bem pastelão, com piadas fáceis e sem muita reflexão. No entanto, meu julgamento pela capa se mostrou muito longe da realidade; ao menos no volume lido, pude me divertir com uma história cheia de trocadilhos linguísticos e uma mordaz ironia sobre como surgiram as relações capitalistas, além da crítica inerente aos poderosos da época romana, como Júlio César. 

Azul é a cor mais quente (Julie Maroh)

Apesar de ainda não ter assistido ao filme, dizem que a graphic novel é muito melhor (e a própria autora afirmou não ter gostado muito da adaptação de sua história para as telonas). No entanto, ainda que isto dê a entender que estamos diante de uma obra de arte quando decidimos ler Azul , não é bem assim. Os pontos fortes da trama são o seu pioneirismo e a delicadeza com que a descoberta da própria homossexualidade é retratada. A autora mostra todos os conflitos advindos da afirmação desse modo de amar e a rejeição pela sociedade. Graficamente, o modo como a cor azul foi inserida é muito interessante, ainda que o traço da desenhista não me agrade. O que me incomodou um pouco na história foi o caráter falho das personagens - ainda que isso dê um tom muito realista à trama e fuja dos estereótipos românticos. Há atitudes de ambas as protagonistas que as tornaram muito fracas, criticáveis - como elas se rendem a traições, deslealdades, atos falhos... Tudo somado, dá a entende...

Pinóquio (Winshluss)

Ao terminar a leitura das versões originais dos contos de fadas coletados pelos Irmãos Grimm ( http://cineeleituras.blogspot.com.br/2015/08/contos-maravilhosos-infantis-e.html ), acreditei ter chegado ao limite da crueldade nas histórias infantis. Contudo, nessa versão ilustrada e levemente baseada em Pinóquio, de Carlo Collodi, é possível desconstruir definitivamente qualquer ideia romântica relacionada aos personagens de nossa infância. Trata-se de uma adaptação em quadrinhos para adultos, com diversas críticas sociais, feitas do modo mais pesado possível. Se a realidade é violenta, por que não exibi-la tal qual é? Winshluss não poupa o leitor do grotesco, do bizarro, do absurdo - e, como efeito de hipérbole, transporta toda a desumanidade de nosso cotidiano para os amados contos infantis. As primeiras páginas do livro já dã o o tom do que virá - uma violência descomunal, da qual nenhum personagem se salva. Todas as figuras que compõem a narrativa têm algo de mau, sendo...