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Mostrando postagens com o rótulo Literatura estadunidense

Blue Nights (Joan Didion)

O final da vida de Joan Didion não foi fácil. Após perder o companheiro de 40 anos (luto narrado em "O ano do pensamento mágico"), a escritora teve de assistir à morte da filha, uma jovem saudável e vítima de descaso médico. Ao contrário da obra anterior, narrada um ano após a perda, aqui são cinco anos de distância entre a escrita e o enterro da única filha. Nesse período, a velhice chega com tudo: de certa maneira, é até um livro repetitivo, em que muitas situações são retomadas mais de uma vez - talvez espelhos de uma memória falha, talvez tentativas de fazer perdurar o passado. Tal como anuncia seu título, apresenta a tristeza de uma vida que se encerra, com sua solidão inescapável.

O ano do pensamento mágico (Joan Didion)

Há uma seleta e pequena coleção de livros que trabalham o luto sem descambar na autoajuda; suprir essa lacuna foi um dos motivos que levou Joan Didion a colocar em palavras a indizível morte do marido. Foram 40 anos de casados, em que os escritores conviviam quase 24 horas por dia. Por mais que não idealize sua relação, a escritora sabe quanta sorte teve ao poder contar, por tanto tempo, com uma companhia tão íntima. Colocar o tamanho dessa perda em uma obra é o resumo dessa longa convivência, em que o final foi posto em diferentes tempos para cada um dos seres. Tremendo livro.

Interview with the Vampire (Anne Rice) + Filme de 1994

Vampiros são imortais - e parece ser com base nesse pressuposto que Anne Rice cria uma narrativa longa, intrincada, infinitamente tediosa. Uma coisa ou outra se salva; afinal, a ideia do vampiro que quer saber sua origem não difere muito dos nossos velhos questionamentos primordiais (De onde vim? Para onde vou? O que existe após a morte?). O arquétipo do vampiro sem gênero definido, considerando a época de lançamento do livro, também é interessante. Só que não há boa intenção capaz de perdoar o flerte com pedofilia e incesto que existe na obra.  Com o quarteto Brad Pitt, Tom Cruise, Antonio Banderas e Christian Slater no auge da beleza, o filme consegue ser melhorzinho - ou ao menos um colírio para os olhos que tenta disfarçar uma história ruim. O fato é que o roteiro soa mais interessante que o original. Até os diálogos são mais bem trabalhados no cinema que no livro, com alusões literárias que passam longe da escrita mal estruturada da autora. No fim das contas, a adaptação para ...

​The Anthropocene Reviewed: Essays on a Human-Centered Planet (John Green)

Mais de uma pessoa já passou pela minha biblioteca indignada por John Green habitar as prateleiras: mas você realmente lê isso? É para treinar o inglês? Não, é para a vida. Gosto do Green romancista, mas é a sua veia de filósofo das pequenas coisas que me arrebata. Este texto é um exemplo (não consigo terminar de ver sem sentir o olhar marejado): https://youtu.be/ESyJop31cmY É só ativar a legenda do vídeo ;) "Compartilhar algo é se arriscar a perdê-lo." Outro exemplo: a ideia deste vídeo é também o texto de encerramento de "The Anthropocene Reviewed": https://youtu.be/wSOuKxLjO0k O último livro de Green é isso: de árvores a fotos antigas, de concurso de quem come mais hot dogs a reflexões sobre ter doenças mentais durante uma pandemia. Eu gostaria mais se a publicação não fosse tão vinculada à covid-19, porque há uma beleza atemporal em muitos dos textos (mas entendo o porquê da presença forte do tema). Depois de trabalhar muitos anos como resenhista, o autor de ...

O som e a fúria (William Faulkner)

Fui leitora ávida de obras escritas com fluxo de consciência quando adolescente - mas, depois de um tempo, foi um recurso que deixou de funcionar para mim. No geral, passei a encarar a técnica como autocentrada demais, sem vínculos concretos com a sociedade. Com Faulkner, contudo, aparentemente superei meu bloqueio para narrativas imersas na mente dos personagens. O fato de a trama de "O som e a fúria" ser um quebra-cabeça muito bem amarrado foi meu incentivo para querer passar as páginas. E o esforço vale a pena: a cada novo capítulo (e diferente narrador), o romance se torna mais inteligível. O trabalho de desvendar a temporalidade e os fatos que envolvem os personagens cria um desafio lógico-argumentativo que é delicioso de resolver.

Peter and Alice (John Logan)

Fazia tempo que não lia uma peça de teatro. Tinha me esquecido da potência que uma frase bem encaixada, no contexto da cena, pode atingir. Minha vontade imediata, após acabar a leitura enxugando as lágrimas (que texto bonito!) foi procurar em vão por alguma representação teatral. Mesmo sem a possibilidade de ver o texto encenado, a precisão na escrita de John Logan é certeira. Há vários momentos em que as falas vão em uma crescente, que é culminada por percepções brilhantes. E quem são os personagens dessa peça? Alice e Peter Pan, os da história e os de estórias. Quem não sabe que os famosos protagonistas foram inspirados em crianças tem acesso ao contexto durante a encenação - não de modo didático, mas sim instigante. Aliás, pode até ser melhor não conhecer nada sobre o Peter e a Alice reais, já que é na biografia deles que reside a força do encontro imaginário entre dois seres estilhaçados na vida e imortais na ficção.

Radioactive (Lauren Redniss) + filme de 2019

Talvez Radioactive seja a minha biografia favorita – o que não é de se estranhar, uma vez que Marie Curie é uma das personalidades que considero mais instigantes e inspiradoras. Contudo, a grandiosidade da obra não se atrela unicamente à relevância das vidas biografadas, mas principalmente ao jeito único que Lauren Redniss tem de contar uma história. As próprias ilustrações da autora causam um certo estranhamento inicial: não se trata aqui, portanto, de fazer uma obra esteticamente bela sobre a vida dos Curie. A ambiguidade da descoberta do rádio e do polônio – ora salvadores, ora arrasadores – perpassa cada página da obra, que não se oferece de maneira simples ao seu leitor. É uma beleza que precisa de esforço para ser vista. Além disso, o que me encanta na narrativa construída em torno da vida de ambos os personagens (porque esta é também uma biografia de Pierre, por mais que nosso interesse orbite principalmente em torno de Marie) é a costura de diferentes elementos para erguer uma...

Os monólogos da vagina (Eve Ensler)

Publicado em 1996, Os monólogos da vagina é extremamente atual. Não há discrepâncias aparentes entre o que era reivindicado então e as pautas feministas mais contemporâneas. Além disso, na edição comemorativa, temos acesso a textos extras escritos posteriormente, e que lidam com temas ainda mais pungentes em nossa época. O miolo em si, a parte que corresponde a seu lançamento original, foi a que mais me surpreendeu. A vontade que dá é de ler a peça em voz alta, proclamar suas falas para quem ainda se recusa a ouvir. Contudo, a sequência de textos da edição comemorativa cansa um pouco. Imagino que se trate de uma coletânea de várias intervenções feitas posteriormente, mas que não são encenadas em uma mesma noite na apresentação teatral. Por terem um estilo bastante parecido, criam a impressão de um poema demasiadamente longo quando lidas de forma encavalada.

O céu da meia-noite (Lily Brooks-Dalton)

Quando se assina um clube literário que se intitula como "Curadoria", o mínimo que se espera é um cuidado na seleção das obras que serão enviadas a seus afiliados. Não fossem outros livros muito bons que recebi ao longo do ano, O céu da meia-noite  seria o álibi excelente para encerrar o contrato com a TAG. Que ideia péssima que tiveram ao selecionar esse arremedo de romance. Confesso que mal o li; comecei a passar pelas páginas para ver se minhas antecipações estavam certas. Porque é assim que essa narrativa funciona: você lê duas frases, entende todo o resto. Tem pretensão de aventura épica espacial, mas não passa de um clichezão bem terrestre. Sem contar que tudo serve apenas como uma catarse para o protagonista machista, do tipo de pai que mal paga a pensão e vê a filha duas vezes por ano. 

A boa vida segundo Hemingway (A. E. Hotchner)

Pincelada biográfica sobre a vida de Hemingway, o livro é mais uma coleção de aforismos e fotografias do autor. Conhecendo um pouco mais sobre quem ele foi, o efeito que a obra teve em mim provavelmente foi inverso ao pretendido. Sabendo de todos os aspectos que consolidam Hemingway como o estereótipo do americano do século passado, é difícil encontrar motivos que sustentem o interesse em sua produção. Além das frases do autor, o conjunto de fotografias acaba pintando um cenário ainda mais discutível, como as poses do escritor ao lado dos animais abatidos em caçadas. O próprio biógrafo tampouco se apresenta como flor que se cheire, aliás. Em suma, apesar de bem diagramado e com uma proposta interessante, o livro foi uma antipropaganda para mim.

Modern Love (ed. Daniel Jones)

O que me inspirou a buscar este livro foi a série homônima da Amazon, que tem uma primeira temporada excelente (da segunda, só se salva o primeiro episódio). Contudo, foram poucas as histórias que reconheci das adaptações para a televisão: a maioria me foi apresentada com um gosto de novidade boa. Há vários tipos de amor e de retratos humanos nessa antologia, ainda que marcados por um recorte social bastante específico (classe média estadunidense). Longe de uma perspectiva de amor romântico, o que domina na obra são tramas marcadas por encontros e desencontros. E, ao tentar relembrar quais narrativas mais me marcaram, percebo que este também é um livro de perdas. Seja a morte da filha, do marido, da esposa, o amor parece se revelar ainda mais pungente diante da impossibilidade de ser concretizado. Encontramos também riso e surpresa no meio desses causos de amor, como o do pai doador de sêmen que acaba se apaixonando pela mãe de sua filha genética. Rica mistura, é um recorte bonito de n...

Da pequena toupeira que queria saber quem tinha feito cocô na cabeça dela (Werner Holzwarth & Wolf Erlbruch)

Uma parte dos estudos freudianos passa por estudar a relação da criança com as próprias fezes – bem a grosso modo, um pequeno que não se entende com seu cocô pode crescer um adulto bastante mal resolvido. Esta preciosidade de livro infantil dá conta, com leveza e graça, desse e de outros assuntos que geralmente não descem bem. Além de tudo, tem um humor divertidíssimo e trabalha muito bem as relações com a natureza.

Alabama Spitfire (Bethany Hegedus)

Que pena que este livro é tão curtinho! Apesar de se propor como livro infantojuvenil, a biografia ilustrada de Harper Lee é um grande estímulo para qualquer adulto que queira saber mais sobre a vida da autora de um filho único (ainda que haja controvérsias) e tão famoso. A personalidade forte da escritora, que esteve sempre à frente de seus pares, é uma inspiração poderosa.  

O quarto de Giovanni (James Baldwin)

Dias atrás, tentei explicar o que era poesia a meu irmão – essa arte de condensar significados, de selecionar um conjunto reduzido de palavras e oferecer um recorte amplo do mundo. O espaço reduzido do quarto de Giovanni tem função semelhante: nos poucos metros em que convivem os protagonistas da obra, a linguagem poética de Baldwin ultrapassa todos os vãos para oferecer um retrato completo de Paris, dos amores e da sensação de permanente exílio. Não apenas nas descrições dos ambientes se mostra a verve intensa da escrita do autor: seus diálogos são igualmente profundos, com discussões de bares que são realmente pura filosofia. É difícil não se render ao talento desse escritor, ainda tão pouco comentado e traduzido por aqui. As ressalvas em relação à obra são anacrônicas, mas nem por isso menos justas: apesar de ser um romance homoafetivo, é uma obra extremamente machista. O desprezo pelas mulheres é descarado, beirando a violência em vários pontos.  Mas, no fim das contas, é um li...

Os possessos (Elif Batuman)

Elif Batuman é um nome que reapareceu com força no mercado brasileiro, com o lançamento de A idiota . Assim como em sua obra mais recente, Os possessos  deixa bem claro, já pelo título, o paralelo com a literatura russa. E, curiosamente, Batuman é uma escritora estadunidense com ascendência turca – o que dá à sua escrita uma visão muito particular de mundo.  Filha do Oriente e do Ocidente, a autora traz uma perspectiva singular para entender a história da Rússia, país com raízes espalhadas por dois continentes tão diversos quanto a Europa e a Ásia. O livro traz muitas reflexões instigantes; entre as que ainda reverberam em mim, estão estas:  - o porquê de os escritos de Dostoiévski e Tolstói, bem como de outros seus contemporâneos, gerarem uma identificação tão forte com seus leitores; - a repetição de motivos, alegorias e estratégias similares e o consequente empobrecimento da literatura contemporânea; - como os nomes dos personagens podem ser: um reflexo do quanto o esc...

Nêmesis (Philip Roth)

Quando a pandemia chegou ao Brasil, já deixei A peste  do Camus e outras obras distópicas empilhadas na cabeceira da minha cama – os livros sempre foram minha chave para entender o mundo, então nada mais natural do que procurar na literatura o que e quem explicasse o caos atual. No entanto, boa parte da minha pilha só serviu para juntar pó. De certa forma, quis evitar um contato mais intenso com a realidade abominável que me cerca, em que a incompetência do estado só reforça a malignidade da doença. Somada a uma antipatia natural que sentia por Philip Roth (mesmo antes de o ter lido), pouco ou nada esperava de Nêmesis . E, talvez por isso, tenha sido uma das minhas melhores leituras do ano. Antes de vivenciar uma pandemia, provavelmente a obra não funcionaria para mim; mas agora é um livro que cai bem como uma luva (ou uma máscara, o que preferir). Todas as reflexões sobre a culpa de ser um transmissor, a impotência e o medo geram uma identificação necessária com o que vivemos hoje...

The Old Man and the Sea (Ernest Hemingway)

Esta minha releitura de O velho e o mar foi bastante espaçada – com certeza, mais de uma década me separa do meu primeiro contato com o livro. Lembro-me de haver gostado da história, e tinha ainda a cena dos tubarões relativamente nítida na memória. Agora, em 2021, a novela de Hemingway entrou em uma das minhas pilhas de leitura que, sem querer, privilegia o começo do século XX. Dessa forma, o contexto artístico em que o autor lança seu texto está mais claro para mim, bem como seu uso proposital de uma linguagem mais simples, avessa aos formalismos e rococós. Sei também que o inglês é uma língua muito mais aberta às repetições e redundâncias, sem que isso configure um problema de estilo. No entanto, somados todos esses aspectos, confesso que me cansei um pouco durante a leitura. Não sei se foi aversão ao fato de ser uma narrativa pretensamente latina, à própria história de vida do autor, ao empreendimento monumental e falho, à linguagem sem muitos rompantes líricos, a um certo estereó...

The Left Hand of Darkness (Ursula K. Le Guin)

Não sou uma leitora entusiasmada de ficção científica; assim, não tinha muitas expectativas antes de começar a desbravar o livro mais renomado de Ursula K. Le Guin. Acabei tendo boas surpresas ao longo da experiência, ainda que a obra não se tenha tornado necessariamente uma favorita. A questão da definição do gênero sexual é o ponto alto do universo proposto pela autora. Há sim um descompasso entre o que entendemos hoje por definição sexual e a data de publicação do livro (anos 1960), mas a premissa continua válida: e se não nascêssemos sob nenhum gênero — em que isso nos mudaria enquanto seres humanos? Além do mote inovador, o que me captou na escrita de Ursula são as frases bonitas, que aqui e acolá permeiam a narrativa. São máximas bonitas e verossímeis, considerando o contexto em que os personagens têm de descrever seu planeta e modo de viver de forma clara e abrangente.  No final, a impressão mais forte que tive da leitura foi a sensação de quem se defrontou com uma bonita hi...

Sula (Toni Morrison)

Sula é, sem dúvidas, um livro representativo das pautas do movimento negro. Muitas das questões colocadas por Morrison em 1973 continuam sem solução: o racismo estrutural, a criação das periferias, a culpabilização das mulheres por sua conduta sexual, a falta de oportunidades, a necessidade de sobrevivência sobrepondo-se a qualquer tentativa de afeto. Essa última característica, em particular, é também o que incomoda no livro. Até Conceição Evaristo (a curadora que indicou o livro para a Tag Curadoria) concorda que, enquanto escritora, entende as razões de Morrison... mas, como leitora, também preferiria um destino diferente para as protagonistas.  É muito doloroso ver o quanto as personagens, vítimas de todas as falcatruas do sistema, ainda parecem fazer questão de boicotar qualquer possibilidade de amor.  O início de Sula é muito potente, com metáforas fortes e carregadas de simbolismo. No entanto, toda a força do início da narrativa se dilui ao longo da obra. Também há um ...

Sonhos de Einstein (Alan Lightman)

Literatura escrita por um físico, o livro "Sonhos de Einstein" é de difícil definição: talvez um romance? Um ensaio científico com pano de fundo ficcional? A edição que li, publicada há alguns anos, sequer traz ficha catalográfica, como que para evitar etiquetar a obra múltipla em categorias predefinidas. E se o formato dos "Sonhos" é difícil de categorizar, quem dirá o seu conteúdo: cada um dos devaneios de Einstein é uma possibilidade física de entendimento do tempo. Assim, o livro parte da premissa de que o famoso físico alemão teria tido uma série de sonhos (cada um com uma hipótese sobre o tempo) antes de chegar à sua teoria da relatividade. O mais impressionante neste pequeno livro (além da escrita belíssima de Alan Lightman) é como cada uma das possibilidades de tempo, por mais absurdas que nos pareçam (o tempo que anda de trás para frente, o tempo em que é possível avançar sem pausas para o futuro, o tempo circular, o tempo que fica preso ao passado, entre m...