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Mostrando postagens com o rótulo Biografia

Pedro Curie (Marie Curie)

Já havia entrado em contato com a escrita de Marie Curie pelo livro La ridícula idea de nunca más volver a verte , da espanhola Rosa Montero. Além dele, a biografia sobre o casal Curie elaborada por Lauren Redniss também traz alguns excertos de cartas e dos diários da cientista – contudo, nada se equipara a poder ler um livro inteiramente escrito por ela e cujo tema é a breve vida de seu esposo. Claro está que esta é uma biografia bastante parcial, que não se propõe a revelar um lado menos louvável da vida de seu biografado. O retrato que Marie faz de Pierre não economiza elogios; ainda assim, está longe de ser um texto enfadonho ou menos crível. A autora fundamenta seu parecer favorável não apenas na experiência de esposa, mas sobretudo em fatos e depoimentos de quem conviveu com o cientista. Outro ponto de que gosto muito nessa biografia é quanto Marie se revela ao falar de Pierre – de certa forma, acaba sendo um texto que abarca a vida de ambos. E se não há críticas à figura do mari...

Radioactive (Lauren Redniss) + filme de 2019

Talvez Radioactive seja a minha biografia favorita – o que não é de se estranhar, uma vez que Marie Curie é uma das personalidades que considero mais instigantes e inspiradoras. Contudo, a grandiosidade da obra não se atrela unicamente à relevância das vidas biografadas, mas principalmente ao jeito único que Lauren Redniss tem de contar uma história. As próprias ilustrações da autora causam um certo estranhamento inicial: não se trata aqui, portanto, de fazer uma obra esteticamente bela sobre a vida dos Curie. A ambiguidade da descoberta do rádio e do polônio – ora salvadores, ora arrasadores – perpassa cada página da obra, que não se oferece de maneira simples ao seu leitor. É uma beleza que precisa de esforço para ser vista. Além disso, o que me encanta na narrativa construída em torno da vida de ambos os personagens (porque esta é também uma biografia de Pierre, por mais que nosso interesse orbite principalmente em torno de Marie) é a costura de diferentes elementos para erguer uma...

Alfonsina Storni para chicos y chicas (Nadia Fink e Pitu Saá)

Não sei se, na ordem de publicação, o livro sobre Alfonsina Storni veio antes que o sobre Che Guevara. De qualquer forma, para mim foi um alívio ver que tudo o que não tinha gostado no Che  — a linguagem inclusiva-incompreensível, a valorização da guerra, a apresentação da figura retratada como grande herói — não estão presentes aqui. Abro uma exceção para os erros de ortografia, que eram abundantes no Che... e que também passam na biografia da poeta argentina. O retrato de Storni é feito com muita delicadeza. Minha única dúvida é em relação ao modo como seu suicídio é descrito, com um tom que beira a exaltação. Ainda que o tema deva ser discutido com as crianças, precaução pouca não é bobagem. As atividades propostas ao final da leitura trabalham brincadeiras com rimas e versos. São excelentes para conhecer mais de perto os poemas de Alfonsina e o ofício de poeta.

Einstein: sua vida, seu universo (Walter Isaacson)

Já tinha obtido um bom panorama da vida de Einstein pela primeira temporada da série Genius. Um dos fatos que mais tinha me impressionado (e de que até então não fazia ideia) foi a relevância de  Mileva Maric Einstein como assistente de cálculo do marido. Talvez o obscurantismo a que Mileva foi relegada — além do fato de ter desistido de uma carreira que teria de tudo para ser brilhante — acabou me deixando um pouco avessa à figura do físico alemão. A biografia de Walter Isaacson me ajudou a conseguir enxergar a genialidade científica e humanitária de Einstein, ainda que repleta de nuances machistas. Por mais que não se trate de um texto isento de críticas, é difícil não se deixar tomar pela reverência que o escritor tem em relação a seu biografado. Apesar de ser um livro por vezes maçante para quem não é de Exatas, as compilações das máximas de Einstein fazem a leitura se tornar mais leve — mesmo em meio a explicações de cálculos da teoria da relatividade. No entanto, não se trata...

Antón Chejov (Natalia Ginzburg)

Talvez esta seja a junção mais inusual dos meus prováveis dois escritores favoritos: o russo Tchékhov biografado pela italiana Ginzburg. Uma das características (presente em ambos) que me encanta nas obras também ocorre aqui: a linguagem direta, de quem diz muito sem, aparentemente, entregar nada. Livrinho curto, é um bom panorama da vida e produção do russo. No entanto, Natalia oferta uma versão mais romantizada da história de Tchékhov (que é apresentada de forma mais abrangente na excelente biografia de Janet Malcolm). De qualquer forma, são dois autores fantásticos reunidos em uma só obra.

Dostoiévski: as sementes da revolta (Joseph Frank)

Primeiro volume de cinco que contam a história de Dostoiévski, a biografia escrita por Joseph Frank é, obviamente, bastante completa. No entanto, não deixa de ser cansativa - o que talvez justifique o compilado em um único calhamaço lançado recentemente pela Companhia das Letras. O ponto forte são as análises que o autor faz das obras publicadas pelo russo - essas sim não me entediaram nem um pouco, com um olhar bastante atento para as peculiaridades da escrita do biografado. No entanto, para quem não tenha lido os livros resenhados, a chance de a biografia não cativar é grande. Acredito que o melhor jeito de lê-la é como um livro de apoio para uma imersão cronológica na obra de Dostoiévski. Fora isso, tende a ser um livro muito grande e com pouco sentido.

Van Gogh: a vida (Steven Naifeh & Gregory White)

Se o elemento óbvio de uma boa biografia é a escolha de um personagem com vida rica em acontecimentos, a pesquisa empreendida por Steven Naifeh e Gregory White já nasceu bem-sucedida. Afinal, poucas figuras históricas correspondem tão bem ao paradigma do artista incompreendido e insano como Van Gogh o faz. A leitura que se propõe dos pensamentos e das motivações do artista holandês é bastante arriscada, tendendo quase a um viés psicanalítico. No entanto, não faltam elementos que deem fundamentação a essa escolha: não bastasse as mais de 1000 páginas da obra, ainda há um site apenas com a bibliografia utilizada na pesquisa, com traduções comentadas. Naifeh e White mostram como é possível lançar-se sobre temas bastante repisados e, ainda assim, descobrir novidades. O exemplo mais notável de análise inédita é a que os pesquisadores levam a cabo para entender o episódio da morte do pintor. Com o aval de médicos legistas e longa busca arquivística, os autores endossam a tese de que Van ...

La ridícula idea de no volver a verte (Rosa Montero)

Rosa Montero é uma autora espanhola responsável por uma extensa obra, que abrange temas que vão da ficção científica a aventuras de cavaleiros andantes na Idade Média. Dona de uma linguagem acessível e conectada  com o tempo em que está inserida, situa-se no limiar impreciso entre a alta literatura e os livros de entretenimento. Talvez por se recusar ao enclausuramento na torre de marfim (e por escrever tanto e ser tão lida), nem sempre é bem acolhida por seus pares - o que inclusive se pode notar na sua eleição frustrada a uma vaga na Real Academia Española em 2015. Em "La ridícula idea de no volver a verte", na qual se increvem profundos traços autobiográficos, a escrita de Rosa torna-se quase transparente. A autora parte dos breves diários que a cientista Marie Curie fez após a morte de seu esposo, Pierre, para refletir sobre o falecimento de seu companheiro de mais de 2 décacas, Pablo Lizcano. Assim, uma perda real espelha a outra - e desse conjunto elabora-se a ficção....

Alfonsina Storni, una biografía esencial (Josefina Delgado)

Alfonsina Storni é uma poeta injustamente desconhecida, dona de uma poética muito afim com o nosso tempo. Nascida no começo do século XX, conviveu com os estereótipos de mãe solteira, de artista pobre, de mulher indecorosa. Entretanto, mesmo sob o peso dos títulos ofensivos soube firmar-se no campo artístico com seus versos questionadores. A biografia elaborada por Josefina Delgado é bastante sucinta, o que nos permite conhecer a vida de Storni em seus momentos e fases mais marcantes. Há um certo tom romanceado que quase chega a prejudicar a leitura em alguns momentos; no entanto, a biógrafa sabe segurar a mão e consegue escapar de uma biografia com excesso de idealizações e melodrama. Claramente a vida de Alfonsina está propensa ao tom melancólico: jovem suicida e grande amiga do infeliz Horacio Quiroga, não faltam elementos para fazer da história da poeta um novelão choroso. Nossa sorte, enquanto leitores, é que essa rara biografia da poeta argentina é também sensata.

Cora Coralina - Raízes de Aninha (Clóvis de Carvalho Brito/Rita Elisa Seda)

Livro que originou o filme homônimo, "Raízes de Aninha" é uma bela investigação em torno da vida da poeta mato-grossense, tão inferiorizada pela crítica. Dialogando com o nosso tempo, de redescoberta das grandes mulheres que acabaram sendo silenciadas/esquecidas, o trabalho de arqueologia pessoal dos autores ajuda a desmitificar a ideia de uma Cora doce, passiva, frágil. A ideia, amplamente difundida, de que Cora é uma escritora tardia (que só publicou o primeiro livro aos 75 anos) é negada com base em vários documentos. Publicar não foi um acaso na vida da autora, que desde adolescente esteve envolvida com a imprensa, escrevendo vários artigos para jornais e revistas da época. Além disso, já era considerada como uma grande escritora por seus pares - antes mesmo de lançar a primeira obra. Afinal, empreendedora e ativa, Cora Coralina se fazia ouvir  mesmo sem o apoio formal do livro impresso. Os vários trechos de entrevista em que a própria autora desmente o mito da sua id...

A vida secreta dos grandes autores (Robert Schnakenberg)

Todo ilustrado pelo cartunista Allan Sieber e com uma capa que brinca com a ideia dos tabloides de fofocas, em princípio é difícil levar esta obra a sério. No entanto, usei como termômetro da confiabilidade da leitura as informações que já possuía. Sobre Tolstói, por exemplo (sobre quem já li uma biografia de quase 600 páginas), nenhum dado oferecido por essa biografia divertida me pareceu demasiado exagerado ou irreal. Tomando este russo como parâmetro, a obra, ainda que tenha sim o propósito apelativo, não deixa de ser informativa. Para quem gosta de literatura é quase um fan service . Para quem não gosta, é um bom meio de descer os escritores do pedestal e torná-los mais próximos, reais e falhos (se não na escrita, ao menos como humanos).

Jorge de Lima: vida e obra (Povina Cavalcanti)

Já é frase repisada (e com autoria perdida) que a estrada para o inferno está pavimentada com advérbios. Povina Cavalcanti não só segue fielmente este preceito, como reforça todas as veredas de seu caminho com adjetivos bizarros, típicos de um lambe-botas literário e católico carolinha. O livro biográfico vale apenas pelas citações: trechos escritos por Jorge de Lima ou sobre ele. Todo o resto, articulado pelo cunhado do famoso poeta, é absolutamente desprezível, absurdamente mal escrito, um exemplo do que não se deve fazer em crítica literária de qualquer ordem. Redações de alunos semialfabetizados são mais bem construídas.

Coleção antiprincesas e anti-heróis: Eduardo Galeano, Julio Cortázar, Violeta Parra e Juana Azurduy

O que dizer dessa coleção, fruto da parceria de Nadia Fink e Pitu Saá? Que ela é um respiro de alívio em um mercado editorial de literatura infantojuvenil idiotizante, moralizante e cheia de tabus? Que cada livro é ilustrado com tamanha maestria que mereceria ser emoldurado? Que as histórias são contadas na medida certa, sem esconder a verdade das crianças, mas também sem causar choques desnecessários? Que, enfim, essas obras são só amor? Juana Azurduy, desconhecida para mim, me foi apresentada por meio deste livrinho para chicos y chicas. E que orgulho conhecer a história de uma guerreira latino-americana, perita em armas e tão à frente de seu tempo! Violeta Parra, por sua vez, é mostrada de forma a englobar algumas de suas várias facetas: a artista, a poeta, a cantora, a artesã... E seu suicídio, questão que não define quem ela foi e nem o seu valor, é sintetizado para as crianças de maneira muito sutil e bela: " ¿ Y qué pasó después con Violeta? Esa ya es otra historia...

Tarsila: os melhores anos (Maria Alice Milliet)

O título da obra, que talvez induza o leitor a acreditar que terá em mãos não uma biografia, mas um recorte da vida de Tarsila, é bastante ambíguo. Por mais que o livro dê conta de todo o percurso da artista, desde o seu nascimento, o fato é que, enquanto criadora, ela teve alguns (poucos) anos melhores que todos os outros. Filha de cafeicultores endinheirados, a pintora pôde dedicar-se inteiramente ao estudo das novas vanguardas modernistas, sem a preocupação de arranjar um trabalho ou uma fonte de renda. No entanto, com a crise de 29, boa parte da vida de Tarsila parece desmoronar: Oswald de Andrade, seu marido, foge de casa para ter um caso com Pagu; a família perde grande parte das propriedades; sua tentativa de obter um emprego burocrático é falha e, ao fim, ela se vê na incumbência de pintar retratos e quadros por encomenda para conseguir se sustentar. As tragédias na vida de Tarsila foram muitas: prisão por ter se simpatizado com o regime comunista, perda da única neta segui...

Relembramentos - João Guimarães Rosa, meu pai (Vilma G. Rosa)

O calhamaço de quase 600 páginas, ganhador de vários prêmios literários, tem seu valor. No entanto, há muito de egolatria também - mais em relação à autora (Vilma) do que ao biografado (o verdadeiro Rosa).  O livro reúne vários textos da filha sobre o pai - no entanto, eles são extremamente repetitivos e poderiam muito bem ser resumidos em um só artigo, muito mais sucinto. Afinal, mesmo que a autora pareça esquecer, quem adquire esta obra está interessada na escrita do seu pai - e não na dela. A segunda parte da obra, com cartas de Rosa dirigidas à sua família e a amigos, é o que faz valer a leitura (afinal, aqui sim temos acesso à escrita do autor). As cartas endereçadas ao pai, nas quais ele pede descrições do sertão para aproveitar em seus escritos, são especialmente interessantes. Outro p0nto que me incomodou bastante foi o endeusamento de Rosa, apresentado como figura sem defeitos. E uma certa infantilização da escritora, que continua chamando-o de "papai", me...

Frida (Hayden Herrera)

São tantos os títulos, ambientes, mitologias que cercam a figura de Frida Kahlo que podemos nos perguntar pelo porquê de mais uma biografia. No entanto, o trabalho realizado por Hayden Herrera é tão minucioso que o resultado não gera dúvidas quanto à sua qualidade ou necessidade no mercado editorial. Além do mais, para uma artista que majoritariamente se dedicou aos autorretratos, não é incoerente a grande quantidade de pesquisas biográficas sobre ela, personagem tão intensa da história da arte. O que particularmente merece atenção na obra de Herrera, além das pesquisas, entrevistas e explorações realizadas, é o cuidado de apresentar um pouco de Frida ao leitor por meio de suas próprias palavras. Ao contrário de biografias que não contam com uma sequer frase autoral do personagem retratado, neste livro temos várias cartas, rascunhos, desenhos e, ao final, uma compilação de algumas obras marcantes da mexicana. O mesmo vale para as pessoas importantes na vida da pintora, cujos tex...

Tolstói: a biografia (Rosamund Bartlett)

Definitivamente, uma das personalidades com vida mais polêmica dos últimos séculos, Tolstói é ora admirado, ora odiado por diferentes atributos: é o literato responsável por obras de grande envergadura, como Anna Kariênina e Guerra e Paz; defensor da teoria da não violência, que inspirou Gandhi e a independência indiana; vegetariano convicto no final da vida; religioso fervoroso, mas que, contraditoriamente, foi excomungado pela Igreja Católica, dentre tantos outros títulos possíveis. Costumo dizer que nenhuma admiração incondicional resiste a uma boa biografia. Com Tolstói, não é diferente, até porque sua personalidade é múltipla e ele frequentemente adota atitudes antagônicas ao longo de sua existência de 82 anos. À frente de seu tempo em muitas características, em outros aspectos o autor é bastante reacionário, como no que se refere à questão da mulher: mesmo quando seus contemporâneos já defendiam a libertação e o voto feminino, Tolstói enxergava que a principal (e talvez exclusi...

3096 dias (Natascha Kampusch)

Confesso que comecei a leitura de 3096 dias mais pelo interesse - mórbido - que este tipo de tema gera do que procurando qualidades de escrita notáveis. No entanto, se há algo em que este livro se destaca é pela astuta análise psicológica que sua autora faz de si própria e de seu sequestrador. Talvez por ter feito um intenso trabalho de terapia, para recuperar-se dos oito anos mantida em cativeiro, Natascha Kampusch tem uma visão arrebatadora das circunstâncias a que foi submetida. O livro não se detém apenas nos anos do sequestro; a jovem autora traça todo o panorama da sua infância, buscando quais características lhe deram forças para sobreviver aos longos anos presa em um cubículo. É uma análise bastante fria do meio em que viveu - seja em casa, seja no cativeiro - mas, justamente por isso, bastante intrigante e reveladora. Eu já estava tão profundamente confinada que o cativeiro também se encontrava dentro de mim. Criar histórias com meus personagens, que eu equipava com ...