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Mostrando postagens com o rótulo Filme italiano

Anjos e Demônios (filme de 2009)

Bom entretenimento, o enredo traz os elementos básicos de um filme de suspense e investigação: desvendar o mistério junto ao espectador, propor reviravoltas, sugerir um caso amoroso para apimentar a trama. O que mais me prendeu foi o passeio pelos corredores inacessíveis do Vaticano, bem como aos documentos secretos do Estado. O tom de teoria da conspiração, que acomete tantos desmiolados hoje, é o aspecto que mais irrita na obra – talvez por refletir tanto a nossa realidade atual.

Ensaio sobre a cegueira (José Saramago) + filme de 2008

Quando muitos anos me separam de uma leitura, geralmente retenho mais a sensação do encontro com a obra do que detalhes de enredo, aspectos da narração, personagens. Contudo, Ensaio sobre a cegueira  é um livro do qual ainda muito me recordava. Se algo estava mais oblíquo nas minhas memórias, provavelmente era o poder de escrita de Saramago. E o final de livro e filme, ao qual tinha atribuído uma solução ingênua, sem perceber a potente ambiguidade que carregam. Fui engolfada pelas palavras do escritor, ainda que recordasse de antemão boa parte dos acontecimentos da trama. Deparei-me com uma perspectiva mais crítica em relação ao romance (muitos questionam, por exemplo, um suposto discurso capacitista), mas a verdade é que pouco me incomoda profundamente no romance. Até alguns aspectos que esbarram no machismo (como o fato de a personagem principal ser apenas "a mulher do médico") podem ser lidos em um leque mais abrangente, em que essas disparidades do discurso são o reflexo ...

O segredo do bosque velho (filme de 1993)

Inspirado em uma obra de Dino Buzzati, O segredo do bosque velho  só me faz lamentar que não haja uma tradução para a história original. Muito da beleza do filme parece ser um bom efeito plástico para o que veio composto, primordialmente encantador, na forma de palavras. Voltado para todas as idades, o filme é uma fábula sem efeitos especiais; cabe à imaginação do espectador atribuir as vozes aos personagens, sejam animais, plantas ou o vento Matteo. O cenário escolhido para a filmagem é de encher os olhos, fazendo que não seja preciso de muito para prender a atenção do público. Afinal, esta é uma obra basicamente sobre a natureza e suas forças ocultas: é com a ambientação que nos cativa e nos surpreende.

Wilde, o primeiro homem moderno (filme de 1997)

Uma biografia todinha socada em 2 horas de filme. Ainda que tenha pontos positivos, a impressão que tive ao assistir à obra sobre Wilde é que ela seria muito melhor desenvolvida em uma série, com espaço para os acontecimentos e sem os cortes bruscos entre uma passagem e outra da vida do autor retratado. Outro ponto que combinaria melhor com uma série é o fato de não haver carga dramática o suficiente,  por mais que Stephen Fry se assemelhe fisicamente ao protagonista . As cenas de descoberta da sexualidade são boas, e poderiam ocupar boa parte da trama de uma produção televisiva mais longa. Assim, quem sabe, o desfecho trágico de Wilde (tão superficialmente retratado) nos incomodaria menos, já que não seria a proposta principal. Ainda sobre Fry, também me incomodou não escolherem nenhum outro autor para interpretar Wilde nas diferentes fases da vida. Em uma época pré-tecnologias sofisticadas de edição, fica difícil de engolir um senhor de 40 anos interpretar um menino de 18. O que ...

Profissão: repórter (filme de 1975)

Como um quebra-cabeça, nada é muito claro em "Profissão: repórter" (péssima tradução, por sinal, de "The Passenger". Afinal, o que o protagonista faz em toda a trama é uma passagem, uma caminhada sem muito sentido — vai de uma vida a outra (usurpando a identidade de um morto), de um deserto afastado a uma cidade movimentada, de um estado de afobação a um de incertezas. E nós, como espectadores, acompanhamos essas passagens, sem conseguirmos traçar claramente aonde dará essa trilha. A ambientação e a fotografia contrapõe belamente os cenários, que caem como uma luva para refletir a inquietação e instabilidade do protagonista. Mesmo quando a câmera se fixa em um ponto (como a bela sequência de imagens que passam por uma janela, ao final), o recorte de cena e a narrativa que é contada são impressionantes. Jack Nicholson, talvez habituado a personagens deslocados, tem uma atuação maravilhosa. Por outro lado, a protagonista feminina é o papel que cabe a Maria Schneider, ...

Dois papas (filme de 2019)

Em tempos de extremismos religiosos, "Dois papas" é um filme que propõe o diálogo necessário sobre a crença. Afinal, perceber as discordâncias na alta cúpula de uma mesma vertente religiosa ilumina as possibilidades de interpretação dos livros sagrados - confrontando a ideia de uma verdade única, aplicável a todos os povos. Com exceção dos flashbacks que retomam a vida do papa Francisco, a obra aposta em uma linha muito mais argumentativa do que narrativa. Boa parte do longa se desenvolve na exposição das ideias dos papas Francisco e Bento XVI, que é realizada de modo respeitoso (ainda que não sem conflito). Empregando limites difusos entre a realidade e a ficção, é certo que há uma tendência do diretor em valorizar bastante a figura do papa atual. No entanto, não se trata de uma idealização total; as falhas de Francisco não são ignoradas na narrativa, bem como a tolerância de Bento XVI (que aceita um representante com ideias contrárias às suas) é louvada.

Lazzaro Felice (filme de 2018)

Com uma divisão muito profunda em duas partes, Lazzaro Felice é quase que dois filmes bastante diferentes, que se conectam por meio de um diálogo tênue, porém preciso.  Na primeira metade da obra, somos apresentados a um cenário e personagens que nos recordam os filmes clássicos do neorrealismo italiano. Assim, em um ambiente rural grassa a pobreza, enquanto a multitude de membros de uma família busca meios de sobrevivência e de escapar ao sistema quase servil de uma fazenda. Se há um elemento que já nos adianta a complexidade da obra, podemos situá-lo no cronológico. Em um contexto em que já há celulares e comunicação rápida, estranhamos o atraso do meio rural da Itália, aparentemente parado no tempo. Na segunda metade do filme, de súbito somos transportados a um ambiente urbanizado, no qual os laços de família já não se sustentam e a pobreza de mantém, acrescida da marginalidade. Além disso, a atmosfera que predomina do meio ao final do filme é a de ficção científica, surre...

Todos já sabem (filme de 2018)

Um cenário deslumbrante na simplicidade, boa fotografia, um time de protagonistas de peso (interpretados por Penélope Cruz, Javier Bardem e Ricardo Darín) em conjunto para nos lembrarem que o poder de uma boa história vai muito além de bons recursos técnicos.  "Todos já sabem" é um filme que prende a atenção e só. A mescla de diferentes gêneros, que tende a enriquecer uma obra, neste longa é feita de maneira óbvia e frustrante. Assim, enquanto o início da narrativa se passa em um ambiente bucólico e em um dia de sol, todas as cenas de suspense ocorrem em ambientes lúgubres, na chuva e/ou na escuridão. Há uma tentativa de trazer à tona a hipocrisia das relações familiares, uma pretensão de ser um filme "em aberto" ao deixar pontos sem nó... mas são projetos bastante óbvios e malsucedidos. Com uma conjunção de bons recursos técnicos, consegue apenas entreter, mas não convencer.

Call Me By Your Name (livro de André Aciman + filme de 2017)

Ainda que a obra do escritor egípcio André Aciman tenha seu valor, este é um dos raros casos em que o filme consegue ser bem melhor que o livro. Tendo como premissa a história de um romance de verão, um dos pontos cruciais da narrativa para não cair na banalidade é a sua ambientação em uma cidadezinha intimista da Itália. Ao dar vida às imagens, o longa consegue criar um pano de fundo mais cativante para o espectador. Na sua versão literária, a narrativa encanta e afasta pelo mesmo motivo: o seu tom poético. Ora construído de forma extremamente bela, ora exagerado a ponto de soar piegas - o estilo de Aciman tem seus bons momentos, mas alguns cortes editoriais poderiam ajudar muito na fluência do texto. O filme, que não pode se dar ao luxo de se estender tanto no tempo, sabe extrair o essencial da trama e torná-la mais bem-acabada. Além do cenário, que já comentei, a trilha sonora e a escolha de elenco só agregam qualidades à obra. O protagonista de CMBYN, que havia me parecido um a...

A arte da felicidade (filme de 2013)

Quem já assistiu "Waking Life" vai reconhecer um grande espelhamento nessa obra italiana. Não que se trate de um enredo plasmado no filme estadunidense - mesmo porque as categorias usuais de como se contar uma história não se mantém aqui.  O que ocorre é uma grande influência estrutural: além do fato de ambos os filmes serem animações, eles são sequências de diálogos filosóficos. Não é à toa, portanto, que os dois longas tenham títulos tão abrangentes e sugestivos.  Inspirado também na obra homônima de Dalai Lama, "A arte da felicidade" trabalha alguns conceitos do budismo em contraposição à agitada vida moderna. A ambientação das cenas é a Nápoles dos anos 1980, na qual o contraste entre a pobreza e os excessos é bastante evidente. É um filme com muitos pontos interessantes, mas que deve ser degustado com calma - afinal, seu objetivo é justamente desacelerar.

Feios, sujos e malvados (filme de 1976)

A comédia é a tragédia vista um pouco depois - com o filtro do tempo, quase todas nossas misérias passam pelo crivo do humor, da ironia,  ou mesmo do sarcasmo. É uma constante em nossas vidas: sejam nas piadas contadas no funeral ou no amor passado que vira motivo de zombaria e gerador de memes. E quando juntamos o tempo da tragédia e da comédia, o que acontece? Ettore Scola brinca com essa ideia ao dirigir "Feios, Sujos e Malvados". Todos os elementos do filme são deprimentes, degradantes e absolutamente cômicos. Uma reunião difícil, mas que foi orquestrada com maestria. No enredo, um velhinho pobre vive em um barraco com seus dez filhos, mulher e muitos agregados. Após receber um pequeno montante de indenização do serviço, vive com medo de ser assaltado pelos próprios parentes e dorme com a espingarda na mão e o dinheiro escondido. Já vemos desde o princípio, portanto, que o conceito de família é destruído pelo diretor - contudo, ainda que estejamos frente a protagonist...

A vida é bela (filme de 1998)

Desde o título, "A vida é bela" é um filme amoroso. Os personagens são construídos para serem cativantes, reunindo em si todos os elementos que causam a simpatia imediata do espectador: o humor leve do pai, a inocência da criança, a entrega e o sacrifício da mãe. Inscritos no gênero da comédia, esses protagonistas parecem mais verossímeis, e os maniqueísmos são relevados em função do gênero. Afinal, é uma trama feita para encantar - uma espécie de conto de fadas sobre o nazi-fascismo. Ainda que, como espectadora, tenha me deixado levar pela história comovente representada, algumas reflexões mais sérias pipocaram durante a exibição. Não consigo avaliar até que ponto concordo ou não com as escolhas ideológicas do filme. Ainda que seja senso comum que todas as histórias cruéis sobre a Segunda Guerra já foram narradas, a verdade é outra. Evitamos o lado real e mais desumano dos crimes perpetrados nessa época em prol de relatos comoventes e de superação. E tanto já nos esquecemo...

A trégua (livro de Primo Levi e filme de 1997)

Sequência do já canônico É isto um homem , este livro de Primo Levi, ex-prisioneiro de Auschwitz, narra a saga dos sobreviventes dos campos de concentração de volta às suas casas. Ao contrário da difundida ideia hollywoodiana (de que os estadunidenses "salvaram" a todos e garantiram um final feliz à guerra), a situação de abuso, pobreza e abandono das vítimas do conflito demorou muito tempo a se extinguir, deixando inúmeras sequelas e cicatrizes. O percurso de Primo em busca da Itália, sua terra natal, é extremamente burocrático, sinuoso, à mercê da vontade e da disposição dos russos. Ainda que em melhor situação do que a concentracionária, as pessoas continuam sendo submetidas a desmandos, enquanto tentam resgatar a sua humanidade na medida do possível. O longo e arrastado caminho descrito pelo autor se reflete em uma escrita tortuosa, truncada, o que acaba tornando a narrativa mais verossímil, porém bastante aflitiva para o leitor. O filme, por sua vez, ainda que...

Guerra e paz (filme de 1956)

A adaptação do clássico de Tolstói para a linguagem cinematográfica conta com inúmeras dificuldades, a principiar pela extensa duração da obra. Como transpor quase 2500 páginas de enredo em um filme? Para o diretor King Vidor, a solução foi prolongar a duração da película para quase quatro horas - e, ainda assim, sem dar conta de todos os elementos da história. Para uma produção dos anos 50, não deixa de ser impressionante a qualidade técnica das filmagens. Ainda que não sejam muitos os recursos disponíveis para efeitos especiais,  as cenas de batalhas são bastante verossímeis e, em um take ou outro, têm caráter épico. Outro ponto de acerto foi a escalação de Audrey Hepburn para o papel de Natacha Rostova - para quem leu o livro, fica difícil imaginar outra atriz que funcionasse tão bem para esta personagem. A ingenuidade sapeca da protagonista combina muito bem com a figura meiga da famosa atriz de meados do século XX. Mesmo somados os pontos positivos, contudo,...

Parente é serpente (filme de 1993)

O filme retrata a semana entre o Natal e o Ano Novo de uma família italiana, quando todos os filhos e netos se reúnem na casa da nonna. Talvez para quem não compartilhe tantos elementos da cultura italiana, a obra seja ainda mais engraçada, por parecer mais estereotipada - por outro lado, para quem vem de família de imigrantes, é muito fácil reconhecer gestos, entonações e alterações de humor como bastante verossímeis. Não me pareceu uma obra tão chocante como alguns filmes do neorrealismo italiano. Feios, sujos e malvados , por exemplo, também trata de conflitos de família de uma maneira muito mais crua (até porque retrata a miséria, e não a classe média). O ponto alto do enredo é o final surpreendente, ainda que, até pelo título, já se possa prever que a história não acabará bem (ao menos, não para todos). Rende algumas risadas, mas não chega a ser surpreendente.

O dr. Jivago (livro de Boris Pasternak e filme de 1965)

Boris Pasternak foi o meu primeiro russo e me guiou pelas letras maravilhosas de Dostoiévski, Tolstói, Tchekhov, Anna Akhmatóva... e, por fim, culminou em 1 ano de habilitação em língua russa na faculdade, que não prossegui por motivos alheios à grande qualidade da literatura deste país. Tenho uma relação afetiva muito especial com esta obra. Ainda que não tivesse o hábito de fazer releituras no início das minhas incursões literárias, o dr. Jivago foi uma das poucas exceções. Extraí  pouco dele nas primeiras leituras (aos 14 e 16 anos), mas que sabia que estava cheio de significados a serem desvendados. Ainda hoje, 15 anos depois, sei que serão necessárias mais voltas à esta obra grandiosa, tão profunda e tão humana. Uma das minhas dificuldades foi a edição, cheia de erros e fruto de traduções parciais e indiretas, da Itatiaia. No entanto, como queria reler a obra tal como a conheci, optei por ainda não buscar uma versão mais fiel da obra original. Livro polêmico,...

Vincere (filme de 2009)

Apesar da banalização do termo "fascista" - usado hoje para caracterizar inclusive defensores de direitos humanos, por exemplo - o fato é que pouco sabemos sobre esse movimento ideológico/militar/social. Enquanto tanto se fala e se produz culturalmente sobre o nazismo, Mussolini permanece como uma figura um tanto desconhecida, que vagamente associamos a alguns pontos da ideologia hitleriana. O filme "Vincere" traz não só um pouco da história da trajetória política de Mussolini, como dá destaque a um dos fatos mais chocantes de sua biografia, resgatado recentemente. Apesar de ter, em princípio, uma "família do cidadão de bem", tudo indica que o chefe de estado foi casado anteriormente com Ida Dalser, com quem teve um filho. Para esconder esse relacionamento, Mussolini internou Ida em um manicômio por toda a vida, assim como negligenciou a educação de seu filho a uma instituição religiosa. Mais tarde, o primogênito teria o mesmo destino da mãe - o h...

O nome da rosa - o livro versus o filme

Quando assisti ao filme O nome da rosa , há muitos anos atrás, fiquei impressionada com a trama e instigada a ler o livro, tarefa que só cumpri agora. No entanto, ainda que tenha sido minha inspiração para a leitura, ao reassistir a obra cinematográfica fiquei decepcionada. A máxima de que o filme sempre perde para o livro, ao menos aqui, é muito verdadeira. A leitura é uma experiência que nos faz mergulhar no contexto da Idade Média. A primeira parte da obra é bastante pesada, com todo o contexto histórico e filosófico da trama, além de muitos trechos em latim (e não traduzidos). No entanto, ao enfrentarmos esse obstáculo a leitura se torna bastante prazerosa, com desafios de lógica muito interessantes. O entendimento do livro passa longe de ser completo, pois Umberto Eco não é um facilitador. O autor nos desafia com sua inteligência e seu conhecimento sobre as características da sociedade do período. Assim como Adso e Guilherme têm um desafio relacionado a um livro, o leitor...