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Mostrando postagens com o rótulo literatura brasileira

O debate (Guel Arraes e Jorge Furtado)

Escrito no calor do momento, é um livro com prazo de validade; seu grande clímax é deixar o leitor na expectativa de saber quem ganhará as eleições de 2022 (Lula ou Bolsonaro). Com uma tentativa de reproduzir o conteúdo na forma, a peça teatral contempla o debate dos dois protagonistas: um casal de jornalistas recém-divorciado, ambos progressistas, que discutem com ardor sobre os rumos das transmissões eleitorais televisivas. Apesar de um ou outro argumento bem elaborado, o texto é a reprodução de falas já muito marcadas em todas as discussões de bar, acrescentando pouco ou nada de mais profundo ao panorama atual. De certa forma, ainda bem que o texto ficou datado: é preciso abrir caminhos a novos diálogos e enterrar de vez os fantasmas de um passado miliciano.

Apague a luz se for chorar (Fabiane Guimarães)

Conheci a autora pela história das formigas compradoras de livros ( https://www.folhape.com.br/cultura/formigas-invadem-kindle-e-compram-livros-sozinhas-relato-viraliza-nas/235248/ ).  Além de contar casos insólitos, Fabiane Guimarães usa suas redes sociais para a divulgação de seu romance de estreia. Depois de ler os primeiros parágrafos da obra, fiquei com uma vontade enorme de saber como terminava o enredo. Trata-se de uma história bastante cinematográfica, que facilmente poderia ser adaptada para as telas. Já do ponto de vista literário, o livro não sustenta tão bem o estilo cativante das páginas iniciais; alguns diálogos chegam a parecer reproduções de redações escolares, permeados de “ela disse”/”ele respondeu”. Não é uma leitura imperdível,mas tampouco é uma perda completa de tempo. O livro tem seus momentos (apesar de poucos).           

Tudo é rio (Carla Madeira)

Mais que um divisor de águas na nossa literatura contemporânea, é um divisor de opiniões: são muitos os elogios à obra, mas há quem prefira chamá-la de irresponsável. Eu fico boiando em meio ao caminho. O início do romance é o que menos me agradou, com frases de efeito forçadas e a ideia da prostituta que ama o que faz, como se não houvesse graves violências na sujeição imposta de corpos ao prazer alheio. Aos poucos, o livro melhora. Surgem personagens cativantes e a autora afina seu estilo, criando cenas de muita beleza. O problema é que, no fim das contas, trata-se de um enredo sobre perdoar o imperdoável, com passada de pano à misoginia mais brutal. 

Rio, o cão preto (Suzy Lee)

T emas: abandono, responsabilidade, amizade, saudade, perda. Do que mais gostei: as ilustrações são lindas e dão o tom certo para uma história que trabalha a importância de conviver bem com nossos bichinhos.

Casa de passarinho (Odilon Moraes)

Temas: curiosidade, criação de hipóteses, natureza, pássaros. Do que mais gostei: é a soma de várias perguntas de crianças diante de uma casa de passarinhos, mas sem se preocupar com respostas.

Rosa (Odilon Moraes)

Temas: Guimarães Rosa, A terceira margem do rio, ser pai e ser filho. Do que mais gostei: é quase tão enigmático quanto uma terceira margem, quase tão calado quanto o pai que passa a vida na canoa. É pouquíssimo texto a emoldurar as ilustrações, mas com tantas possibilidades de leitura.

Sagatrissuinorana (João Luiz Guimarães / Nelson Cruz)

Temas: Guimarães Rosa, Os três porquinhos, desastres ambientais de Mariana e Brumadinho. Do que mais gostei: me emociono a cada vez que releio. Não é à toa que ganhou o Jabuti do ano passado - parece livrinho, mas é um tremendo livrão. Para mim, é a prova inegável de como o livro ilustrado pode ser literatura da mais alta qualidade.

Lampião e Lancelote (Fernando Vilela)

Temas: cavaleiros, cangaceiros, narrativa de capa e espada, cordel, arte abstrata. Do que mais gostei: o todo. É tanta pesquisa para elaborar textos e ilustrações que só resta admirar o conjunto. Obra de arte da primeira à última página.

De passinho em passinho (Otávio Júnior)

Temas: dança, música, desigualdade social. Do que mais gostei: traz uma mensagem positiva, mas não é simplista; seus temas ricos são quase uma sequência didática, prontinha para ocupar as escolas.  

Da minha janela (Otávio Júnior)

Temas: vivência em comunidade, desigualdade social, amor aos estudos. Do que mais gostei: olhar pelas janelinhas de cada uma das casas e sentir a movimentação do dia a dia, a vida que pulsa na favela.

Com qual penteado eu vou? (Kiusam de Oliveira / Rodrigo Andrade)

Temas: nome, identidade, ancestralidade, sororidade. Do que mais gostei: ilustrações lindas e com muita representatividade.

A falta que ela me faz (Fernando Sabino)

A crônica que intitula a obra começa assim: "Como bom patrão, resolvi, num momento de insensatez, dar um mês de férias à empregada". É isso: a posição de poder do homem branco de classe média muito bem marcada.  Outras pérolas que o livro traz: um personagem que esmurra um cachorro; uma personagem que deu o "azar" de não ser estuprada, nas entrelinhas do autor; o adultério masculino tratado como se fosse uma travessura; gordofobia; racismo; machismo. Sabino foi um dos escritores que mais li na juventude; o estilo das crônicas é construído com propriedade, convidando a conhecer mais. Retomar esses textos com minha leitura de mundo atual foi um processo doloroso, negando a leveza que o gênero deveria ter.

Pequena enciclopédia dos seres comuns (Maria Esther Maciel)

O prefácio da obra contempla: joões, marias, viúvas e híbridos. E é assim, seguindo uma taxonomia muito particular, que a autora divide os seres comuns em quatro categorias entre o real e o poético. Há velhos conhecidos em cada um dos grupos: o joão-de-barro, a maria-faceira, a viúva-negra, o peixe-boi. Só que é nos seres que fogem de toda classificação lógica que a autora consegue extrair o máximo da proposta, como no caso da maria-vai-com-as-outras. Por se basear muito na linguagem científica e contar com ilustrações próprias da área acadêmica, é difícil perceber onde a arte extravasa o texto didático, o que é dado sobre a espécie e o que é trabalho literário.

San Paolo (Vincenzo Scarpellini)

Agarrei este livro num sebo pensando em uma proposta didática de escrevivência da cidade. O que seria ideia de aula acabou ficando na gaveta, fazendo a leitura sem compromisso ganhar ainda mais em qualidade. Em um acaso, "San Paolo" preencheu duas das minhas buscas recentes em literarura: narrativas curtas e relatos de viagem. Ainda que seja escrito e ilustrado por quem não está só de passagem por Sampa, há um olhar para o novo em cada página. Tem um jeito bonito de contar a cidade e suas dores, cada imagem costurada a um conto de poucas linhas. É a brevidade da poesia para narrar cada história entre a Ipiranga e a São João.

Contos de amor rasgados (Marina Colasanti)

É a capa mais feia da minha estante, sem dúvida - e fica como um lembrete de que quem vê cara não vê coração. Depois de uma oficina ruim de minicontos, quis resgatar a leitura desse livro menos conhecido de Marina Colasanti, autora tão renomada da literatura infantojuvenil. Nem todos os textos da coletânea são minicontos, ainda que ocupem no máximo duas páginas. E, de qualquer forma, usar o tamanho para definir o gênero nunca dá em consenso (veja-se a fronteira sempre remarcada da diferença entre conto e novela). O fato é que tamanho não é documento. Se me lembrava desse pequeno conjunto como exemplo máximo de minicontos é porque, mais de uma década depois de minha primeira leitura, o impacto se mantém. Por vezes me remetendo a Black Mirror, por vezes aos labirintos borgianos, os contos de amor rasgam temas que bamboleiam entre a ficção científica e o surrealismo, o romantismo e o sádico, os mitos gregos e os contos de fadas. Para coroar, há a perspectiva feminista e combatente de uma ...

Canções de atormentar (Angélica Freitas)

As Canções de atormentar me deixaram na expectativa de um livro questionador e forte – o que realmente o é –, mas o sentimento que me dominou durante a leitura foi o de uma paradoxal diversão. Do que mais gostei no novo livro de Angélica Freitas foi da ironia, do discurso em tom de deboche que aparece em alguns poemas. Textos com uma verve mais política também despertaram minha atenção, ainda que de forma bem mais sutil do que a de Um útero é do tamanho de um punho . Gosto do conjunto e da identificação que encontro na voz da poeta, mas não é uma obra que tenha me impactado especialmente. Talvez esperasse sair mais atormentada de uma leitura que, ao final, me resultou leve, uma vez que partilho de muitos dos posicionamentos da poeta.

O alienista (Machado de Assis)

Ler O alienista  logo após ter assistido a Não olhe para cima  me fez pensar que Machado também se propôs, nesta novela, a realizar um retrato de seu tempo, capturar o zeitgeist  da época com todas as suas contradições. Apesar do intervalo histórico e da temática que as distanciam, as duas obras são resultado do embate entre ciência e crença, racionalidade e subjetividade na interpretação de teorias. Simão Bacamarte, protagonista do livro, é ora um espelho do médico altruísta e preocupado apenas em contribuir para o desenvolvimento da humanidade, ora a caricatura do cientista maluco. E, ao redor dele, a sociedade burguesa também oscila entre a concordância absoluta com as teorias propostas e a rebelião sangrenta contra elas. Tendo a ciência como seu principal tema, a obra subverte as expectativas do leitor ao não apresentar limites claros entre a genialidade e a alucinação de seu protagonista – tal como as barreiras entre loucura e sanidade são a todo momento revistas ao ...

Triste fim de Policarpo Quaresma (Edgar Vasques e Flávio Braga)

A versão em quadrinhos de Triste fim consegue não só fazer um belo recorte das cenas mais significativas da história, como acrescenta falas e observações oportunas em pontos-chave da trama.  Mesmo curtinha, a adaptação trabalha lindamente com a limitação de espaço para recriar a narrativa de Lima – ao contrário de muitas versões de romances em quadrinhos, que tentam socar muito conteúdo em pouquíssimo espaço.

Triste fim de Policarpo Quaresma (Lima Barreto)

Estou com a releitura de Dom Quixote parada há algum tempo aqui em casa; no entanto, enquanto não retomo minhas andanças com o cavaleiro da Mancha, não me canso de surpreender com a quantidade de histórias quixotescas com que me deparo no meio do caminho. Em 2021, já havia reparado nessa similitude temática em 1984  e em Frankenstein ; contudo, talvez em Policarpo  é que a ideia de um leitor tornado louco pelos livros seja ainda mais forte. Já havia entrado em contato com nosso Quixote nacionalista na adolescência; retomando a leitura agora, senti ainda alguns lapsos grandes de compreensão. O livro foca um período da história do Brasil que nunca me interessou particularmente (o começo da república). A edição que li, da Antofágica, apresenta notas de rodapé um tanto excessivas para termos bastante simples, mas só nos dá o contexto histórico em um amontoado de informações sem remissão clara ao final da publicação. Apesar do personagem que o intitula, Triste fim  é uma obra ...

Vista chinesa (Tatiana Salem Levy)

Ao adentrar pelas páginas de Vista Chinesa , já conhecendo por antecipação o seu tema, me propus o exercício de relembrar quantos dos livros que já li tratavam do estupro. Repassei, inclusive, algumas das leituras que fiz neste ano, como To Kill a Mockingbird e Ensaio sobre a cegueira . Mas nada do que vira até então constituiu um retrato tão chocante como o proposto por Tatiana Salem Levy. Não é só o pressuposto de ser fundamentado em uma história real. O que dói aqui é ler a perspectiva de uma mulher não calando o que é o nosso medo compartilhado mais profundo. Que mulher no mundo nunca passou por uma situação de assédio? Quem de nós nunca teve esse temor? Talvez a sororidade seja isso, em suma: possuímos um horror ancestral que nos iguala. Finalizada a leitura, as cenas descritas a todo momento voltam à memória. Se eu, como leitora, tenho essa impressão, não é possível sequer imaginar quanto essa brutalidade deve assombrar a pessoa que realmente a viveu. Com pouco mais de 100 página...