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Mostrando postagens com o rótulo Literatura espanhola

Malas mujeres (María Hesse)

​Para quem está acostumado com a concepção cristã de mundo - em que as mulheres são a origem de todo o mal -, o mote do livro de María Hesse não soa desconhecido. Afinal, a proposta aqui é fazer uma historiografia da maldade feminina... ou, melhor, da maldade de quem alimenta as fogueiras há tanto tempo com a dita carne de bruxa. Comparado com outros livros da autora, "Malas mujeres" não é o meu preferido. Talvez seja porque já conhecia de antemão muitas das histórias contadas, ainda que o traço de Hesse as humanize de forma ainda mais potente.

El placer (María Hesse)

María Hesse cativou o mercado editorial com a publicação de uma biografia ilustrada de Frida; desde então, já produziu outras obras na mesma linha, retratando a vida de David Bowie e de Marilyn Monroe, por exemplo.  El placer  conta uma história diferente, passeia por outros gêneros. Neste livro, a autora revela sua relação com o próprio corpo e a descoberta do prazer. Ao relatar esse percurso íntimo, traz ótimas referências (de estudos científicos a obras de teatro) para repensar a vivência que temos com nosso sexo e nossa pele. Sem que o esperasse, durante a leitura me deparei com reflexões que são pautas diárias do movimento feminista. Ainda que use uma linguagem despojada para abordar diversos temas, as ideias propostas por Hesse são afiadas e cutucam o machismo predominante em nossa visão de corpo e sensualidade.  

Paixões (Rosa Montero)

Antes de se tornar uma escritora mundialmente conhecida, Rosa Montero trabalhou por muitos anos no jornalismo. Assim, não é difícil encontrar obras suas que carreguem o olhar do curioso, daquele que procura uma boa história para contar.   “Paixões” é um desses livros – cujo objetivo é narrar alguns dos casos de amor mais complicados (ou interessantes da história). Ainda que a seleção seja boa, os vinte anos que me separam de sua publicação já não permitem um olhar tão bondoso para com a escrita de Rosa.   Principalmente na descrição das mulheres, a autora pesa a mão. O resultado é um livro desigual, que não julga os homens com o mesmo peso e medida de suas companheiras amorosas. Algumas descrições também escorregam no gordofóbico, no estereotipado, nas soluções fáceis. É um livro de entretenimento, mas nem sempre vende bem a ideia que pretende passar.  

El cantar de mío Cid

Obra fundadora da literatura espanhola, "El cantar de mío Cid" traz características próprias de um poema épico: sendo um cantar civilizacional, erige as bases de uma nação ao mesmo tempo que consolida a língua pátria. Ler uma obra de quase 1000 anos é entrar em contato profundo com a sociedade de então. Para entender o contexto de expulsão dos mouros, poucos livros conseguem ser tão ilustrativos: em alguns trechos, chegam a ter um tom humorístico as situações inverossímeis nas quais mío Cid é retratado como alguém amado pelos muçulmanos. A mensagem é de que a bondade cristã é louvável mesmo quando conduz o extermínio de outros povos. Permeado de cenas de guerra, não deixa de ser curioso o fato de que os versos iniciais apresentem o herói da epopeia chorando. Ainda que a construção da obra tenha um viés absolutamente maniqueísta, é interessante observar que a figura do herói tinha não só coragem, mas também sensibilidade.

La ridícula idea de no volver a verte (Rosa Montero)

Rosa Montero é uma autora espanhola responsável por uma extensa obra, que abrange temas que vão da ficção científica a aventuras de cavaleiros andantes na Idade Média. Dona de uma linguagem acessível e conectada  com o tempo em que está inserida, situa-se no limiar impreciso entre a alta literatura e os livros de entretenimento. Talvez por se recusar ao enclausuramento na torre de marfim (e por escrever tanto e ser tão lida), nem sempre é bem acolhida por seus pares - o que inclusive se pode notar na sua eleição frustrada a uma vaga na Real Academia Española em 2015. Em "La ridícula idea de no volver a verte", na qual se increvem profundos traços autobiográficos, a escrita de Rosa torna-se quase transparente. A autora parte dos breves diários que a cientista Marie Curie fez após a morte de seu esposo, Pierre, para refletir sobre o falecimento de seu companheiro de mais de 2 décacas, Pablo Lizcano. Assim, uma perda real espelha a outra - e desse conjunto elabora-se a ficção....

A velocidade da luz (Javier Cercas)

Javier Cercas é um autor espanhol cujo sucesso começou de forma estrondosa e inesperada, com a publicação de "Soldados de Salamina" - e, como quase todo escritor muito lido, não é bem aceito pela academia. Podemos ver um exemplo desta recepção na resenha sobre "A velocidade da luz", publicada pela Folha de S.Paulo, que foi intitulada como "Espanhol segue fórmula do 'livro comum'". De fato, para quem busca inovações na linguagem e na estrutura do romance, Cercas não é a opção certa. No entanto, o fato de seguir escrevendo de acordo com a fórmula já batida de romance (e de obter tanto sucesso) nos faz pensar até que ponto, de fato, o gênero não corresponde aos anseios e expectativas do leitor deste século. "A velocidade da luz" segue a linha da autoficção - esta espécie de Big Brother literário, em que os limites da realidade e da ficção (ou das fake news ) são difusos, ambíguos. O meu maior problema, durante a leitura, foi a aversão qu...

Dictadoras (Rosa Montero)

Rosa Montero é uma prolífica escritora espanhola, que se aventurou por diferentes gêneros ao longo da carreira. Em "Dictadoras", a incursão em outras possibilidades vai ainda além do usual: a obra é uma reunião de textos que são fruto de um programa televisivo apresentado pela escritora.  A ideia da série/livro é investigar a vida das mulheres fundamentais na biografia de alguns dos maiores tiranos da história: Hitler, Mussolini, Franco e Stalin. Ainda que seja extremamente panorâmica, sem aprofundar-se nos personagens retratados, a obra é bastante curiosa e traz muitos elementos de interesse para o leitor. Para os gregos antigos, o homem político deveria ser escolhido dentre os cidadãos exemplares. Ainda que o conceito seja bastante problematizado hoje, é instigante notar que, de fato, os déspotas analisados foram igualmente execráveis na vida particular. Talvez a exceção seja Franco - casado com uma mulher ainda mais cruel do que ele próprio. Boa opção de leitura para q...

Frida Kahlo: uma biografia (María Hesse)

Uma das minhas impressões mais fortes ao visitar o México foi ver o quanto Frida, um símbolo de resistência e inconformismo, acabou se tornando um produto altamente vendável. Enquanto aqui no Brasil a vemos mais associada ao movimento feminista, em seu país de origem ela é usada para vender desde chaveirinhos até chocolate quente.  Nesse contexto de hipercomercialização, para que mais uma biografia sobre a pintora? María Hesse responde a esse questionamento de forma brilhante, elaborando um livro que apenas aparentemente é mais do mesmo. A grande ideia da artista espanhola foi recontar a vida da pintora mexicana com ilustrações autorais. Assim, todo o livro conta com belas releituras dos quadros e dos momentos mais impactantes de sua biografia. Tal como a linguagem da mexicana, os desenhos de Hesse são profundamente alegóricos - obras de arte exclusivas, ainda que tão inspiradas por Frida. Recomendável para um público juvenil, com linguagem bastante acessível, não deixa de se...

La vida es sueño (Calderón de la Barca)

Uma das minhas melhores leituras neste ano, que já acaba, foi "David Copperfield", de Dickens. E ainda é muito vívida para mim a sensação de que, enquanto o lia, pensava: "Como é bem escrito!". Essa impressão de prazer com a linguagem, de deliciar-me com a escrita repete-se aqui nesta obra barroca, de poucas páginas e avassaladora. Contemporâneo a Shakespeare, o dramaturgo espanhol apresenta alguns elementos da poética que fizeram do bardo inglês tão atemporal: ambientação na corte, figuras nobres representando os grandes dilemas humanos, um texto em versos belamente redigido e máximas sobre a virtude, a coragem, o amor. "La vida es sueño", peça mais reconhecida de Calderón, traz à tona um tema caro aos barrocos: a fugacidade de nossa existência. E, em uma mistura do carpe diem  com a moral cristã, chega à conclusão de que, uma vez que a vida é breve, aproveitemos-la - com justiça, boas ações e inteireza. Cheia de reviravoltas, aforismos, aventura, e...

Historia del rey transparente (Rosa Montero)

De Rosa Montero, já havia lido A louca da casa , romance disfarçado de autobiografia que engana o leitor, levando-o a confiar em uma narradora ambígua, fugaz, contraditória. Bastante curta, é uma obra extremamente bem acabada e que desperta a curiosidade para conhecer a autora da deliciosa vida inventada. Historia del rey transparente , na contramão, é um romance extenso - cerca de 600 páginas - e com um ambiente totalmente distinto. Situado na Idade Média, por volta do século XII, traz as figuras de cavaleiros andantes, feiticeiras, castelos, guerreiros das Cruzadas em um enredo de aventura e resistência. Também dialoga com tradições já conhecidas, como as histórias da Távola Redonda. Leola, personagem anfíbia, é uma aldeã que, para fugir das guerras, se veste com a armadura de um cavaleiro morto nas batalhas. A partir deste fato, oscila entre o masculino e o feminino ao longo de toda a trama, conforme as necessidades do contexto e suas próprias ânsias. Sem definir-se perempt...

A louca da casa (Rosa Montero)

Já havia escutado falar muito de Rosa Montero (principalmente em canais de booktubers de língua espanhola), mas ainda não havia lido nada da autora. Aproveitando uma promoção da Bienal, adquiri meu primeiro livro da escritora, talvez uma boa porta de entrada à sua obra justamente por ser uma espécie de autobiografia, que nos revela muito da personalidade de Montero. A louca da casa  é um título retirado de uma frase de Santa Teresa, e se refere à imaginação. Assim, a obra de Rosa não diz respeito apenas à própria vida, mas também relata casos muito interessantes de outros escritores para mostrar a relação deles com a sua capacidade de sonho, criação e devaneio. As histórias de vida pinçadas de escritores importantes na vida de Montero são tão essenciais quanto os capítulos de teor exclusivamente autobiográfico. No fim, seja ao relatar uma história própria ou alheia, o livro é um grande diálogo sobre a literatura em todas as suas formas.

Quién quiere a los viejos? (Ricardo Alcántara)

Romance para adolescentes sem protagonistas nessa faixa etária. Ao contrário, quem estrela a história são duas pessoas de bastante idade. A trama é forte e ótima para trabalhar o tema do respeito aos mais velhos.

Rufo y Trufo cambian de casa

Livrinho com história interessante para crianças que gostam de animais.

La lechera (Pepe Maestro)

Boa adaptação com ótimas ilustrações.

Para hacer un pastel de manzana (Pablo Albo)

O livro, que se destina a crianças pequenas, conta com um enredo bastante simples, o qual vai na contramão da vida acelerada que marca a infância de hoje. A história busca cativar seu jovem leitor e levá-lo a refletir sobre o valor das pequenas coisas.  As ilustrações delicadas ajudam a compor o clima do enredo, no qual excessos são desprezados em nome de bens mais simples. O decorrer da trama leva a criança a pensar em um ato de cada vez, a olhar com mais cuidado cada desenho, a tentar entender o porquê de cada ação dos personagens. Para os pequenos, vale a sugestão de leitura.

A gramática do amor (Rocío Carmona)

Este é um daqueles livros que me caiu na mão, sem que eu soubesse nada sobre seu autor ou conteúdo. Fui atraída pela capa, que me deu a entender que se tratava de um romance infanto-juvenil, e pela palavra "gramática" ostentada no título. Com curiosidade de professora comecei a leitura, pensando que se tratava de um daqueles livros paradidáticos que poderíamos recomendar aos nossos alunos. Com o que não contava é que "A gramática do amor" é um best-seller, com linguagem e tema característicos do gênero. Toda a história gira em torno de uma garota de 16 anos que sofre uma decepção amorosa e passa a ter aulas de "gramática do amor" com um professor de gramática inglesa. O mote é bem bobinho, mas os livros indicados pelo docente à garota são fenomenais, assim como os trechos selecionados. Seria uma boa obra  para indicar a alunos de Ensino Médio (linguagem fácil, intertextualidades interessantes), não fossem as referências a sexo e drogas que deixariam os...