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Mostrando postagens com o rótulo Filme brasileiro

Gabriel e a montanha (filme de 2017)

Inspirado no caso real de um mochileiro morto no Malauí, o filme alterna elementos da ficção e do documentário para reconstruir os últimos dias da jornada de Gabriel. Um exemplo desse trânsito de gêneros é o fato de muitos atores serem, de fato, as pessoas que o brasileiro encontrou em seu caminho. A produção não se preocupa em construir uma memória sem falhas do biografado; no entanto, justamente por não fazer isso, passamos a maior parte do tempo com raiva da petulância de turista "por um ideal", que se recusa a adotar soluções mais simples e prudentes ao longo da jornada. É a velha história de que o barato sai caro.

Olmo e a gaivota (filme de 2015)

Alguns dos melhores filmes a que assisti neste ano (mais cinéfilo que os anteriores) foram dirigidos por mulheres: "Ataque de cães", "A teta assustada" e, agora, "Olmo e a gaivota". E a condução de uma trama fora de perspectiva usual faz toda a diferença. Dirigido pela brasileira Petra Costa (de "Democracia em vertigem" e "Elena"), o longa-metragem é um retrato intimista e, ao mesmo tempo, abrangente das questões sociais que a maternidade envolve. Tal como "A história da filha perdida", a trama tem um forte apelo anticoncepcional. Ainda que conte a história de uma gravidez por escolha, é difícil não se impactar pelas restrições e falta de liberdade durante o período da gestação. A linguagem cinematográfica de Petra é construída por reminiscências, baús de guardados dos protagonistas postos em cena. Como o casal filmado trabalha no teatro, as fronteiras entre a realidade e a fição / o drama e o documentário são ondulantes, flex...

Tito e os pássaros (filme de 2018)

Animação brasileira de 2018, o filme ganha pontos por conseguir prever o cenário de uma pandemia muito próximo ao que acabamos conhecendo pouco tempo depois. Na produção, a epidemia é causada pelo medo - o que não deixa de ser uma visão sagaz sobre o tema. Outros aspectos abordados que prendem a atenção são o jornalismo sensacionalista das tragédias e o abandono das classes sociais mais pobres.  Contudo, no geral, o filme não se sustenta. O roteiro é fraco e culmina em um final confuso e inverossímil; os diálogos são rasos; o som é mal ajustado. O traço da animação também causa desconforto, que talvez pudesse ser relevado caso o conjunto todo fosse melhorzinho.

A última floresta (filme de 2021)

Como é difícil entrar em outra cultura. Em "A última floresta", as cenas que mais me marcaram foram as falas de Davi Kopenawa, que já é uma figura que transita entre a floresta e a cidade com desenvoltura. O documentário é permeado de narrativas tradicionais, da visão de mundo própria dos Yanomami, de lutas pela terra. Alguns elementos são facilmente reconhecíveis por quem tanto está distanciado das matas; outros exigem uma entrega maior, um conhecimento de cultura indígena que não temos.  Ainda que o objetivo da obra seja o de aproximar, ela também evidencia o abismo entre quem vive dentro e fora da floresta.

Ensaio sobre a cegueira (José Saramago) + filme de 2008

Quando muitos anos me separam de uma leitura, geralmente retenho mais a sensação do encontro com a obra do que detalhes de enredo, aspectos da narração, personagens. Contudo, Ensaio sobre a cegueira  é um livro do qual ainda muito me recordava. Se algo estava mais oblíquo nas minhas memórias, provavelmente era o poder de escrita de Saramago. E o final de livro e filme, ao qual tinha atribuído uma solução ingênua, sem perceber a potente ambiguidade que carregam. Fui engolfada pelas palavras do escritor, ainda que recordasse de antemão boa parte dos acontecimentos da trama. Deparei-me com uma perspectiva mais crítica em relação ao romance (muitos questionam, por exemplo, um suposto discurso capacitista), mas a verdade é que pouco me incomoda profundamente no romance. Até alguns aspectos que esbarram no machismo (como o fato de a personagem principal ser apenas "a mulher do médico") podem ser lidos em um leque mais abrangente, em que essas disparidades do discurso são o reflexo ...

Cinema, aspirina e urubus (filme de 2005)

Ainda que filmes de viagem me encantem, não costumo ser uma grande fã dos road movies - talvez porque a ideia de personagens em fuga de algo, sem propósito na vida, seja uma temática constantemente repetida pela estrada.  Não é o caso de Cinema, aspirina e urubus ; ainda que o longa seja permeado de fugas e deslocamentos, eles dialogam com uma realidade mais concreta, mostrando o total abandono de seus protagonistas em contextos tão cruéis como a Alemanha nazista, a guerra e a fome no sertão. O enredo traz ainda uma dos elementos que eu mais gosto (no cinema, na vida): o encontro de desconhecidos que não têm nada em comum e, ainda assim, compartilham um profundo diálogo e entendimento sobre as situações pelas quais já passaram.

AmarElo (filme de 2020)

Gosto de Emicida há um bom tempo, mas sempre fico reticente em citá-lo quando converso com alguém que curte  rap . A opinião geral com que me deparo, invariavelmente, é de que o cantor foi abandonando suas raízes conforme foi ganhando fama. De certa forma, considero a crítica justa — afinal, se continuasse defendendo suas origens como quem nunca saiu da periferia, Emicida estaria negando seu lugar de fala atual. No entanto, de onde está agora, é inegável que sua voz tem maior alcance. Um dos recursos que ele utiliza justamente para potencializar suas canções é o diálogo com diversas outras vertentes da música brasileira. Confesso que eu mesma não gostei muito do seu álbum AmarElo, que tem uma melodia mais pausada e calma, que não me toca tanto. Ainda assim, ser o fio que conecta diversos outros artistas e discursos é um papel que tem sido bem desempenhado pelo cantor. No filme, além de cenas do show no Theatro Municipal, há um rico panorama de fundo. Nele, muitas figuras negras es...

O começo da vida - parte 2 (filme de 2020)

Quando falamos em educação, dificilmente pensamos no meio ambiente como algo além de um conteúdo de avaliação ou, no máximo, um item para constar no PPP. Poucos educadores são reconhecidos por verem, nas crianças, uma parte da natureza – que precisa, consequentemente, estar rodeada de terra, água, ar, plantas e animais (e não ficar confinada a uma caixa de cimento repleta de telas). Nesse contexto, o filme O começo da vida  vale mais do que muita palestra sobre pedagogia por aí. Os fatos de que ele trata são poucos (e sempre respaldados por uma visão científica); em suma, a ideia defendida é que o contato com o meio ambiente é uma prerrogativa para um futuro possível. Se as crianças não sobem em árvores, não veem animais na natureza, não sabem de onde vêm os alimentos, não terão por que lutar. Afinal, como exigir delas que preservem um meio ambiente que sequer conhecem? Além da beleza de reunir tantos discursos e imagens potentes, o documentário ainda tem a força de trazer a voz da...

Democracia em vertigem (filme de 2019)

Um pouco ressabiada com o fervor que o filme causou, só me senti estimulada a assistir a "Democracia em vertigem" após conhecer um dos trabalhos prévios da diretora - o excelente "Elena". E, mais do que a política, foi o fato de ser também uma obra permeada de visão autoral e trechos da própria biografia de Petra o que mais me atraiu para este documentário. Em nenhum momento a diretora se isenta da sua posição ideológica durante a narrativa. Nesse ponto, é um documentário que foge à voz impessoal de uma terceira pessoa, assim como não trata a política como algo distanciado do dia a dia de cada um de nós. Petra revela a polarização de sua própria família para, a partir dela, entender as origens da fragilização democrática do Brasil atual. Assim, conforme acompanhamos a investigação da sua árvore genealógica, escavamos nossas próprias raízes - na tentativa de entender como as discussões sobre política no churrasco da família reverberam um caos muito mais profun...

Elena (filme de 2012)

Antes de assistir ao brasileiro indicado ao Oscar ("Democracia em vertigem"), quis conhecer um pouco do cinema de Petra Costa. "Elena" foi minha porta de entrada para a obra da diretora - que me abriu não só para a sua linguagem cinematográfica, mas também para sua biografia.  Neste documentário sensível e profundamente pessoal, Petra nos narra a história de sua irmã Elena, que cometeu suicídio no início da juventude. Assim, acompanhamos não só a perspectiva da diretora adulta, como também a da menina de 7 anos que descobre que sua única irmã se matou. Com o olhar da maturidade, a diretora revê sua irmã - e, ao recuperar desde filmagens de aniversário a gravações em K7s, vemos o quanto Elena era uma jovem inteligentíssima. Suas falas ao longo do filme me lembraram um pouco o tom de uma Ana Cristina César, com uma irreverência avassaladora.  A produção de Petra é uma justa homenagem à irmã que conheceu por apenas 7 anos, mas que marcou todas suas decisões poste...

O menino e o mundo (filme de 2014)

(Resenha de 2014): Ainda que fosse só pela experiência estética, "O menino e o mundo" já seria um bom filme. A linguagem da animação usa aquarelas, recortes, colagens, efeitos que lembram quadros, videogames, clipes musicais, caleidoscópios... É uma imersão em diversas possibilidades artísticas, todas construídas com extremo bom gosto e muito bem contextualizadas em relação a cada momento da trama. Se, em um primeiro momento, os riquíssimos efeitos visuais nos capturam, em um segundo momento já são nossos ouvidos que são conquistados com a espetacular trilha sonora - de Barbatuques a Emicida, ela é eclética e rica. Mas, como não bastam efeitos visuais e sonoros, um filme precisa também de uma boa história. E é neste ponto que "O menino e o mundo" se supera. Inicialmente contada com uma linguagem bastante infantil, aos poucos a narrativa mostra todo o seu potencial. As críticas ao nosso modo de vida, à destruição do planeta em nome do dinheiro, à falsa democracia...

A vida invisível (filme de 2019)

Os primeiros minutos de "A vida invisível" me deixaram ressabiada; afinal, um dos indícios de uma adaptação mal-sucedida de livro para as telas costuma ser a voz do narrador transposta tal qual aparece na obra literária: uma enunciação onisciente e que claramente lê trechos do livro-base enquanto as cenas se desenrolam. No entanto, em pouco tempo a produção desfaz essa má impressão inicial para se tornar uma obra de arte bem pensada e que tem sim uma linguagem própria muito bem trabalhada. Com atuações potentes (para não dizer da participação brilhante de Fernanda Montenegro), o filme sabe como conquistar o espectador. De todos os aspectos que me agradaram, o que mais me tocou foi a visão particularmente feminina da realidade. Várias opressões e angústias que afligem o gênero são delicadamente retratadas, de uma forma sutil (mas que não se abstém de ser politicamente demarcada).

Com a palavra, Arnaldo Antunes (filme de 2019)

Bastante despretensioso, o documentário é basicamente uma longa entrevista com Arnaldo Antunes.  Do conjunto, os pontos que mais me despertaram a atenção foram a história de formação dos Tribalistas (totalmente espontânea, sem a pressão de gravadoras) e o belo cenário natural em que o artista está imerso (em que a inspiração provavelmente não falha).  Não é um filme que me ajudou a gostar mais ou menos da obra do cantor/poeta/performer. Se não chega a ser ruim, igualmente não encanta.

Bacurau (filme de 2019)

Pouco conheço de cinema brasileiro, mas é difícil não sair da sessão de "Bacurau" sem acreditar que esta é uma produção bastante diferente do que se fazia até então. Talvez o contexto político corrobore essa visão, que pode ser equivocada; no entanto, o fato é que estamos diante de um filme que protesta e cria engajamento. O diálogo com as tradições literárias do real maravilhoso, do realismo mágico - e mesmo da distopia - é bastante forte na produção. Há uma oscilação entre os limites possíveis da realidade, que se reflete nas escolhas de fotografia e roteiro. Algumas cenas, aparentemente inverossímeis, são explicadas brevemente ao espectador, mas com destreza; assim, ao invés de nos fazer desconfiar da obra, nos faz imergir em um contexto de imprecisões e frágeis verdades. Com personagens arquetípicos e alegóricos, a narrativa consegue criar múltiplas camadas de significado em um roteiro bastante aberto a interpretações. Outro ponto que me chamou a atenção foi o retrato d...

Novos caminhos da leitura (filme de 2019)

Documentário informativo, consiste basicamente em uma série de entrevistas com pessoas que descobriram outras formas de abordar a leitura, com foco no uso de tecnologias. Assim, booktubers , instagrammers  e outros personagens da era digital são convidados a refletir sobre o que nos faz ler hoje e como é possível incentivar esse hábito. Além dos divulgadores virtuais, a fala de editores, livreiros e autores ajuda a dar consistência ao discurso que se produz em torno aos livros. Se, por um lado, não se trata de nenhuma grande novidade, por outro lado o filme não deixa de construir um panorama interessante sobre a leitura nesse início de século.

Gregório de Mattos (filme de 2002)

Ao elencar o poeta Waly Salomão para interpretar Gregório de Mattos, o filme biográfico sobre o Boca do Inferno parecia ter por objetivo trazer mais vitalidade à recitação dos poemas que perpassam a obra. No entanto, se a escolha foi acertada, ela não é o suficiente para manter o interesse pelo longa. Com um tom sépia que não sabe valorizar a fotografia, recitações longas e fastidiosas, o filme acaba prendendo mais a atenção pelo elemento da transgressão, tão presente na vida de Gregório. Contudo, até o profano acaba sendo banalizado, com as inúmeras cenas do poeta perseguindo freirinhas no convento. Não chega ser de todo dispensável para quem se interessa pelo escritor, mas é uma obra que exige mais paciência do que a leitura de fato das poesias.  

Bruta aventura em versos (filme de 2011)

O filme-biografia sobre a escritora Ana Cristina César é bastante elucidativo, ainda que feito de maneira simples e sem muitas inovações na linguagem cinematográfica. Basicamente uma reunião de entrevistas, é uma obra que consegue dar uma visão panorâmica sobre a curta vida da artista. Merece destaque a escolha por não reduzir Ana a uma escola literária ou movimento específico. Ao longo dos depoimentos que são colhidos, o espectador pode ter uma noção da complexidade da autora, que não se deixava rotular com facilidade. Dentre os entrevistados, o poeta Armando Freitas Filho é o que fornece as informações mais íntimas sobre a escritora, aproximando o receptor da obra dessa personalidade tão intensa e, ainda assim, tão oblíqua.

Happy Hour: verdades e consequências (filme de 2017)

Típico filme que vale mais pelo trailer do que pela execução - Happy Hour é uma obra que consegue conquistar, à primeira vista, mas que se perde totalmente no meio do caminho. Ou até antes. Com um elenco entre argentino e brasileiro, com a língua oscilando do espanhol para o português, é uma produção bastante dividida. A parte em que domina o narrador argentino - por mais crápula que seja - ainda consegue envolver minimamente o espectador. Já nos trechos interpretados pelos atores conterrâneos, domina um clima de novelão da Globo (e muito do malfeito). O final do enredo, que tenta surpreender, mostra as falhas de uma narrativa confusa e cheia de buracos. Não dá para entender qual é a proposta, gênero ou lição que o filme pretende passar. Em suma, dispensável.

Highlands (filme de 2017)

Guilherme Cavallari se tornou uma das minhas inspirações de viagem após ler o incrível "Transpatagônia: pumas não comem ciclistas" e assistir ao filme homônimo. Mochileiro experiente, que fez das trilhas a sua profissão, o autor tem uma visão bastante filosófica e reflexiva sobre o desbravar de novas terras. Inserido em um meio no qual os relatos ora pecam pela exaltação da experiência, ora falham pelo tom de "lição de vida", a escrita de Cavallari consegue alcançar um meio-termo de bom tom e bastante equilíbrio. Aliás, escrita e olhar - no caso de Highlands, fiz o percurso inverso e primeiro assisti ao filme. Obra curta, feita com equipamentos simples, ainda assim é permeada de boas reflexões e curiosidades sobre a viagem. Além do mais, saber das possibilidades que a Escócia oferece em paisagens também é uma boa pedida.

Call Me By Your Name (livro de André Aciman + filme de 2017)

Ainda que a obra do escritor egípcio André Aciman tenha seu valor, este é um dos raros casos em que o filme consegue ser bem melhor que o livro. Tendo como premissa a história de um romance de verão, um dos pontos cruciais da narrativa para não cair na banalidade é a sua ambientação em uma cidadezinha intimista da Itália. Ao dar vida às imagens, o longa consegue criar um pano de fundo mais cativante para o espectador. Na sua versão literária, a narrativa encanta e afasta pelo mesmo motivo: o seu tom poético. Ora construído de forma extremamente bela, ora exagerado a ponto de soar piegas - o estilo de Aciman tem seus bons momentos, mas alguns cortes editoriais poderiam ajudar muito na fluência do texto. O filme, que não pode se dar ao luxo de se estender tanto no tempo, sabe extrair o essencial da trama e torná-la mais bem-acabada. Além do cenário, que já comentei, a trilha sonora e a escolha de elenco só agregam qualidades à obra. O protagonista de CMBYN, que havia me parecido um a...