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Mostrando postagens com o rótulo filme britânico

Quatro casamentos e um funeral (filme de 1994)

Não costumo gostar dos filmes de Hugh Grant, mas tinha a vaga lembrança de que havia assistido a essa obra há muito tempo – e curtido. Percebi, logo no começo, que me baseei em uma memória falsa; no geral, é um enredo bem chatinho, que mal e mal entretém.  Se participar de uma cerimônia de casamento sempre dá um pouquinho de tédio, multiplique por 4 (acrescentando um funeral, como anuncia o título): o resultado é uma comédia romântica fraca, em que quase nada dá liga. 

Gladiador (filme de 2000)

Filmes de ação costumam me perder logo nas primeiras cenas de luta. Em “Gladiador”, apesar da temática agressiva, há elementos que fazem o restante valer a pena. Priorizando o contexto de desenvolvimento da filosofia romana no qual se insere, o enredo é permeado de reflexões sobre o que é o poder, a república, a vontade do povo, o bem e o mal. Se não fosse pela escolha acertada dos atores, talvez a trama reverberasse em um maniqueísmo fácil. Contudo, a figura calma e concentrada de Russell Crowe nega o estereótipo do guerreiro valente; de forma parecida, Joaquin Phoenix representa um vilão com baixa autoestima e vacilante nas decisões que toma, por mais violentas que sejam. Quase um quarto de século depois de sua estreia, é uma obra que envelheceu bem, com questionamentos que seguem atemporais.

O rei leão (filme de 2019)

Tenho vontade de rever "O rei leão" desde que soube se tratar de uma releitura de Hamlet. Isso de saber um novo olhar para aquilo que já conhecemos é impactante - é impossível retirar a camada de significados, limpar nossa opinião do que agora a antecede. Não deu para não reconhecer Shakespeare. E não deu para não problematizar racismo, machismo e heteronormatividade. Depois de uma aula da Heloisa Pires Lima (autora de "Histórias da preta") sobre estereótipos étnicos, o contraste entre Mufasa/Simba (leões de pelagem clara e másculos) e Scar (com pelagem escura e trejeitos afeminados) ficou gritante. É uma oposição muito forte entre o branco bom e o escuro (que é mau ou serviçal). Para não falar da ideia de governante predestinado e das fêmeas passivas. A parte gráfica é impressionante, mas não dá para esconder o simbolismo que carrega.

Thelma & Louise (filme de 1991)

Talvez haja algum exagero ao longo do filme - mas a sensação de alma lavada ao ver as duas protagonistas botarem fogo no parquinho em situações machistas é impagável. Boa trilha sonora, ótimos atores, a direção conhecida de Ridley Scott coatuam para garantir a importância das questões discutidas até hoje.  Para uma obra produzida nos anos 1990, é incrível ver como o retrato de uma forte sororidade foi bem realizado. Fora o personagem do delegado, que tenta contrabalançar a malandragem dos caracteres masculinos com uma bondade inverossímil, todo o conjunto funciona. E que final apoteótico.

Orgulho e preconceito (Jane Austen) + série de 1995 + filme de 2005

Faz tempo que Jane Austen estava na minha lista de autores a conhecer – mas, ao mesmo tempo, provavelmente o motivo de ter adiado tanto esse primeiro encontro seja a aura açucarada que parece acompanhar toda a sua escrita. Sem pesquisar um pouco do contexto, "Orgulho e preconceito" realmente dá a impressão de amorzinho fofo. Mas não é por ter escrito algo similar a uma coleção "Sabrina" do século XIX que a autora se fez reconhecida; há muito mais que a história de casamentos na estrutura da narrativa. Além da crítica à divisão da herança (que ficava restrita aos filhos homens de uma família), Austen mostra a mesquinhez de relações que são movidas unicamente pelo dinheiro. O pano de fundo das guerras napoleônicas, o surgimento da Revolução Industrial e uma maior maleabilidade entre as classes sociais (apenas as mais confortáveis em seu status, como novos ricos e aristocracia) também dão as caras no romance. A série de 1995: para quem gosta de uma adaptação fiel, é um...

Robin Robin (curta de 2021)

A animação é bonitinha, com este efeito de espuma nos personagens e uma leve problematização do consumismo. Não é nada imperdível, enfim.

Belfast (filme de 2021)

Entre as categorias não ditas do Oscar, quase sempre estão um filme de rainha, um filme de Segunda Guerra, um filme que homenageia a história do cinema e um filme preto e branco. Belfast se encaixa nessas últimas duas classificações, mas também engloba uma nominação mais: a de filme pretensioso. Querer contar uma história em preto e branco hoje é assumir que a linguagem atual cinematográfica não dá conta da problemática a ser narrada. Contudo, empregar a técnica para compor uma visão maniqueísta, de real preto no branco, é apostar na redundância. E elas não faltam no filme: bem e mal muito definidos, símbolos simplórios, alegorias óbvias. Além de cenas simplesmente ruins: o casal de protagonistas dançando como se estivessem em um high school musical é apenas uma delas.

Anna Kariênina (Tolstói) + Filmes de 1948 e 2012 / Séries de 1977 e 2013

Para um livrão desses, me propus a uma jornada por diferentes versões de Anna. Compartilho um pouco do passeio por aqui: O romance em si: em um calhamaço de tantas páginas, os personagens se tornam companheiros de travessia. Ao longo da narrativa, há altos e baixos – nem todas as partes terão a força da tão famosa frase inicial que abre a trama. Contudo, mesmo nos trechos maçantes, a intencionalidade do autor é bastante clara; difícil é se esquivar ao impacto da escrita de Tolstói nesse romance. Assim como em "Guerra e Paz", o autor escolhe um personagem para ser o porta-voz de seus próprios ideais no enredo, mas isso não leva a um romance panfletário. Pelo contrário: cada personagem é tão bem construído que conseguimos nos identificar mesmo com as posições que Tolstói rejeitava, como o arrependimento de ter tido filhos (Dolly) e a rejeição a um casamento convencional (Anna Kariênina). As partes que mais me tocaram foram aquelas em que a pequenez dos objetos cotidianos se mes...

Ataque dos cães (filme de 2021)

 Mais um da lista do Oscar: do que mais gostei aqui foram as fronteiras tênues que negam os estereótipos de sexualidade. O caubói escroto, que aprendemos a odiar nos primeiros 15 minutos de filme, toca banjo e coleciona borboletas; o menino delicado é aquele que sabe como matar com frieza. A fotografia é linda e usa recorrentemente o efeito de moldura nas cenas: tanto para mostrar o caráter fragmentário da trama como para revelar o claro-escuro da personalidade ambígua dos protagonistas. Trilha sonora e cenário são muito bem escolhidos na produção. Ainda que incômodos, os elementos todos são muito bem amarrados - não à toa, um dos principais símbolos da trama é uma corda.

O conde de Monte Cristo (filme de 2002)

Sem ainda conhecer o romance original de Dumas, não sei se a máxima de que o livro é sempre melhor do que o filme se aplica aqui. Com uma trama bastante novelesca e cheia de reviravoltas, a produção é um retrato da concepção de mundo romântica. Contudo, temos um diferencial na narrativa usual da época: em vez de movido por uma grande paixão, aqui temos um personagem inspirado por seu ódio. E, confesso: como espectadora, é muito mais interessante acompanhar uma história de vingança do que um romance açucarado.  Talvez seja este um dos elementos da genialidade da obra de Dumas: saber que, apesar de toda a glória romântica, do que gostamos mesmo é de um bom barraco.

Sorry we missed you (filme de 2019)

A direção de Ken Loach sabe como descascar as feridas do nosso mal-estar contemporâneo. Assim como no excelente "Eu, Daniel Blake", este filme mais recente de sua produção é de uma desolação tremenda. E o que potencializa essa tristeza é a consciência de quão perto ela está de nós, de nossa frágil situação de classe média em um mundo que continuamente despeja mais pessoas para a linha de pobreza... ou abaixo dela. O incômodo que as cenas do protagonista causam é bastante palpável e dá a tônica de boa parte da obra. Contudo, há outros aspectos na trama que ajudam a contrabalançar essa sensação, ainda que nada gere alívio. Os diálogos com o filho, de uma geração que ainda acredita em mudança, são um desses pontos fortes da narrativa.

O último duelo (filme de 2021)

Adaptação de um romance, os primeiros minutos de "O último duelo são frenéticos", com cortes mal sinalizados e a rápida passagem do tempo entre uma cena e outra. A impressão que se tem, considerando a pressa do início, é que a trama tentou condensar fatos do romance que a inspirou ao mesmo tempo que se esforçava para não deixar nada de lado. Contudo, conforme avançamos na trama, percebemos que as cenas iniciais precisavam ser contadas sem pormenores, a fim de criar a ilusão de realidade da história retratada. Aos poucos, vamos percebendo que todos os fatos exibidos ao longo da trama são dignos de questionamento e de visões diferentes sobre o que ocorreu. O grande mérito do filme é esse (e não as cenas carniceiras de batalhas medievais). A mesma história é apresentada três vezes, sempre sob a perspectiva de um personagem diferente. Só ao final, quando a mulher finalmente tem voz, percebemos que tudo pode não ter passado de um grande engodo narrativo.

O homem que matou D. Quixote (filme de 2018)

A figura do cavaleiro andante em cenários mais contemporâneos é uma temática que me agrada muito, especialmente no cinema. Entre exemplos que me marcaram, estão "O homem que era o super-homem", coreano, e "O sr. Kaplan", uruguaio. Em "O homem que matou D. Quixote", uma produção espanhola, também temos o elemento do estranhamento com personagens que falam em inglês quase o tempo todo. Uma das curiosidades dessa produção é o fato de ter levado quase 30 anos para ficar pronta. Talvez tanto tempo no forno seja o sucesso da obra, que é toda bem amarradinha, mesmo que essa coerência interna pareça difusa no ambiente quase carnavalesco em que se desenvolve a trama principal.  Há algo de surrealismo no longa (que me lembrou Jodorowsky), mas que se casa muito bem com o plot original do Quixote – afinal, mesmo escrito há tantos séculos, continua sendo uma das obras mais contemporâneas que temos.

Radioactive (Lauren Redniss) + filme de 2019

Talvez Radioactive seja a minha biografia favorita – o que não é de se estranhar, uma vez que Marie Curie é uma das personalidades que considero mais instigantes e inspiradoras. Contudo, a grandiosidade da obra não se atrela unicamente à relevância das vidas biografadas, mas principalmente ao jeito único que Lauren Redniss tem de contar uma história. As próprias ilustrações da autora causam um certo estranhamento inicial: não se trata aqui, portanto, de fazer uma obra esteticamente bela sobre a vida dos Curie. A ambiguidade da descoberta do rádio e do polônio – ora salvadores, ora arrasadores – perpassa cada página da obra, que não se oferece de maneira simples ao seu leitor. É uma beleza que precisa de esforço para ser vista. Além disso, o que me encanta na narrativa construída em torno da vida de ambos os personagens (porque esta é também uma biografia de Pierre, por mais que nosso interesse orbite principalmente em torno de Marie) é a costura de diferentes elementos para erguer uma...

A filha perdida (Elena Ferrante) + filme de 2021

Uma boneca perdida, uma criança desaparecida, os duplos entre amigas e entre mães e filhas, Leda e Nina: os elementos da mitologia de Ferrante não escapam ao livro A filha perdida . Ademais, considerando que se trata de um romance mais sucinto (menos de 200 páginas), talvez nele essas figuras características da escrita da autora brilhem com ainda mais força, forçando toda a narrativa a girar ao redor dessa constelação de alegorias. Ainda acredito preferir o livro ao filme, apesar de a adaptação realizada em 2021 ser ótima e caminhar independentemente da obra em que se baseia. Contudo, há alguns elementos que aparecem com mais força com o punho da própria autora, como as reflexões da protagonista sobre seu passado e as relações de poder intrínsecas a uma família. No filme, não há uma voz de narradora que mimetize a do livro – o que é um acerto, já que lhe confere assim mais autonomia. O que vemos retratado com os dizeres afiados de Ferrante no romance é o que capturamos pelo belo amálga...

14 montanhas, 8 mil metros e 7 meses

Muito do que conhecemos sobre o Nepal e o Himalaia vem filtrado pelo olhar do estrangeiro; ao pensarmos nos alpinistas que realizaram o feito de atingir seu cume, geralmente os associamos a figuras europeias ou estadunidenses, que são vistas como exemplos de superação e mérito. Em "14 montanhas", a retórica sobre o Himalaia é subvertida, o que nos obriga a olhar para a história de escaladas de maneira muito mais crítica. No filme, quem se propõe a subir não só o Everest, mas também outras 13 montanhas complicadíssimas (e em apenas 7 meses), é um alpinista nepalês. Ou seja, o que modifica o nosso olhar é o tão discutido lugar de fala – e como faz diferença. Talvez o que me incomode um pouco na figura do alpinista principal (afinal, ele também tem os seus sherpas) é seu caráter de quem é formado em academias militares. Ainda que o filme passe muito longe de um discurso belicista, algo dessa visão muito racional dos desafios me incomoda. O filme não ressalta esse lado de seu pro...

Ensaio sobre a cegueira (José Saramago) + filme de 2008

Quando muitos anos me separam de uma leitura, geralmente retenho mais a sensação do encontro com a obra do que detalhes de enredo, aspectos da narração, personagens. Contudo, Ensaio sobre a cegueira  é um livro do qual ainda muito me recordava. Se algo estava mais oblíquo nas minhas memórias, provavelmente era o poder de escrita de Saramago. E o final de livro e filme, ao qual tinha atribuído uma solução ingênua, sem perceber a potente ambiguidade que carregam. Fui engolfada pelas palavras do escritor, ainda que recordasse de antemão boa parte dos acontecimentos da trama. Deparei-me com uma perspectiva mais crítica em relação ao romance (muitos questionam, por exemplo, um suposto discurso capacitista), mas a verdade é que pouco me incomoda profundamente no romance. Até alguns aspectos que esbarram no machismo (como o fato de a personagem principal ser apenas "a mulher do médico") podem ser lidos em um leque mais abrangente, em que essas disparidades do discurso são o reflexo ...

Questão de tempo (filme de 2013)

Ter como uma de suas protagonistas uma agente literária já seria o suficiente para me fazer interessar por esta trama; mas, para minha boa surpresa, o filme também traz um enredo interessante (que mescla elementos da comédia romântica com outros da ficção científica), atores ótimos e uma boa pitada do humor britânico. Como toda ficção que propõe uma viagem no tempo, é um enredo com lacunas que descabelariam físicos – mas, no contexto de uma obra leve e despretensiosa, o tema vira apenas um pano de fundo interessante para a história principal. Além de quem quer verossimilhança na área das exatas, as feministas (eu inclusa) também terão várias críticas ao enredo, que coloca homens em posição histórica de protagonismo e poder. Apesar do dito acima, e ainda que haja um quê de lição de moral ao final, não deixa de ser um ensinamento verdadeiro. Tanto assim o é que máximas de sabedoria permeiam toda a narrativa – dá vontade de pausar as cenas e anotar tudo em um caderninho.

Wittgenstein (filme de 1993)

Pensado inicialmente como um especial para televisão e formatado com elementos muito próprios do teatro, Wittgenstein é um filme que passeia com leveza por diferentes linguagens, ao mesmo tempo que nos questiona profundamente sobre o âmago filosófico da linguagem em si mesma. Para mim, que pouco conhecia do linguista, a obra funcionou quase como uma explicação didática: cita quem ele foi, suas contribuições enquanto estudioso e seus pares na época em que viveu. No entanto, ainda assim parte-se do pressuposto de que o público-alvo do filme é aquele que tem um interesse mínimo nos temas abordados. Mesmo que empregue a linguagem mais leve, própria de quem seria exibido na TV, ainda visa um interlocutor bastante específico. E isso se reflete inclusive nas escolhas estéticas da produção, que brinca com o experimental, o lúdico e o grotesco, criando uma composição predominante agradável... mas que não deixa de ser perturbadora.

Entre o inferno e o profundo mar azul (filme de 1995)

Costumo me emocionar com filmes que trazem protagonistas crianças. Talvez seja uma espectadora fácil de ser convencida, já que obras que apelam para o protagonismo dos pequenos são recorrentemente acusadas de dar um golpe baixo: afinal, todo sofrimento infligido a quem mal começou a viver é muito mais carregado de dramaticidade. Tendo a acreditar que essas críticas não se aplicam ao filme Entre o inferno e o profundo mar azul . Ainda que o enredo deixe claro que não há nenhuma perspectiva de um futuro melhor para a criança que o estrela, tampouco exacerba sofrimentos do momento presente. Não se trata de um filme em que acompanhamos as desilusões de uma criança, mas sim de uma obra que deixa implícito todo o longo caminho de tristezas que a protagonista trilhará. Se não há explicitação do pesar da criança, tampouco o há do adulto. O marinheiro, que divide o protagonismo com a pequena chinesa, é um homem calado, que deixa transparecer seu desespero em poucas e intensas atitudes. Gosto mu...