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Medicina dos horrores: a história de Joseph Lister (Lindsey Fizharris)

A quarentena foi uma boa oportunidade para desencalhar da estante livros mais leves, que exigem menos atenção e paciência. Em princípio, nenhum dos temas de "Medicina dos horrores" dialoga comigo; entretanto, o fato de fugir de meu campo de atuação foi mais uma das vantagens que a obra me ofereceu, já que me permitiu um pacto descompromissado de leiga no assunto. Focada na vida de Joseph Lister, a biografia dá um bom panorama histórico da medicina e da Europa do século XIX. É bastante interessante o quanto um fato simples (passar a usar antissépticos nas cirurgias) foi responsável por uma forte mudança em diversos campos, que vão da medicina à arquitetura. Além disso, a autora do texto nos mostra que, sem os estudos de Lister, talvez o próprio conceito de hospital tivesse perdido força para os tratamentos realizados em casa.

Correr (Drauzio Varella)

Parei de acompanhar Drauzio Varella na época de "Estação Carandiru"; assim, reencontrar o médico como autor foi uma experiência bastante curiosa. Ademais, o livro muda o foco da atuação mais conhecida de Drauzio – no sistema carcerário – para uma vivência bastante pessoal, que quase se assemelha ao registro de um diário. Tenho gostado bastante de correr e de entender o funcionamento do corpo em movimento. Dessa forma, a história de como um senhor de 50 anos resolveu de um dia para o outro virar maratonista (e com sucesso) só poderia me cativar. Há uma parte um tanto exaustiva no livro, que se propõe a analisar a história das maratonas desde a Grécia. No entanto, quando volta ao relato pessoal, a escrita de Drauzio é uma delícia. Ainda que com o passo mais apressado, há um quê de filosofia peripatética em quem descobre o seu meio e arredores a pé.

Tempo de despertar (Oliver Sacks)

Meu autor de 2017 foi Oliver Sacks, que, mesmo longe do mundo literário, me apresentou as grandes possibilidades ficcionais da mente humana. Neurologista, o autor faz de seus diagnósticos relatos pessoais, em que podemos acompanhar casos clínicos quase inverossímeis de tão descolados da nossa realidade habitual. "Tempo de despertar", primeiro livro do cientista, acompanha a história de pacientes aparentemente catatônicos e a descoberta de uma droga que irá "despertá-los" - de forma intermitente e não isenta de conflitos. O interessante nos relatos de Sacks é que, além de colocar-nos em contato próximo com cada doente, amplia o nosso paradigma acerca de conceitos complexos, como normalidade e loucura. Dotar pacientes, considerados casos perdidos, de voz, notar suas personalidades, registrar seus desejos, enfim, humanizá-los - este é o trabalho de Sacks, tão avesso à medicina tradicional. Por dar relevância às histórias pessoais, o autor não acredita em soluções f...

O homem que confundiu sua mulher com um chapéu (Oliver Sacks)

Ainda que o título do livro seja delicioso e gere a imediata curiosidade do leitor, a desconfiança em se ler uma obra da área médica sempre é grande - como leitora, me assustava com a possibilidade de termos técnicos impronunciáveis e relatos exageradamente céticos, exatos, reprodutores de verdades inquestionáveis da Ciência. E como é maravilhoso encontrar um autor que desmente todos esses (e outros) preconceitos! A escrita de Oliver Sacks é viciante. E, ainda que seja leiga na área, o autor não parece deixar a desejar no quesito metodológico. Comparado por muitos a Freud, por seus relatos de caso que não omitem a personalidade do paciente, Sacks advoga em nome de uma ciência mais humana, que enxergue o paciente em sua complexidade e não o reduza a efeitos de uma enfermidade. O caso que intitula a obra é apenas um dos muitos narrados pelo neurologista. Para aqueles que amam uma boa narrativa, é incrível perceber o quanto a mente humana é capaz de criar histórias mais profundas e su...