Pular para o conteúdo principal

Tempo de despertar (Oliver Sacks)

Meu autor de 2017 foi Oliver Sacks, que, mesmo longe do mundo literário, me apresentou as grandes possibilidades ficcionais da mente humana. Neurologista, o autor faz de seus diagnósticos relatos pessoais, em que podemos acompanhar casos clínicos quase inverossímeis de tão descolados da nossa realidade habitual.

"Tempo de despertar", primeiro livro do cientista, acompanha a história de pacientes aparentemente catatônicos e a descoberta de uma droga que irá "despertá-los" - de forma intermitente e não isenta de conflitos. O interessante nos relatos de Sacks é que, além de colocar-nos em contato próximo com cada doente, amplia o nosso paradigma acerca de conceitos complexos, como normalidade e loucura.

Dotar pacientes, considerados casos perdidos, de voz, notar suas personalidades, registrar seus desejos, enfim, humanizá-los - este é o trabalho de Sacks, tão avesso à medicina tradicional. Por dar relevância às histórias pessoais, o autor não acredita em soluções fáceis e padronizadas para sintomas e pessoas diversos. Somos seres únicos e cada organismo é um universo a ser desvendado.

Ainda que não seja minha obra preferida do autor (por ser seu primeiro lançamento, tem uma linguagem científica mais "pesada"), já anuncia o discurso humanista do médico, tão necessário no campo da ciência.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Armandinho 1, 2 e 3 (Alexandre Beck)

O personagem de cabelo azul já ganhou apelidos que o aproximam dos famosos Calvin e Mafalda. No entanto, o toque brasileiro é que faz a diferença e aproxima Armandinho de seus leitores. O garotinho, que não gosta muito da escola, mostra que a sabedoria vai muito além dos bancos da sala de aula. Desde questões políticas específicas - do Brasil ou de Santa Catarina - até piadas simples sobre assuntos cotidianos, a força das suas tirinhas reside também na versatilidade. O ponto de vista infantil nos serve de guia nesses quadrinhos, nos quais os adultos aparecem sempre retratados sob o viés da criança. Para comprovar esse fato, basta observar o traço: assim como na clássica animação dos Muppets, apenas as pernas dos personagens mais velhos são desenhadas. Se a semelhança com Mafalda está no aspecto irreverente (e nos cabelos que são marca registrada), com Calvin o parentesco vai além: em muitas das tirinhas, Armandinho aparece com seu bicho de estimação (um sapo que, inclusi...

Livre (Cheryl Strayed)

O que me interessou neste livro, com capa de autoajuda ("Uma história de superação") foi apenas seu tema: uma viagem no estilo mochileira que se tornou tão famosa a ponto de virar filme neste ano, com Reese Witherspoon no papel principal. Iniciei a leitura por curiosidade, mas pronta para largar o livro no primeiro capítulo, caso ele se mostrasse uma história mal construída. No entanto, best sellers podem sim esconder um conteúdo maravilhoso, com uma trama bem articulada e enredo cativante. Assim que iniciei a leitura de "Livre", me senti presa à história, que vai muito além da descrição da longa caminhada pela Pacific Crest Trail.  A autora, antes de nos apresentar sua jornada, explica os motivos que a levaram a caminhar por três meses sozinha ao longo de florestas, campos, neve, desertos. A análise madura que faz de sua própria vida, focando o vazio que causou a perda de sua mãe, é comovente. Suas dificuldades imensas ao longo da trilha (uma mochila que mal ...

O debate (Guel Arraes e Jorge Furtado)

Escrito no calor do momento, é um livro com prazo de validade; seu grande clímax é deixar o leitor na expectativa de saber quem ganhará as eleições de 2022 (Lula ou Bolsonaro). Com uma tentativa de reproduzir o conteúdo na forma, a peça teatral contempla o debate dos dois protagonistas: um casal de jornalistas recém-divorciado, ambos progressistas, que discutem com ardor sobre os rumos das transmissões eleitorais televisivas. Apesar de um ou outro argumento bem elaborado, o texto é a reprodução de falas já muito marcadas em todas as discussões de bar, acrescentando pouco ou nada de mais profundo ao panorama atual. De certa forma, ainda bem que o texto ficou datado: é preciso abrir caminhos a novos diálogos e enterrar de vez os fantasmas de um passado miliciano.