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Mostrando postagens com o rótulo Filme estadunidense

The center will not hold (filme de 2017)

Dirigido pelo sobrinho da escritora (o tio Nicky, de This is us), este é um documentário com um olhar bastante delicado para uma vida e a carreira prestes a se encerrarem. Há momentos de coincidências curiosas, já que Didion viveu também como roteirista de Hollywood: Harrison Ford, por exemplo, trabalhou como pedreiro na construção de sua casa. Mas o que pega mesmo é a veia trágica de uma mulher que perdeu marido e filha em um breve intervalo. Gostei de ter lido os livros referentes a esses episódios antes de ver o filme; é um bom caminho para entender a complexidade da obra de Joan.

Inquietos (filme de 2011)

Inquietos consegue ser um título-sinopse perfeito para esta recente obra do diretor Gus Van Sant. Novamente ele tematiza a juventude pelo seu viés trágico (só para lembrar: o diretor produziu Elefante, filme sobre o massacre da escola Columbine). Entretanto, aqui a dor dos adolescentes é outra, mais profunda: enquanto o protagonista Enoch tenta superar a perda dos pais, a personagem Annabel é obrigada a encarar a sua própria morte de perto, ao descobrir que o câncer que tem é fatal.   Depois de um encontro casual (que não poderia acontecer em outro lugar que não um velório), os dois jovens passam a compartilhar vivências e experimentam sensações ainda não testadas. Enquanto descobrem avidamente a juventude, sabem que a morte lhes espia de todos os cantos. O fim de Annabel se aproxima à medida que cresce o amor entre os dois protagonistas.   É um filme excelente, para assistir com a caixa de lenços de papel do lado. No entanto, não esperem por um sentimentalismo barato: o diret...

Casablanca (1942)

Para entender a importância deste filme, não há como desvinculá-lo do seu contexto: lançado em 1942, é uma alegoria de um mundo em pedaços, em que nada ainda está definido. Não é à toa que, em uma das suas citações mais famosas, o personagem de Humphrey Bogart diz: “Esta é uma história ainda sem final”. Dá para ler a produção como uma propaganda pró-EUA, incentivando a entrada do país na Segunda Grande Guerra – mas a narrativa se abre a várias outras interpretações. Além disso, o fato de não haver heróis sem falhas torna a trama ainda mais forte, já que seria tão fácil cair em maniqueísmos em tempo de guerra. Os conflitos retratados (o indivíduo x o coletivo / o amor x a guerra / o velho x o novo / a ação x a isenção) tendem a reverberar por todas as épocas, fazendo que a obra permaneça como um clássico.

Tumbledown (filme de 2016)

Filminho estilo Sessão da Tarde, com algumas reflexões interessantes sobre escrita e luto. O que a trama tem de melhor é o que ela deixa em aberto, como o motivo da morte em torno da qual os protagonistas elaboram seus textos. A trilha sonora - com um papel muito importante no enredo - não deixa a desejar. No conjunto, o que fica aquém do esperado é o romance romântico, pouco verossímil e mal desenvolvido.

A banda (filme de 2007)

Costumo gostar demais de enredos que narram um encontro marcante – e efêmero – entre desconhecidos; sob esse aspecto, “A banda” talvez seja um dos meus filmes preferidos. Eran Kolirin, diretor israelense, escolhe como protagonista de sua história um grupo de músicos egípcios. A fusão dessas nacionalidades nas telas, apenas 3 anos antes da eclosão da Primavera Árabe, é permeada de interpretações geopolíticas. A camada de leituras históricas é apenas uma das possibilidades de leitura da trama. São os conflitos humanos mais básicos que conduzem os personagens aqui: o embate entre uma geração conservadora e a irreverência da juventude, a liberdade e a opressão da mulher, a solidão e a convivência em família, o descaso pela arte e a necessidade que temos de compartilhar cultura. É uma daquelas raras obras que conseguem dar conta do todo em pouco mais de 1 hora de filme – e nem por isso o ritmo é acelerado. De certa forma, é até um filme lento… mas na medida certa. A atmosfera mais parada, q...

Anjos e Demônios (filme de 2009)

Bom entretenimento, o enredo traz os elementos básicos de um filme de suspense e investigação: desvendar o mistério junto ao espectador, propor reviravoltas, sugerir um caso amoroso para apimentar a trama. O que mais me prendeu foi o passeio pelos corredores inacessíveis do Vaticano, bem como aos documentos secretos do Estado. O tom de teoria da conspiração, que acomete tantos desmiolados hoje, é o aspecto que mais irrita na obra – talvez por refletir tanto a nossa realidade atual.

Nope (filme de 2022)

Talvez a missão de todo filme de terror seja deixar o espectador desconfortável; contudo, no modelo clássico do gênero, à apreensão sucede-se o alívio de descobrir a fonte do mal e eliminá-la. Em “Nope”, o incômodo maior não vem das cenas de sangue e morte (que não são poucas), mas de não entender nada do que acontece ao redor dos personagens. Não se trata, por isso, de uma obra ruim. A prova de sua qualidade são as inúmeras hipóteses dos espectadores sobre as intenções do diretor, que surgem logo após o término da exibição. Tampouco se trata de um enredo extremamente difícil; algumas alegorias se repetem com frequência, até se tornarem mais claras para quem tenta desvendar os enigmas da produção. Contudo, há uma ondulação de diferentes ritmos ao apresentar a história que não ajuda a sustentar o interesse até o final da trama. Além disso, o fato de contar com um protagonista que literalmente baixa a cabeça diante do perigo ainda é uma questão que me incomoda (e talvez devesse mesmo inc...

Clara Sola (filme de 2021)

Longa de estreia de Nathalie Álvarez Mesén, diretora costa-riquenha, “Clara Sola” reverbera alguns aspectos do filme guatemalteco “Ixcanul” (lançado sete anos antes). Não é difícil imaginar por que esses países, com pequenos territórios e uma extensa história em comum, tenham tanto para compartilhar. São as narrativas de povos silenciados por séculos – e ainda pouco ouvidas. Em ambas as produções, a protagonista tem uma relação fortíssima com a natureza, a ponto de se envolver fisicamente com os elementos da floresta. São duas mulheres reclusas em comunidades afastadas, nas quais vigora a tradição familiar e a religião do colonizador. No entanto, apesar das aproximações possíveis, são narrativas com uma trama própria a deslindar. Em “Clara Sola”, o que domina é ambivalência entre normalidade e loucura, profano e sacro, catolicismo e Pachamama, castidade e depravação. Saímos do filme sem ter respostas que desamarrem as ambiguidades; assim, navegamos entre os duplos de uma personagem que...

Harry & Sally (filme de 1989)

O filme traz meu aspecto preferido em histórias românticas (bem como nas relações que as inspiram): é tudo uma grande e interminável conversa, que segue com o passar dos dias. Ao assistir ao longo diálogo dos protagonistas, não pude evitar a associação com “Antes do nascer do sol”, assim como com o restante da trilogia de Richard Linklater. Por fundamentar a relação amorosa na amizade, não há propriamente um clímax na trama – ainda que passemos boa parte do tempo torcendo pela união do casal que intitula a obra. O mais importante é aquilo que antecede o encontro físico: o afeto, a confiança, a troca. Depois disso, o restante é adendo.

Gladiador (filme de 2000)

Filmes de ação costumam me perder logo nas primeiras cenas de luta. Em “Gladiador”, apesar da temática agressiva, há elementos que fazem o restante valer a pena. Priorizando o contexto de desenvolvimento da filosofia romana no qual se insere, o enredo é permeado de reflexões sobre o que é o poder, a república, a vontade do povo, o bem e o mal. Se não fosse pela escolha acertada dos atores, talvez a trama reverberasse em um maniqueísmo fácil. Contudo, a figura calma e concentrada de Russell Crowe nega o estereótipo do guerreiro valente; de forma parecida, Joaquin Phoenix representa um vilão com baixa autoestima e vacilante nas decisões que toma, por mais violentas que sejam. Quase um quarto de século depois de sua estreia, é uma obra que envelheceu bem, com questionamentos que seguem atemporais.

Minority Report (filme de 2002)

Usar as obras de ficção científica como um espelho distorcido do futuro é sempre um exercício interessante. Vinte anos depois do lançamento de "Minority report", algumas elucubrações passam longe do que nos espera no metaverso: como exemplo, a ideia de que para ver um vídeo seria necessário ter uma chapa de acrílico para projetar a gravação... em vez das tecnologias atuais, que nos permitem acessar qualquer vídeo ou foto com muito mais facilidade na nuvem. Apesar das apostas falhas, muito do que foi pensado no roteiro (baseado em uma história de Philip K. Dick) ainda pode vir a se cumprir em uma realidade próxima. São esses aspectos que acabam prendendo nossa atenção ao longo do filme, apesar das inverossimilhanças e infinitas cenas de luta do enredo.

Interview with the Vampire (Anne Rice) + Filme de 1994

Vampiros são imortais - e parece ser com base nesse pressuposto que Anne Rice cria uma narrativa longa, intrincada, infinitamente tediosa. Uma coisa ou outra se salva; afinal, a ideia do vampiro que quer saber sua origem não difere muito dos nossos velhos questionamentos primordiais (De onde vim? Para onde vou? O que existe após a morte?). O arquétipo do vampiro sem gênero definido, considerando a época de lançamento do livro, também é interessante. Só que não há boa intenção capaz de perdoar o flerte com pedofilia e incesto que existe na obra.  Com o quarteto Brad Pitt, Tom Cruise, Antonio Banderas e Christian Slater no auge da beleza, o filme consegue ser melhorzinho - ou ao menos um colírio para os olhos que tenta disfarçar uma história ruim. O fato é que o roteiro soa mais interessante que o original. Até os diálogos são mais bem trabalhados no cinema que no livro, com alusões literárias que passam longe da escrita mal estruturada da autora. No fim das contas, a adaptação para ...

Elvis (filme de 2022)

Fui ver "Elvis" no cinema porque filme que não seja de super-herói ou infantil nos cinemas do interior de SP é um evento; o fato de não ser dublado, quase um milagre. Não saber de nada previamente sobre a produção foi uma soma de surpresas boas, que culminou nos créditos, ao perceber que a direção era de Baz Luhrmann (mesmo diretor da versão de 1996 de "Romeu e Julieta", um dos meus filmes preferidos). A obra faz uma bela contextualização da música americana negra da época, e de como Elvis foi privilegiado por ser branco em uma época de forte segregação racial. Claro que a complexidade da apropriação cultural é apenas levemente matizada, já que o tema em si renderia muitas horas de discussão. No entanto, saí do cinema com a impressão de que essa abordagem da biografia do astro do rock, valorizando o contexto criativo do qual saiu, seria impossível há alguns anos.  Além disso, a opção por mostrar quanto da carreira e da vida de Elvis foram definidas por um empresário...

O rei leão (filme de 2019)

Tenho vontade de rever "O rei leão" desde que soube se tratar de uma releitura de Hamlet. Isso de saber um novo olhar para aquilo que já conhecemos é impactante - é impossível retirar a camada de significados, limpar nossa opinião do que agora a antecede. Não deu para não reconhecer Shakespeare. E não deu para não problematizar racismo, machismo e heteronormatividade. Depois de uma aula da Heloisa Pires Lima (autora de "Histórias da preta") sobre estereótipos étnicos, o contraste entre Mufasa/Simba (leões de pelagem clara e másculos) e Scar (com pelagem escura e trejeitos afeminados) ficou gritante. É uma oposição muito forte entre o branco bom e o escuro (que é mau ou serviçal). Para não falar da ideia de governante predestinado e das fêmeas passivas. A parte gráfica é impressionante, mas não dá para esconder o simbolismo que carrega.

Thelma & Louise (filme de 1991)

Talvez haja algum exagero ao longo do filme - mas a sensação de alma lavada ao ver as duas protagonistas botarem fogo no parquinho em situações machistas é impagável. Boa trilha sonora, ótimos atores, a direção conhecida de Ridley Scott coatuam para garantir a importância das questões discutidas até hoje.  Para uma obra produzida nos anos 1990, é incrível ver como o retrato de uma forte sororidade foi bem realizado. Fora o personagem do delegado, que tenta contrabalançar a malandragem dos caracteres masculinos com uma bondade inverossímil, todo o conjunto funciona. E que final apoteótico.

O céu de outubro (filme de 1999)

Com a participação de um Jake Gyllenhaal menino, o filme é quase que a biografia de um projeto de pesquisa. É difícil pensar em uma feira de ciências escolar como um momento épico, mas a obra tenta refazer o percurso de um adolescente encantado pela construção de foguetes e sem muitas perspectivas profissionais em uma cidade mineira do sul dos EUA. A oposição entre o interior das minas, nas entranhas da terra, e o desejo de desbravar o céu é interessante. Contudo, talvez o aspecto que mais encante no filme seja ver como um assunto escolar é capaz de cativar se for tratado da maneira certa.

Winnie-the-Pooh e The House at Pooh Corner (A. A. Milne) + filme de 1977

Eu não gostava nem um pouco do Ursinho Pooh quando pequena e vi que essa é uma impressão comum para quem assistiu aos desenhos do personagem. Mas que esse desgosto inicial não seja empecilho para a leitura: o livro é excelente, extremamente divertido. O que existe na obra original e que não conseguiu ser transposto para a tela é o tom brincalhão do narrador, a inserção de sutilezas graciosas a cada frase. O primeiro livro, especialmente, é de ler o tempo inteiro com um sorriso de canto na boca (isso quando não rindo alto). São vários os temas importantes que a obra abarca: a aquisição da linguagem, a alfabetização, os primeiros passos no mundo escolar... e tudo isso é tratado com leveza, mas de forma certeira. O segundo livro da coleção é quase tão bom quanto o primeiro. Seu maior mérito é o surgimento do personagem Tigrão, que talvez seja o mais carismático de toda a turma.  No entanto, é neste volume também que Bisonho deixa de ser um inocente azarado para se parecer demais com g...

Orgulho e preconceito (Jane Austen) + série de 1995 + filme de 2005

Faz tempo que Jane Austen estava na minha lista de autores a conhecer – mas, ao mesmo tempo, provavelmente o motivo de ter adiado tanto esse primeiro encontro seja a aura açucarada que parece acompanhar toda a sua escrita. Sem pesquisar um pouco do contexto, "Orgulho e preconceito" realmente dá a impressão de amorzinho fofo. Mas não é por ter escrito algo similar a uma coleção "Sabrina" do século XIX que a autora se fez reconhecida; há muito mais que a história de casamentos na estrutura da narrativa. Além da crítica à divisão da herança (que ficava restrita aos filhos homens de uma família), Austen mostra a mesquinhez de relações que são movidas unicamente pelo dinheiro. O pano de fundo das guerras napoleônicas, o surgimento da Revolução Industrial e uma maior maleabilidade entre as classes sociais (apenas as mais confortáveis em seu status, como novos ricos e aristocracia) também dão as caras no romance. A série de 1995: para quem gosta de uma adaptação fiel, é um...

O homem da máscara de ferro (filme de 1998)

 Tinha assistido a esse filme na época em que Leonardo DiCaprio era um jovem galã e maratonávamos qualquer obra que estrelasse. Ainda assim, tinha uma boa memória afetiva do longa, que resistiu ao passar dos anos. É uma ótima narrativa de capa e espada, com todos os elementos necessários para prender nossa atenção na tela: só atores bons, cenários de época recriados em ambientes reais, muitas reviravoltas, uma pitada de humor (e de amor romântico) aqui e ali. Assim como em O Conde de Montecristo (também livro do Dumas pai), o conjunto é coroado pela catarse de uma vingança que se come borbulhando.

Coda (filme de 2021)

 ​Com uma tradução de título péssima, o ganhador do Oscar deste ano foi batizado originalmente como "Coda" (tanto sigla para "Children of Deaf Adults" como nome de seção conclusiva de uma música). E é sobre esses elementos que o filme trata: o abismo de comunicação entre uma filha ouvinte e seus pais surdos, ainda que seja uma fissura repleta de cuidado e amor... e a música como rito de passagem. Para quem gosta de tramas bonitas, em que tudo se resolve e todos terminam bem, é uma ótima indicação. Eu prefiro enredos mais dramáticos, mas sei que um filme retratando a surdez sem tons trágicos é necessário. E que bom que o Oscar de melhor ator e o de melhor filme souberam reconhecer a importância desse debate.