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O homem que confundiu sua mulher com um chapéu (Oliver Sacks)

Ainda que o título do livro seja delicioso e gere a imediata curiosidade do leitor, a desconfiança em se ler uma obra da área médica sempre é grande - como leitora, me assustava com a possibilidade de termos técnicos impronunciáveis e relatos exageradamente céticos, exatos, reprodutores de verdades inquestionáveis da Ciência. E como é maravilhoso encontrar um autor que desmente todos esses (e outros) preconceitos!

A escrita de Oliver Sacks é viciante. E, ainda que seja leiga na área, o autor não parece deixar a desejar no quesito metodológico. Comparado por muitos a Freud, por seus relatos de caso que não omitem a personalidade do paciente, Sacks advoga em nome de uma ciência mais humana, que enxergue o paciente em sua complexidade e não o reduza a efeitos de uma enfermidade.

O caso que intitula a obra é apenas um dos muitos narrados pelo neurologista. Para aqueles que amam uma boa narrativa, é incrível perceber o quanto a mente humana é capaz de criar histórias mais profundas e surpreendentes do que a pena de qualquer escritor. 

Além das múltiplas possibilidades criadas pela mente, outro ponto fantástico na argumentação de Sacks é a revelação de que nem sempre uma enfermidade é, necessariamente, algo a ser curado. O médico narra alguns casos - tristes - em que a intervenção médica apenas tirou o brilho do paciente, reduzindo-o, no máximo, a um operário na linha de produção. Para a ciência tradicional, inserir o paciente no mercado de trabalho é mais valioso do que manter a sua capacidade criativa para a música, a poesia, as artes em geral. Com um olhar evidentemente mais humano que seus pares, Sacks aponta a crueldade de quem não consegue ver além da doença em um caso clínico.

Por fim, mas não menos importante, é fundamental o destaque que o escritor dá para a arte em diversos relatos. Ainda que não tenha uma capacidade curativa, é ela que dá alívio, inspiração e força a muitos pacientes - como, aliás, ocorre com todos nós (como já dizia Ferreira Gullar, a arte existe porque a vida não basta).



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