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Nada (Carmen Laforet)

Anton Tchékhov, o meu russo (e talvez o escritor) favorito, compunha contos em que nada acontecia. Sua concepção do gênero, diametralmente oposta à de um Edgar Allan Poe, não apostava em conflito, clímax, resolução. O que predomina em sua escrita é a criação da atmosfera e não a atenção aos fatos concretos, palpáveis. Como não lembrar da aura tchekhoviana, portanto, em um romance que traz o nada como título?

Primeira obra de Carmen Laforet, o romance foi publicado quando a autora tinha apenas 23 anos - e, inusitadamente, traz um olhar muito maduro e desesperançado sobre a realidade. O enredo conta a história de Andrea, jovem interiorana que vai morar com parentes quase desconhecidos durante sua graduação em Barcelona. Assim como a protagonista, somos arrastados para o centro de uma família desestruturada, com relações passionais, imersa na pobreza resultante da Guerra Civil. 

A obra não é um libelo contra a violência da ditadura franquista; no entanto, para bom leitor, basta um olhar mais atento às entrelinhas para captar a agudeza do discurso da narradora. Esta é uma história que se passa na Catalunha, em um período de grande opressão a qualquer tentativa nacionalista do estado. Dessa forma, a própria ambientação (e o fato de Andrea flanar pelas ruas de Barcelona) é um retrato devastador das carências de sua população. E a busca de independência da personagem não poderia ser também uma reivindicação da autonomia catalã?

Passível de múltiplas leituras, "Nada" é um livro potente e trágico. Tal como a tragédia aristotélica, abarca um período curto de tempo (1 ano), poucos personagens e uma família absolutamente disfuncional. E, ainda como bom fruto do gênero, é pura catarse.


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