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O sentido de um fim (Julian Barnes)

Se já é premissa validada a de que sempre devemos desconfiar de um narrador em primeira pessoa, ainda assim está longe de esgotar-se a nascente de possibilidades que esse recurso narrativo oferece. Em um livrinho curto e poderoso, o inglês Julian Barnes consegue, mais uma vez, pôr em xeque a autenticidade de um discurso (e, nos tempos em que vivemos, saber negar uma fonte com argumentos bem construídos é uma habilidade a ser urgentemente aprimorada).

Um dos truques utilizados pelo narrador em sua versão dos fatos é o de apontar suas próprias falhas - assim, o leitor sabe desde o princípio que não está diante de uma figura confiável. Dessa forma, estabelecido o pacto inicial de não confiabilidade, nos deixamos levar pela narrativa do ponto de vista que nos é oferecido - afinal, nosso impulso natural é preencher as lacunas da história, sem pensar que elas podem ter sido deixadas assim de forma proposital.

Após finalizar a leitura, acreditei ter entendido alguns dos mistérios do romance; no entanto, foi só entrar em contato com a experiência de outros leitores de Barnes para perceber o quanto havia deixado passar, múltiplas possibilidades que não havia considerado. Para quem se delicia com dilemas insolúveis na literatura, como a suposta traição de Capitu, é uma obra absolutamente imperdível.




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