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Sonetos (Luís de Camões)

Toda lista de leituras ditas necessárias (sejam os 1001 livros para ler antes de morrer, sejam os 10 mais indicados pelos críticos) é ideologicamente construída; sendo assim, muito do nosso julgamento relativo à literatura é política e culturalmente enviesado. Contudo, mesmo em um contexto em que tudo pode (e deve) ser questionado e relativizado, alguns casos específicos de genialidade ao longo da nossa história são difíceis de negar. Ninguém contesta a grandeza de um Da Vinci, de um Beethoven... ou de um Camões.




Não só a amplitude da obra do renascentista português é um atestado do seu espírito engenhoso; para além dos Lusíadas, há riquezas e postura vanguardista inegáveis nas outras formas de composição cultuadas por Camões - como podemos ver, por exemplo, em seus sonetos.

Construídos por meio de jogos de lógica extremamente complexos, boa parte de seus poemas neste formato é quase enigmática - não só desafiam o leitor, como o convidam para uma leitura mais lenta, mais pausada, que não oferece todos os seus significados de uma só vez. Camões exige um leitor que seja digno de suas refinadas construções vocabulares, capaz de atingir o âmago de seu canto.

Ademais, algumas características de um ou outro poema confirmam que o poeta não estava preso a nenhuma escola literária: há tanto os conflitos com a religião, que antecipam o Barroco, quanto um exagero hiperbólico na descrição do amor, que acaba soando romântico. Na seleção, encontramos inclusive um poema que louva o verso livre modernista (no século XVI!) e outro que coloca a figura do leitor ativo, tal como definido por Barthes no século XX.
De extremo engenho e arte, Camões se grava na memória e se inscreve na história.



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