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Terra Sonâmbula (Mia Couto)

Publicado no ano do fim da guerra civil em Moçambique, "Terra Sonâmbula" é um romance que tem como cenário a desolação, os conflitos, as fugas e um permanente medo do porvir. Não por acaso, dois dos protagonistas da obra representam as duas pontas da vida: o velho Tuahir e o menino Muidinga. O passado marcado por tristezas do país caminhava ao lado de um futuro incerto, com poucas esperanças nas quais se fiar.

Esta não é, contudo, a única alegoria da narrativa; aproveitando-se do tom de ensinamento dos velhos griôs, Mia Couto vai tecendo suas parábolas em um universo ora dominado pelo realismo mágico, ora por uma realidade trágica, isenta de magias possíveis. O elemento enigmático de algumas histórias e profecias ajuda a construir a ideia do sagrado na trama e a instigar a curiosidade do leitor - afinal, nem toda palavra quer ter seus significados revelados...

Ainda que haja farta presença de mistérios no enredo, ele não chega a tornar-se hermético. Mesmo que algumas alegorias causem estranhamento, a voz poética de Mia Couto mergulha o leitor nas linhas de sua narrativa. O encantamento surge pela poesia, pelos aforismos; este é um livro de ensinamentos e de estesia.

Ademais, é uma narrativa para pensar o futuro. O personagem Vinticinco de Junho, em uma clara referência à política do país, começa de forma patética (transformado em galinha) e termina a obra de forma visionária e amarga. E por falar em final, "Terra Sonâmbula" tem um desfecho claramente inspirado em "Cem anos de solidão" (ou seja, um dos melhores finais que você vai ter a chance de ler).



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