Pular para o conteúdo principal

Terra Sonâmbula (Mia Couto)

Publicado no ano do fim da guerra civil em Moçambique, "Terra Sonâmbula" é um romance que tem como cenário a desolação, os conflitos, as fugas e um permanente medo do porvir. Não por acaso, dois dos protagonistas da obra representam as duas pontas da vida: o velho Tuahir e o menino Muidinga. O passado marcado por tristezas do país caminhava ao lado de um futuro incerto, com poucas esperanças nas quais se fiar.

Esta não é, contudo, a única alegoria da narrativa; aproveitando-se do tom de ensinamento dos velhos griôs, Mia Couto vai tecendo suas parábolas em um universo ora dominado pelo realismo mágico, ora por uma realidade trágica, isenta de magias possíveis. O elemento enigmático de algumas histórias e profecias ajuda a construir a ideia do sagrado na trama e a instigar a curiosidade do leitor - afinal, nem toda palavra quer ter seus significados revelados...

Ainda que haja farta presença de mistérios no enredo, ele não chega a tornar-se hermético. Mesmo que algumas alegorias causem estranhamento, a voz poética de Mia Couto mergulha o leitor nas linhas de sua narrativa. O encantamento surge pela poesia, pelos aforismos; este é um livro de ensinamentos e de estesia.

Ademais, é uma narrativa para pensar o futuro. O personagem Vinticinco de Junho, em uma clara referência à política do país, começa de forma patética (transformado em galinha) e termina a obra de forma visionária e amarga. E por falar em final, "Terra Sonâmbula" tem um desfecho claramente inspirado em "Cem anos de solidão" (ou seja, um dos melhores finais que você vai ter a chance de ler).



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Armandinho 1, 2 e 3 (Alexandre Beck)

O personagem de cabelo azul já ganhou apelidos que o aproximam dos famosos Calvin e Mafalda. No entanto, o toque brasileiro é que faz a diferença e aproxima Armandinho de seus leitores. O garotinho, que não gosta muito da escola, mostra que a sabedoria vai muito além dos bancos da sala de aula. Desde questões políticas específicas - do Brasil ou de Santa Catarina - até piadas simples sobre assuntos cotidianos, a força das suas tirinhas reside também na versatilidade. O ponto de vista infantil nos serve de guia nesses quadrinhos, nos quais os adultos aparecem sempre retratados sob o viés da criança. Para comprovar esse fato, basta observar o traço: assim como na clássica animação dos Muppets, apenas as pernas dos personagens mais velhos são desenhadas. Se a semelhança com Mafalda está no aspecto irreverente (e nos cabelos que são marca registrada), com Calvin o parentesco vai além: em muitas das tirinhas, Armandinho aparece com seu bicho de estimação (um sapo que, inclusi...

Livre (Cheryl Strayed)

O que me interessou neste livro, com capa de autoajuda ("Uma história de superação") foi apenas seu tema: uma viagem no estilo mochileira que se tornou tão famosa a ponto de virar filme neste ano, com Reese Witherspoon no papel principal. Iniciei a leitura por curiosidade, mas pronta para largar o livro no primeiro capítulo, caso ele se mostrasse uma história mal construída. No entanto, best sellers podem sim esconder um conteúdo maravilhoso, com uma trama bem articulada e enredo cativante. Assim que iniciei a leitura de "Livre", me senti presa à história, que vai muito além da descrição da longa caminhada pela Pacific Crest Trail.  A autora, antes de nos apresentar sua jornada, explica os motivos que a levaram a caminhar por três meses sozinha ao longo de florestas, campos, neve, desertos. A análise madura que faz de sua própria vida, focando o vazio que causou a perda de sua mãe, é comovente. Suas dificuldades imensas ao longo da trilha (uma mochila que mal ...

O debate (Guel Arraes e Jorge Furtado)

Escrito no calor do momento, é um livro com prazo de validade; seu grande clímax é deixar o leitor na expectativa de saber quem ganhará as eleições de 2022 (Lula ou Bolsonaro). Com uma tentativa de reproduzir o conteúdo na forma, a peça teatral contempla o debate dos dois protagonistas: um casal de jornalistas recém-divorciado, ambos progressistas, que discutem com ardor sobre os rumos das transmissões eleitorais televisivas. Apesar de um ou outro argumento bem elaborado, o texto é a reprodução de falas já muito marcadas em todas as discussões de bar, acrescentando pouco ou nada de mais profundo ao panorama atual. De certa forma, ainda bem que o texto ficou datado: é preciso abrir caminhos a novos diálogos e enterrar de vez os fantasmas de um passado miliciano.