Pular para o conteúdo principal

Tempo de despertar (filme de 1990)

Quando me propus a ler "Tempo de despertar", do neurocientista Oliver Sacks, estava em uma fase de absoluta paixão pelo autor. Esta obra, primeira a ser publicada por ele, acabou estancando um pouco minhas ganas de lê-lo; por ser um livro de estreia, conta ainda com uma linguagem um tanto pesada, demasiado científica. Demorei meses para terminar a leitura. E um dos capítulos que fez valer a pena chegar até o final é o que revela os bastidores do filme homônimo.

Sacks, representado nas telas por Robin Williams, analisa com um olhar atento o processo de incorporação de personagem tanto por seu próprio intérprete como por Robert De Niro. É uma delícia o relato do médico, que vai percebendo aos poucos como o ator vai se apropriando de seus trejeitos - desde a gestualidade até o modo de pensar. Pelo relato do escritor, também ficamos conhecendo um pouco mais do processo criativo de Robert De Niro - suas atuações de crises nervosas eram tão verossímeis que chegaram a confundir o corpo médico dos bastidores.

O filme, além de contar, portanto, com atuações excelentes, é um ótimo complemento para a leitura. Os relatos do neurocientista são tão impressionantes que apenas por meio do longa consegui visualizar, de fato, o que eram as crises descritas por ele. Com um final absolutamente melancólico (que apenas reproduz um contexto real), é uma obra tocante.



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Cartas a um jovem poeta (Rainer Maria Rilke)

Esse é um daqueles livros que de tão recomendados, citados, comentados, já parecem ter sido lidos antes mesmo da primeira virada de página. Tinha uma visão consolidada de que o tema desta obra eram os conselhos que um escritor pode passar a outro - e não imaginava que, antes de tudo, essas cartas são uma espécie de manual para a vida. Tão necessário, aliás. Rilke se ancora na literatura, mas passeia por caminhos diversos: a solidão, a escolha da mulher, as amizades, os valores morais de cada um... Como um mestre frente a seu discípulo, o escritor o guia pela mão através do mundo. Nem sempre os seus ensinamentos são indiscutíveis. Há material que sobra, existem conselhos deixados de fora. Mas, superando seus pequenos deslizes como filósofo, Rilke se apoia na força das palavras. Seu discurso é uma torrente que nos leva, com um vigor romântico contagiante. Trechos: Uma única coisa é necessária: a solidão. A grande solidão interior. Ir dentro de si e não encontrar ninguém durante h...

Armandinho 1, 2 e 3 (Alexandre Beck)

O personagem de cabelo azul já ganhou apelidos que o aproximam dos famosos Calvin e Mafalda. No entanto, o toque brasileiro é que faz a diferença e aproxima Armandinho de seus leitores. O garotinho, que não gosta muito da escola, mostra que a sabedoria vai muito além dos bancos da sala de aula. Desde questões políticas específicas - do Brasil ou de Santa Catarina - até piadas simples sobre assuntos cotidianos, a força das suas tirinhas reside também na versatilidade. O ponto de vista infantil nos serve de guia nesses quadrinhos, nos quais os adultos aparecem sempre retratados sob o viés da criança. Para comprovar esse fato, basta observar o traço: assim como na clássica animação dos Muppets, apenas as pernas dos personagens mais velhos são desenhadas. Se a semelhança com Mafalda está no aspecto irreverente (e nos cabelos que são marca registrada), com Calvin o parentesco vai além: em muitas das tirinhas, Armandinho aparece com seu bicho de estimação (um sapo que, inclusi...

Momo e o senhor do tempo (Michael Ende)

Michael Ende é o autor alemão de "Uma história sem fim", um enredo mágico que foi adaptado para os cinemas e ganhou uma grande legião de fãs nos anos 80 e 90. Vasculhando sua bibliografia, descobrimos que o sucesso da narrativa de Atreyu não é isolado: seu criador é um grande contador de histórias, daquelas que realmente não merecem ter fim. A garota Momo, protagonista desta trama, é um ícone da inocência que não deve ser perdida na infância - ela sabe viver seu tempo, sem se submeter às regras dos adultos (sempre tão atarefados). Seus conhecimentos não vêm da escola, mas dos ensinamentos da comunidade e da natureza; seu grande atrativo é ter o dom de escutar em um mundo em que ninguém quer se ouvir. E é com essas qualidades, tão naturais e simples, que a menina enfrenta as tramoias elaboradas pelos ladrões do tempo. Apesar do cenário fantástico e da linguagem acessível, o melhor interlocutor para esta narrativa é o adulto - principalmente aquele que já tem fi...