Pular para o conteúdo principal

Roma (filme de 2018)

Os primeiros minutos de "Roma", em que assistimos à sequência de alguns dos créditos do filme, já dizem muito do que o espectador pode esperar dessa obra: é um longa que resgata características de um cinema mais antigo (tal como vemos na exposição antecipada dos nomes dos envolvidos na produção e na escolha pelo preto e branco), com uma incrível fotografia e sequências inusitadas de imagens (como o avião espelhado na poça de água do chão recém-lavado). Seguindo com a metáfora da cena da aeronave, é também um filme que trabalhará, com sensibilidade, contrastes tão profundos como o céu e o rés-do-chão. E, por fim, é uma obra muito mais contemplativa do que a que estamos acostumados a assistir atualmente.

Dito isso, é preciso ressaltar que o longa talvez peque em alguns pontos. Apesar de ser uma obra relativamente longa (mais de 2 horas), não há um interesse genuíno em explicar o contexto da protagonista. Uma vez que o panorama exibido é o do México dos anos 1970, um aprofundamento histórico poderia tornar mais marcantes os muitos temas sociais que o filme aborda. Mesmo que o foco principal seja retratar uma protagonista sem voz, não há muita justificativa para o apagamento histórico. Pelo contrário: a personagem - indígena, empregada doméstica e babá, em uma relação de espelhamento e oposição à patroa -, é nada mais do que fruto do seu contexto.






Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Armandinho 1, 2 e 3 (Alexandre Beck)

O personagem de cabelo azul já ganhou apelidos que o aproximam dos famosos Calvin e Mafalda. No entanto, o toque brasileiro é que faz a diferença e aproxima Armandinho de seus leitores. O garotinho, que não gosta muito da escola, mostra que a sabedoria vai muito além dos bancos da sala de aula. Desde questões políticas específicas - do Brasil ou de Santa Catarina - até piadas simples sobre assuntos cotidianos, a força das suas tirinhas reside também na versatilidade. O ponto de vista infantil nos serve de guia nesses quadrinhos, nos quais os adultos aparecem sempre retratados sob o viés da criança. Para comprovar esse fato, basta observar o traço: assim como na clássica animação dos Muppets, apenas as pernas dos personagens mais velhos são desenhadas. Se a semelhança com Mafalda está no aspecto irreverente (e nos cabelos que são marca registrada), com Calvin o parentesco vai além: em muitas das tirinhas, Armandinho aparece com seu bicho de estimação (um sapo que, inclusi...

Livre (Cheryl Strayed)

O que me interessou neste livro, com capa de autoajuda ("Uma história de superação") foi apenas seu tema: uma viagem no estilo mochileira que se tornou tão famosa a ponto de virar filme neste ano, com Reese Witherspoon no papel principal. Iniciei a leitura por curiosidade, mas pronta para largar o livro no primeiro capítulo, caso ele se mostrasse uma história mal construída. No entanto, best sellers podem sim esconder um conteúdo maravilhoso, com uma trama bem articulada e enredo cativante. Assim que iniciei a leitura de "Livre", me senti presa à história, que vai muito além da descrição da longa caminhada pela Pacific Crest Trail.  A autora, antes de nos apresentar sua jornada, explica os motivos que a levaram a caminhar por três meses sozinha ao longo de florestas, campos, neve, desertos. A análise madura que faz de sua própria vida, focando o vazio que causou a perda de sua mãe, é comovente. Suas dificuldades imensas ao longo da trilha (uma mochila que mal ...

Cartas a um jovem poeta (Rainer Maria Rilke)

Esse é um daqueles livros que de tão recomendados, citados, comentados, já parecem ter sido lidos antes mesmo da primeira virada de página. Tinha uma visão consolidada de que o tema desta obra eram os conselhos que um escritor pode passar a outro - e não imaginava que, antes de tudo, essas cartas são uma espécie de manual para a vida. Tão necessário, aliás. Rilke se ancora na literatura, mas passeia por caminhos diversos: a solidão, a escolha da mulher, as amizades, os valores morais de cada um... Como um mestre frente a seu discípulo, o escritor o guia pela mão através do mundo. Nem sempre os seus ensinamentos são indiscutíveis. Há material que sobra, existem conselhos deixados de fora. Mas, superando seus pequenos deslizes como filósofo, Rilke se apoia na força das palavras. Seu discurso é uma torrente que nos leva, com um vigor romântico contagiante. Trechos: Uma única coisa é necessária: a solidão. A grande solidão interior. Ir dentro de si e não encontrar ninguém durante h...