Natalia Ginzburg se tornou uma de minhas escritoras
favoritas, mesmo que tivesse conhecido apenas uma obra dela até então
("Léxico familiar"). Assim como Tchekhov, que me fisgou de primeira,
a autora tem uma capacidade de síntese acachapante. Talvez o ambiente descrito,
com suas muitas arengas e sutilezas familiares, também tenha sido um elemento
forte de identificação.
Se a beleza de "Léxico familiar" passa
pela construção de um vocabulário íntimo, de um glossário a que os poucos
membros de uma mesma família têm acesso, a força de "Todos os nossos
ontens" vai ainda além. Natalia consegue descrever a passagem do tempo e
fatos históricos, como a II Guerra, como se nada de grave estivesse realmente
acontecendo.
Sua escrita centra-se na rotina: falas que os
personagens constantemente repetem, ações que os constroem enquanto seres
dúbios e falhos. E, ainda assim, é nesse cotidiano cinzento (sem glórias, sem
salvas aos pequenos heróis) que a vida se faz e desfaz. É quase como se os
protagonistas estivessem alheados do que lhes ocorre, fixados em uma rotina que
não é o espelho das grandes mudanças em suas vidas.
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