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Ricardo III (Shakespeare)

Ricardo III é um livro sobre a arte da persuasão, empregada em um contexto político no qual os personagens estão em permanente embate pelo desejo de ter mais poder. Desde as primeiras falas, o discurso eloquente do protagonista nos abarca totalmente; assim, até a dificuldade inerente à trama (que apresenta uma quantidade enorme de personagens e um contexto histórico muito distante de nossa realidade) é amenizada pelo interesse que gera. A rápida ascensão e queda de Ricardo III é uma alegoria exemplar das ambições humanas, frágeis e passageiras. Assim, a famosa interjeição "Meu reino por um cavalo!" é o fecho de uma narrativa permeada de arrependimentos e que expõe a público a tolice de nossas vaidades.

Macbeth (filme de 2015)

Não consigo pensar em uma releitura mais adequada para Shakespeare do que a que é proposta neste filme. É claro que as obras do bardo inglês propõem inúmeras possibilidades de interpretação; no entanto, se mantido o contexto histórico no qual se desenrolam, dificilmente encontraremos outro longa tão bem-sucedido. Com uma fotografia sombria, a produção dá a ambientação adequada para a tragédia. As falas, reproduzidas tal qual aparecem no texto original, se aproximam muito da representação teatral para a qual inicialmente foi destinado. Forte e profundo, o filme sabe casar bem com as palavras do renomado inglês.

ABC of reading (Ezra Pound)

Conhecido no mundo das letras por seus posicionamentos políticos questionáveis (quando não deploráveis), Ezra Pound é uma figura que incomoda. O mesmo sentimento se aplica em relação aos seus escritos sobre literatura, bastante enviesados (quando não autocentrados). No entanto, o tom petulante de Pound não deixa de dar a graça a um livro que é essencialmente feito de crítica literária. Longe do tom sisudo da academia, a obra acaba sendo uma delícia de ler - mesmo que tantas vezes discordemos das generalizações e dogmas de seu autor. Calcada na ideia de uma boa literatura que engloba um círculo muito restrito de autores, é uma obra que perde muito com o olhar mais crítico que nossa modernidade exige. Ainda assim, não deixa de ser um bom livro para iniciar a leitura mais atenta de poemas.

A ascensão de Skywalker (filme de 2019)

Fim da saga mais recente de Star Wars, provavelmente não é o melhor da trilogia - afinal, em um mundo complexo e dinâmico como o criado por George Lucas, o natural é que sobrem pontas soltas e dúvidas ao término de um arco narrativo. Dentre os três filmes, provavelmente este é o mais divertido; há tantos alívios cômicos ao longo das 2h20 de exibição que a obra até perde um pouco o caráter de jornada épica. Não deixa de ser interessante como entretenimento, mas decai muito em qualidade em relação ao segundo filme.

A vida invisível (filme de 2019)

Os primeiros minutos de "A vida invisível" me deixaram ressabiada; afinal, um dos indícios de uma adaptação mal-sucedida de livro para as telas costuma ser a voz do narrador transposta tal qual aparece na obra literária: uma enunciação onisciente e que claramente lê trechos do livro-base enquanto as cenas se desenrolam. No entanto, em pouco tempo a produção desfaz essa má impressão inicial para se tornar uma obra de arte bem pensada e que tem sim uma linguagem própria muito bem trabalhada. Com atuações potentes (para não dizer da participação brilhante de Fernanda Montenegro), o filme sabe como conquistar o espectador. De todos os aspectos que me agradaram, o que mais me tocou foi a visão particularmente feminina da realidade. Várias opressões e angústias que afligem o gênero são delicadamente retratadas, de uma forma sutil (mas que não se abstém de ser politicamente demarcada).

Uma beleza fantástica (filme de 2016)

Dentre os aforismos de Cícero, há um que diz que quem tem uma biblioteca e um jardim não precisa de mais nada. Esse mote poderia ser utilizado para resumir bem o filme em questão, que realiza um passeio prazeroso por esses dois aspectos da vida. Ainda que bastante fofinho, o longa não é de todo previsível; deixa como surpresa a resolução inusitada de um triângulo amoroso e o fato de escolher uma protagonista com alguma síndrome, que não chega a ser nomeada. Simples e belo, é um filme que rende bons frutos.

Um dia de chuva em NY (filme de 2019)

Talvez a diferença no recorte temático deste filme de Woody Allen seja a apresentação de um triângulo amoroso com personagens na casa dos 20 anos; de resto, a produção segue vários dos recursos empregados pelo diretor em suas últimas obras: diálogos rápidos, cenas água com açúcar, romances e traições. Selena Gómez é o ponto alto do filme, com uma interpretação justa para a personagem que lhe cabe. Fora isso, é mais do mesmo (com um recorte bastante misógino das relações amorosas).